Nos 27 metros quadrados do apartamento onde se passa a narrativa, o mar parecia remoto e a angústia de estar longe da praia para o protagonista da trama só não é maior que a angústia de vê-lo se afogar no maremoto de medos, obsessões e neuroses que invadem sua casa.
Diante do caos interno que se instala nele pelo caos instalado no mundo, nos assusta perceber a quantidade de vezes em que nos identificamos com a trama. Você se questiona se a ficção traz muitos aspectos da realidade ou se a realidade é que está muito parecida com uma ficção. E se alguém não se identificar com absolutamente nada neste livro, é assustador que uma pessoa tenha sido atravessada pela realidade distópica da pandemia alheia a tudo isso.
Embora o livro não seja autobiográfico, o autor alagoano Eduardo Leite escreveu a narrativa durante os meses que passou em total isolamento, saindo de seu apartamento apenas para tirar o lixo, numa espécie de laboratório da vida real, imposto pela pandemia. Maremoto coloca-nos diante da fragilidade humana e nos faz perceber como rapidamente podemos sucumbir emocionalmente, diante da falta de controle sobre a vida.
Rhamayana Barreto, jornalista
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Maremoto conta a história de um rapaz gay que se muda de uma cidade pequena onde se sente sufocado para morar em uma kitnet em uma grande metrópole que fica a dez horas de ônibus de sua cidade natal. Tentando fugir das limitações físicas e psicológicas de uma cidade pequena, ele se vê trancado em um apartamento de 27m² durante meses por conta de uma doença que tomou conta da cidade (e do país) logo depois de sua mudança. Escrito durante a pandemia de Covid-19, Maremoto é um romance ficcional, porém qualquer semelhança com a realidade não é apenas coincidência.
Jornalista, alagoano e canceriano, Eduardo Leite faz jus ao que dizem sobre seu signo. As emoções foram tantas durante a pandemia e o distanciamento social que este se tornou o tema não apenas de seu romance de estreia, Maremoto, mas também do livro de poesia Poemas do isolamento, lançado em 2020, e de sua tese de doutorado em Comunicação, em andamento no Póscom/UFBA. Maremoto não é um livro autobiográfico – mas qualquer semelhança com a realidade pode não ser mera coincidência... Você pode encontrar o autor no Instagram (@eduardoleitev), no Twitter (@eduardoleite) e na Twitch (@eduardoleitev).
Este livro foi realmente uma grande onda que passou por mim tão intensa e rapidamente que não deu tempo nem de pegar ar antes do caldo. E não falo apenas do processo de escrita intenso de trabalho ininterrupto, sem subir para respirar, mas de todo o processo do financiamento coletivo e a feitura de um livro de forma independente, sem grandes recursos, e tendo que fazer boa parte das coisas eu mesmo. Obviamente, é impossível publicar um livro completamente sozinho (e nem o quero) e sou muito grato a todo mundo que contribuiu de alguma forma para que este livro fosse publicado, seja trabalhando diretamente na história (Carlos, meu revisor, muito obrigado!; meus amigos que fizeram leitura sensível, muito obrigado!), apoiando no financiamento coletivo, me ouvindo falar sobre Maremoto ou compartilhando a campanha na internet. Este livro não teria existido sem nenhuma dessas pessoas. Muito obrigado!
Se você chegou agora a esta história, você ainda pode adquirir a versão física de Maremoto diretamente comigo no link: https://forms.gle/CegoangjKRm15TM38 ou em e-book pela Amazon.
"Eu não vim a este mundo para não morrer de amor" poderia resumir o livro. De uma delicadeza tocante, de uma agudeza em nos provocar sentimentos tão paradoxais (que é o que todos estamos vivendo de diferentes formas nesta pandemia), o livro transmite aquilo que deve transmitir a todos os seus leitores e com proporções ímpares. Um aviso: você pode ser qualquer um dos personagens apresentados por Eduardo. Eu escolhi ser Ishmael porque quero ser amor que brota e não sucumbe.
Vou parecer suspeita se disser que o livro de Eduardo enche os olhos d’água como mar em noite de lua cheia. Eduardo escreve com uma simplicidade e uma exatidão que faz com que nenhuma vírgula ou palavra seja excessiva ou desnecessária. Ainda bem que você existe e que se confunde com suas personagens. Leitura mais do que recomendada!
É um romance que conta a história de uma rapaz que se muda de sua cidade para viver outra. e se confronta com diversos sentimentos de insegurança perante um momento novo, no qual o mundo está enfrentando a pandemia. Achei interessante a dinâmica da história.
Um rapaz gay se muda de cidade para viver novos ares, mas sua vida [e a do resto mundo] acaba tomando outro rumo, devido a pandemia do Covid-19 que tomou início em 2020. Sozinho em um pequeno apartamento, longe de familiares e amigos, ele precisa lidar com o medo crescendo, o isolamento e as notícias avassaladoras de mortes a mil. Pontos positivos: 1 é muito perceptível a situação emocional abalada do protagonista, conforme a os meses passam e as coisas não parecem realmente melhorar; 2 por mais que não seja, necessariamente, próximo a minha experiência no início da pandemia, é interessante ver algumas coisas sendo comuns do que foi mencionado por várias pessoas: as compras online desenfreadas, a obsessão por hobbies e afazeres; a limpeza obsessiva; 3 o epílogo deu uma leveza no livro, mostrando que ele precisava de pessoas que ama ao seu lado e que é necessário aprender a viver novamente. Pontos negativos: 1 por mais que entendemos que o protagonista está passando por coisas sozinho e é passível de erros, ele usando as roupas antigas da falecida vizinha e ele jogando coisas pela janela do seu apartamento são comportamentos inescusáveis; 2 a passagem de capítulos as vezes é muito brusca e nem sempre recebemos informações posteriores sobre algo que acontece [por exemplo: a mãe do protagonista].
Quando eu comecei a ler Maremoto, costumava imaginar a imagem do Eduardo nos espelhos e nas janelas dos vizinhos do narrador. Essa imagem foi começando a se tornar cada vez mais rarefeita com o desenrolar das páginas, nebulosa, com o personagem se tornando cada vez mais com você mesmo e com qualquer outra pessoa ao mesmo tempo, você se aproxima e se afasta, você concorda e se revolta. A noção do tempo e a própria identidade do personagem vão se perdendo na imensidão daquele mar conflituoso e bravio que se desvelava pela mente confusa, quase febril, de alguém que foi se transformando no isolamento num espectro de si mesmo. E você se entrega a esse torpor, essa acomodação letárgica junto com esse cara, se deixando levar pelo mar de páginas tempestuosas numa calmaria sem fim de alguém que naufragou em seus pensamentos e está agora numa deriva confusa, tendo ilusões atormentadas sem esperanças de encontrar terra à vista. Maremoto é sobre saber se deixar levar pelo mar, se deixar carregar para o fundo e saber quando tomar fôlego pra vir a tona, e se permitir navegar por outros oceanos.
Que leitura sensível e imensamente tocante. Já conhecia a escrita do Eduardo Leite por conta de Poemas do Isolamento e essa leitura só reforçou o grande escritor que ele é. Confesso que já tinha tentado ler Maremoto antes, inclusive na época do lançamento, mas por conta da extrema sensibilidade que ele traz no livro, tive que abandonar nas vezes que tentei ler antes. Agora foi o oposto, não conseguia parar de ler e me encantar com a sensibilidade e forma com que o Eduardo descreve todas as cenas. Realmente me senti dentro daquele apartamento de 27 metros, vivenciando e sentindo tudo o que era narrado. Justamente por isso acredito que não consegui ler antes. Super recomendo o livro, mas já avisando que pode ser uma leitura bem difícil por se tratar de um tema tão delicado para quem sobreviveu à pandemia e, principalmente, para quem perdeu um ente querido para a Covid-19. É um excelente livro para que as gerações futuras possam entender um pouco como foi a confusão de sentimentos que tivemos na época da pandemia.
No início eu tava gostando e me identificando com o personagem como qualquer pessoa que tenha vivido o isolamento, acredito eu, mas chegou uma parte em que eu não conseguia ir além na história porque ficou maçante e toda identificação que eu tinha criado, foi para o lixo. Eu cheguei a comentar em uma atualização aqui que o personagem só podia ter muito privilégios -muito dinheiro também- e realmente, chegou uma hora que ele falava umas coisas que faltou um pouco de noção de classe, certos ataques desnecessários. Sem contar alguns pontos que se mostravam importantes para história e ficaram perdidos pelo caminho, nem se quer tiveram um final. Enfim, vi alguém comentando que não se sentiu como público alvo pq vem de uma realidade diferente e eu concordo, só uma pessoa com muito privilégio para se identificar.
Não tenho como colocar defeitos neste livro que merecia um filme cult. No início tive que dar umas pausas por se tratar das guinadas que nossos psicológicos deram e ainda dão durante essa pandemia, percebi que muitas das coisas escritas aconteceram comigo durante este tempo. A linguagem utilizada pelo autor é muito gostosa, poética, culta, mas com pitadas regionais, rebuscado no ponto, sem deixar de ser fluído. E quantos sentimentos! Quantos momentos hilários!E o final é uma coisa a parte, é maravilhoso! Traz aquela esperança de que tanto precisamos. Amei! Favoritado!
Um bom livro! Muito agonizante visitar as memórias desses tempos e lê-las pensando na deterioração da saúde mental de quem pôde se comprometer com o isolamento. Na leitura, o desafio me pareceu acompanhar/superar a monotonia do passar das páginas como expressão daquele limbo que o protagonista se enfiou; mas, uma vez vencido, chegam os bonitos refrescos ao final. E que bom!
Uma história potente que te envolve do início ao fim! A escrita de Edu é muito segura e te guia de forma muito competente pela jornada (especialmente interna) do protagonista. Excelente leitura!
Eu tenho tantas coisas pra falar sobre esse livro! Eu comecei amando muito, achando de uma sensibilidade e ao mesmo tempo crueza gigantescas a forma como o Edu construiu essa narrativa pandêmica sob a ótima do isolamento, do medo e da solidão. O Edu de fato escreve bem demais e me fez sentir novamente o que eu senti em momentos do auge da pandemia, colocando em palavras e em situações ficcionais aquilo que passou pela minha vida ou pela minha cabeça, já que, assim como o protagonista dessa história, o isolamento social também me levou à loucura rs.
Porém, senti que, na medida em que as páginas iam avançando, a história permanecia no mesmo lugar, o que me gerou sentimentos ambíguos, porque, ao mesmo tempo que achei que a monotonia da narrativa funcionou como metalinguagem já que a vida em isolamento em si foi monótona, acabei perdendo o encanto pela leitura. No futuro, pessoas que não viveram, em fase adulta, o isolamento social, vão poder ler Maremoto e sentir um pouco do que nós sentimos, mas, para mim, que vivi recente esse momento, o livro acabou ficando cansativo.
Por fim, preciso dizer que eu estava amando o final!! No final da história, eu voltei a me encantar pela leitura, mas aí virei uma página e... o livro não tinha acabado (aaah!). Edu, por que me mataste? Hahah tava tão bom sem o epílogo :(, achei que o epílogo enfraqueceu muito a história, tornou a coisa meio sessão da tarde rs, e é por isso que não consegui dar 4 estrelas pra Maremoto, precisei tirar essa meia estrela por conta do epílogo, além de uma estrela tirada pelo cansaço que a leitura me gerou.
Mas NO FIM DAS CONTAS, o Edu é incrível, esse livro é ótimo e tô ansiosa pelos próximos dele. Fim.