A voz das ruas é o guia da instigante literatura de Sérgio Vaz. Suas palavras não fazem concessões com aqueles que procuram nos colocar medo todos os dias, nem com os que promovem a promessa barata de que a felicidade está ao alcance de todos. Com a mente repleta de sonhos e pesadelos, o poeta dispõe à nossa frente todas as faces que capta da realidade cotidiana. Nesse livro, Vaz joga sua rede no mundo das crônicas, e pesca o que há de esperança e desesperança na vida. Como observador das marés, de nossas tormentas e maremotos, ele mergulha fundo na alma dos invisíveis, dos desterrados, dos sem-nome, dos sem-lugar, dos sem aquilo que um dia foi prometido a todos, mas que acabou sendo apenas permitido a uma pequena parcela da humanidade: a plena cidadania. Como pontua certeiramente Heloisa Buarque de Hollanda na apresentação da obra, "lendo Literatura, pão e poesia, e sintonizando com o autor, que declara ler 'livros como quem foge das galés', descortinamos a visão da literatura como carta de alforria, disseminada na periferia de São Paulo e em outras quebradas por esse corsário das ruas, o poeta Sérgio Vaz".
Esse livro reúne crônicas de Sérgio Vaz, mas ele não conseguiu deixar a poesia das coisas de lado, não. Os temas abordados em verso são trazidos para uma narrativa boa e cheia de força, cheia de frases nos colocando a real. Essas crônicas ampliam a nossa noção de sociedade (como que a falta de escola influencia no futuro de uma pessoa, por exemplo), faz críticas duras aos governantes (muito anteriores a esse momento, elas transitam entre 2006 e 2010), homenageia lindamente os professores, exalta a beleza e o milagre da poesia fincada nas palavras e no suor do povo da periferia, que recupera a poesia pela oralidade. É esplêndido!
A ficha catalográfica de "Literatura, pão e poesia" o classifica como coletânea de contos, mas na verdade são crônicas. Nelas, Sérgio Vaz fala do cotidiano na periferia de São Paulo, homenageia amigos e mães e milita pela educação por igualdade social.
Eu não sou afeita a obras panfletárias e por isso tive dificuldade com os primeiros textos. Mas como acho importante conhecer o autor, insisti na leitura e fui recompensada. "Sugestões poéticas para o acordo ortográfico e outros acordos", "Sombras miúdas" e "Atestado de antecedência" são algumas de minhas crônicas favoritas.
As prosas poéticas "Folha da amargura" e "Corsário das ruas" me deixaram curiosa para conhecer a poesia de Vaz. Para quem não sabe, o autor se notabilizou por meio dela e por ser um dos fundadores da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia). A organização promove, entre outras atividades, saraus semanais em Taboão da Serra.
As palavras de Sérgio Vaz inspiram. Inspira artisticamente, porque me peguei no meio da noite com ideias do que escrever, mas também inspira mudança. Como ele diz no livro, "a verdadeira arte não embala os adormecidos. Desperta-os." Outra citação que gostei foi: "para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade". O livro me deu um otimismo aterrado, uma esperança. Acho que a única coisa que não gostei tanto é que, mais para o fim, as ideias pareceram um pouco repetitivas.
Não vou analisar o mérito do autor e nem a leitura de mundo dele, não apenas pela subjetividade dos critérios, mas também por não querer interferir em sua leitura de mundo, ainda que para lê-lo, neste livro, não podemos de forma alguma desconsiderá-los por completo. No entanto, tais critérios, pelo menos para mim, não podem ser e não são suficientes para sustentar os textos deste livro na literatura como um compêndio criativo com diferentes qualidades. Claro, também não o desestima. E, vejam bem, não digo ou nem entro no mérito de questões de gosto pessoal, como determinar algo que é ruim ou bom, que vale ou não vale, mas sim que, no contexto histórico de produção literária, são textos repletos de imagens gastas, cansadas e que não exprimem, pelo menos para mim, que o leio de fora, a autenticidade da vivência de quem as escreve. Eu não consegui ver este mundo pelo olhar exclusivo de Sergio Vaz, mas sim neste lugar-comum que pode até acender centelhas, mas sem afoguear os parágrafos com uma luz que não se apaga, que se retroalimenta. Aliás, os textos “conselheiros”, nos quais o autor lista uma série de pérolas que soam mais como minutos de sabedoria do que como poesia, quase sempre com base em oposições e dicotomias, falsos paradoxos e dilemas, me deixam preso, enquanto leitor, nesse lugar-comum onde o autor me parece forjar-se como sábio numa esfera que, por princípio, nos deixa impedidos de inclusive de discordar dele e/ou de questioná-lo sem usar, como mencionei logo no começo, o mérito e leitura de mundo como coringas para escapar da crítica. Considerando outros autores, tanto os majoritariamente comerciais, quanto periféricos, não tenho como, por ora, com a leitura deste livro em específico, pensar diferente disso. Mas ficarei atento para ser surpreendido sempre, não porque dou o benefício da dúvida, mas sim porque acredito que a literatura se faz nos desafios do cotidiano e, especialmente, nos olhos que os traduzem.