As águas encantadoras, migratórias e de esperança de Terra Úmida
Terra Úmida de Myriam Scott é uma narrativa que tece o símbolo da passagem de tempo, uma contagem dos anos nada escassa: há ternura, delicadeza e força amazônica no romance de Myriam: a memória de Abner e de sua família migrar para o Amazonas e recomeçar uma vida adaptada às águas de Manaus entre a superfície do rio e a precariedade de uma vida totalmente nova.
A família sefardita chega em uma nova terra, com esperanças, projeções promissoras e uma vida tranquila. Cortar a vida pelos rios de barco parece interessante e encantador.
Mas essa família perde a figura materna que integra parte importante e fio condutor no romance, e Abner se olha nos rios sem se ver. Onde está sua existência? Como diz Bethânia: “diante da imagem do espelho, ai daquele que não se vê”. Delicado: Não se toca nestas memórias de mãe sem mãos de delicadeza.
A morte da mãe instaura outra configuração familiar, pois ela tomava conta de tarefas que os homens da família não faziam: o trabalho doméstico, o papel de gênero invisível que nós fazemos.
A mãe deixa diários íntimos dirigidos a Abner e ao menor: o que dá a Abner um afago na alma: a mãe estava presente em palavras e escritos.
Mais do que um romance sobre migração, Syme sofre as violações como mulher e seus diários são a liberdade de se expressar. O que me lembra muito Virgínia Wolf: “Eu tenho este diário, e li como se sempre lê a própria escrita”
“Mil coisas a serem escritas se eu tivesse tempo: se eu tivesse poder. Um pouco de escrita usa minha capacidade de escrever.”
Virginia Woolf
Syme ao escrever revelava o íntimo de si mesma que não podia revelar no seio familiar. Syme deixou diários e cadernos como Virginia Woolf. Te convido a entender essa relação de mãe e filho, Abner e Syme. Fazer essa leitura desdobrável sobre os rios amazônicos que tem muita história pra contar: mais que uma terra úmida, uma terra de construção ficcional inteligente, viva, pura, de reviravoltas de personagens que deixam o leitor curioso sobre o por quê essa terra revela tantos segredos.