A voz das ruas é o guia da instigante literatura de Sérgio Vaz. Suas palavras não fazem concessões com aqueles que procuram nos colocar medo todos os dias, nem com os que promovem a promessa barata de que a felicidade está ao alcance de todos. Com a mente repleta de sonhos e pesadelos, o poeta dispõe à nossa frente todas as faces que capta da realidade cotidiana. Nesse livro, Vaz joga sua rede no mundo das crônicas, e pesca o que há de esperança e desesperança na vida. Como observador das marés, de nossas tormentas e maremotos, ele mergulha fundo na alma dos invisíveis, dos desterrados, dos sem-nome, dos sem-lugar, dos sem aquilo que um dia foi prometido a todos, mas que acabou sendo apenas permitido a uma pequena parcela da humanidade: a plena cidadania. Como pontua certeiramente Heloisa Buarque de Hollanda na apresentação da obra, "lendo Literatura, pão e poesia, e sintonizando com o autor, que declara ler 'livros como quem foge das galés', descortinamos a visão da literatura como carta de alforria, disseminada na periferia de São Paulo e em outras quebradas por esse corsário das ruas, o poeta Sérgio Vaz".
Não vou analisar o mérito do autor e nem a leitura de mundo dele, não apenas pela subjetividade dos critérios, mas também por não querer interferir em sua leitura de mundo, ainda que para lê-lo, neste livro, não podemos de forma alguma desconsiderá-los por completo. No entanto, tais critérios, pelo menos para mim, não podem ser e não são suficientes para sustentar os textos deste livro na literatura como um compêndio criativo com diferentes qualidades. Claro, também não o desestima. E, vejam bem, não digo ou nem entro no mérito de questões de gosto pessoal, como determinar algo que é ruim ou bom, que vale ou não vale, mas sim que, no contexto histórico de produção literária, são textos repletos de imagens gastas, cansadas e que não exprimem, pelo menos para mim, que o leio de fora, a autenticidade da vivência de quem as escreve. Eu não consegui ver este mundo pelo olhar exclusivo de Sergio Vaz, mas sim neste lugar-comum que pode até acender centelhas, mas sem afoguear os parágrafos com uma luz que não se apaga, que se retroalimenta. Aliás, os textos “conselheiros”, nos quais o autor lista uma série de pérolas que soam mais como minutos de sabedoria do que como poesia, quase sempre com base em oposições e dicotomias, falsos paradoxos e dilemas, me deixam preso, enquanto leitor, nesse lugar-comum onde o autor me parece forjar-se como sábio numa esfera que, por princípio, nos deixa impedidos de inclusive de discordar dele e/ou de questioná-lo sem usar, como mencionei logo no começo, o mérito e leitura de mundo como coringas para escapar da crítica. Considerando outros autores, tanto os majoritariamente comerciais, quanto periféricos, não tenho como, por ora, com a leitura deste livro em específico, pensar diferente disso. Mas ficarei atento para ser surpreendido sempre, não porque dou o benefício da dúvida, mas sim porque acredito que a literatura se faz nos desafios do cotidiano e, especialmente, nos olhos que os traduzem.