Histórias marcadas pelo sofrimento e pela luta de um povo simples que justifica as suas desgraças com histórias de bruxas, um povo de fé inabalável que enfrenta doenças com benzedeiras e sofre com gritos misteriosos que urgem no calar da noite, capazes de matar esse povo de angústia. Essa angústia de saber que vivemos em tempos em que nossos museus se apagam em cinzas, em tempos que vemos a nossa história largada ao acaso, Quinze Embruxos é um livro necessário, uma celebração das histórias que justificam o nome Ilha da Magia.
A primeira coisa a se dizer é que provavelmente essas histórias não terão o mesmo impacto em você caso nunca tenha morado na Ilha da Magia. Todos ficarão imersos nos contos querendo conhecer os seres fantásticos e suas ações, mas eu, tendo morado em Floripa por quase 7 anos, me senti transportado para lugares conhecidos só que em épocas passadas e vendo o sobrenatural acontecer bem ali onde eu já estive. Foi uma experiência muito interessante.
Esse livro também foi uma boa rememoração aos livros de Franklin Cascaes, que na verdade é um dos grandes homenageados de Quinze Embruxos, junto com os manezinhos e toda a cultura ilhoa.
Alguns dos contos me tocaram bastante (spoilers adiante), dois deles foram Velhos e Sentimentais e Um Gritador em Florianópolis. O primeiro é o que encerra o livro, e muito coerentemente seu conteúdo é bem sentimental, no sentido de ser um pesar sobre a vida e os costumes que estão acabando, o que se relaciona perfeitamente com o fim da leitura de um livro. O segundo eu menciono porque além de me apresentar uma das criaturas mais horrendas de todas e que eu nunca tinha ouvido falar, esse conto me deixou com muita tensão. Em geral não é um livro de suspense ou terror, mas esse conto em particular conseguiu despertar essa emoção em mim.
Por último menciono que existem alguns personagens que possuem comportamentos moralmente detestáveis, eles refletem um pensamento dominante da época mas que ainda existe infelizmente, por isso me causou incômodo. Mas o André quis denunciar esses comportamentos ao trazer eles juntos o retrato da cultura local, afinal, nunca é um mar de rosas.