Mais um dos conjuntos absolutamente arrebatadores do maior escritor brasileiro do século XIX. Passando por contos clássicos, como A igreja do diabo, Cantiga de esponsais, Capítulo dos chapéus, Anedota pecuniária; até outros menos lidos como A senhora Galvão, Singular ocorrência, Fulano, Galeria póstuma, o livro recenseado por Machado de Assis em 1884 de contos publicados no ano 1883 e no início do ano seguinte traz o que há de melhor na prosa machadiana. Os contos refletem o Brasil da modernidade, ainda que se chamem "sem data", como aponta o escritor em sua advertência da 1ª edição; mas, como também argumenta Marta de Senna, as obras de Machado não são propriamente ditas atemporais, já que refletem muito bem o Brasil do Império e sua modernização liberal.
Contudo, com a clássica ironia e ambiguidade machadianas, tudo em seus belíssimos contos são fruto de dúvida e arrebatamento, bem como uma forte sensação de mal-estar com que finalizam; isso pode ser demonstrado facilmente na leitura de contos magistrais como a Uma senhora, Noite de almirante e, claro, A senhora Galvão; contos cujos pontos finais são socos no estômago, com o poder de destruição irônica, mas profundamente ambígua destas breves narrativas. O poder de concisão, é claro, ajuda, mas não custa lembrar que sensações similares estão também em Esaú e Jacó e nas Memórias Póstumas de Brás Cubas. O narrador, que narra de maneira a se eximir dos maiores absurdos que lá aparecem, traz comumente um desvelo do ser humano cínico, hipócrita, numa organização social esquizofrênica que é a brasileira, ainda mais esta, isso é, a da modernização liberal num meio escravista, de diálogos humanizadores que recorrem à fina tradição ocidental enquanto escuta de sua mucama qual o lenço deveria enrolar no pescoço para o baile noturno.
Enfim, Machado de Assis demonstra, como sempre, sua agudeza e genialidade narrativa neste pequeno livro, de narrativas curtíssimas mas bastante arrebatadoras. Histórias para se ler com cuidado, das lágrimas e dos risos, e definitivamente para vislumbrar um pouco do que se é.