Com Presos por um Fio chega-nos finalmente o relato livre e documentado de uma das páginas mais negras da história do Portugal recente. É o trabalho de investigação que vem resgatar do esquecimento colectivo a trágica tentativa de impor - pela força das armas e do terror - ao povo português um projecto político que ele explicita e reiteradamente rejeitara.
Estudo histórico que conta pela primeira vez toda a verdade sobre as FP-25 de Abril, Presos por um Fio é também uma chamada de atenção para como uma outra vez na história contemporânea portuguesa forças de extrema-esquerda passaram do combate político ao extermínio físico daqueles que considerava seus inimigos.
Este imperdível livro de estreia de Nuno Gonçalo Poças conta ainda com o prefácio de Paulo Portas.
Um livro que fazia falta escrever e que espero que seja o início de futuras publicações sovre um tema que não interessa a muitos que seja relembrado - o terrorismo causado pela extrema-esquerda, responsável por dezenas de mortes, assaltos a bancos e tentativas de assassinato por todo o país. A grande preocupação que houve por parte dos políticos da esquerda e seus dirigentes em alcançar uma amnistia para estes envolvidos nas FP-25 de abril, desvalorizando e negligenciado as vítimas deste terror, que incluía um bebé de meses, a que Otelo Saraiva de Carvalho se referia como "erro técnico". Tal como refere o autor, que este tema não continue a ser uma mera nota de rodapé da História.
É um livro de leitura obrigatória que relata e documenta um dos períodos mais negros da democracia em Portugal. Presos por um Fio conta como as FP25 de Abril, uma organização terrorista de extrema esquerda, tentou submeter Portugal a uma violência inaceitável para impor um novo autoritarismo definido no Projecto Global.
2,5 valores, equivalentes a 10 de 0 a 20 (preferiria esta escala). Livro com interesse, sobretudo, pelo tema. O autor é advogado (não é historiador, por conseguinte; nem tinha de sê-lo, mas parece aspecto relevante). O livro foi escrito, segundo o próprio, a partir da ideia, inicial, de escrever um ensaio para um jornal, que posteriormente se adensou e alargou até ao livro. A escrita revela um registo por vezes heteróclito, v.g. com afirmações que parecem não encontrar fundamento outro que não seja a visão pessoal do autor, ou juízos de valor acentuados, a par com elementos mais factuais, sem distinção clara entre os dois registos. Na página 32, por exemplo, referindo-se às eleições presidenciais de 1980, aduz Gonçalo Poças que o país se moderava politicamente, o que estaria, considera, expresso nos respectivos resultados, mas refere que tal não faria parar os passos da esquerda radical ou, acrescenta, "a vaidade de Otelo". Não há uma referência, uma discussão mínima em torno de uma afirmação como esta (que, supõe-se, implicaria i) uma caracterização psicológica do visado e ii) o estabelecimento de uma relação mais clara entre tal caracterização e a posterior acção, designadamente nos contextos em apreço), nem sequer em nota de rodapé. Fica-se com a ideia de ser uma impressão (entre muitas) do autor. Nas páginas 26-27, cita Vera Lagoa, directamente, sobre Mário Soares, o PS e o PCP, dizendo que as afirmações da jornalista são debatíveis, apenas para, logo em seguida, afirmar que "parecem acertadas". Cabe perguntar: parecem a quem? Por que razão? Que confronto com a historiografia sobre a época, ou outra sistematização analítica qualquer, legitimam tal parecer? No que toca a "origens" de uma organização como aquela tratada, no plano internacional, como no nacional, parecem as comparações ser efectuadas de forma absolutamente incidental e superficial, sem se ascender a uma tipificação sequer elementar, um patamar rudimentar de abstracção que permitisse uma comparação minimamente sistematizada. Por outro lado, no plano conceptual, ligam-se eventos da ordem dos movimentos sociais, como o Maio de 68, com uma espécie de "ambiente" do qual decorreriam grupos radicalizados, sem qualquer sistematização conceptual digna desse nome, dir-se-ia. Acresce que, quer no plano internacional, quer no plano nacional, referenciam-se no livro organizações e grupos da extrema-esquerda, sobretudo, o que faz sentir a falta, a determinado passo, da referência a estruturas comparáveis de outros quadrantes políticos e ao seu eventual papel nos sucessivos contextos em análise. Uma afirmação que causa alguma perplexidade é a de ser importante distinguir a compreensão da justificação dos actos, afirmando-se, porém, que "há determinados factos históricos que não podem ser justificados nem compreendidos" (p.52). De forma muito prosaica, o que não se compreenderia, a ser assim, seria a intenção de escrever um livro sobre actos que, aparentemente, seriam incompreensíveis (irracionais? misteriosos? inacessíveis?). Já não se remete para uma discussão teórica mais funda em torno destas noções, uma vez que, de resto, a formação do autor não é do domínio das ciências sociais. Utiliza-se esta referência por ser o próprio autor a recuperar, de forma algo atabalhoada, conceitos essenciais nestas, como o de "compreensão". O livro parece basear-se, sobretudo, na utilização de fontes secundárias e terciárias, o que talvez acarrete - presume-se - que não traga grandes novidades documentais, sendo, estranhamente, alguns (não muitos) elementos oriundos de fontes que se afigurariam primárias introduzidos ao longo do texto, não figurando na bibliografia (curta) nem, tão-pouco, em nota de pé-de-página ou referenciados de qualquer outa forma quando surgem no texto. Apenas se indica o seu nome, nada mais. Parece, pois, haver um trabalho menos cuidadoso neste plano, como no da revisão (algo que é referido na crítica elaborada ao trabalho no jornal Expresso). Lateralmente, julga-se que seriam de evitar expressões pouco abonatórias para o próprio autor, como quando, na página 77, se refere a Agostinho da Silva, eminente filósofo, como o "filósofo da moda do final dos anos 80". A classificação positiva radica, afinal, no que se afirmou no início: a pertinência do tema; e, adicionalmente, em algum esforço de recolha e sistematização de informação realizado pelo autor.
Um livro corajoso este escrito por Nuno Gonçalo Poças.
Desconhecia a esmagadora maioria dos detalhes que acontecerem neste período negro da História recente de Portugal, dos esforços do poder político da década de 80 para indultar, amnistiar e escamotear as acções de terroristas que assaltaram, feriram e mataram (em primeira mão ou planeando).
As impressões sobre esta atitude dariam para muitas linhas e discussões mas para mim, que desconhecia quase por completo o que aconteceu, ter ficado a saber que uma organização terrorista (as FP-25 de Abril) assassinou pessoas (supostos inimigos do "poder popular" e das "massas") entre 1980 e 1987 e nada lhes aconteceu para além das já habituais prisões preventivas é uma vergonha.
Não estamos a falar de crimes cometidos em pleno processo revolucionário (que também estes mereciam mão da justiça) mas de actos bárbaros cometidos já com a democracia estabilizada.
Uma nota final : vivi até aos meus 5 anos na Marinha Grande, entre 1981 e 1986, em pleno período de actividade dos terroristas. Tantos foram os alvos da Marinha (pessoais e/ou materiais - dois foram assassinados e um ficou paraplégico) relatados neste livro que é incrível como isto me devolve um enquadramento tão diferente que eu tinha da minha própria infância e daqueles dias tão alheados de tamanha barbaridade. Percebo agora não ser exagerado quando o meu pai conta que, durante um tempo, à saída da fábrica, verificava se havia bombas debaixo do carro.
Um livro que fazia falta à sociedade portuguesa. A violência, a brutalidade, a interferência política (olhe-se para as amnistias ou para as condecorações) e a confusão jurídica (como de costume) não podem ser esquecidas. E graças a Nuno Gonçalo Poças, não o serão.
Dito isto, o livro não se encontra particularmente bem escrito: alguns dos capítulos são densos, com informação demasiado detalhada que não é particularmente relevante para o tema central do livro.
Ainda assim, uma contribuição fundamental para o debate em torno da História portuguesa do século XX.
O livro é muito crítico do sistema político e judidicial, o que é muito justo. É também crítico de uma certa maneira mansa de ser portuguêes, o que também é certeiro, embora seja triste. Lido por uma pessoa de esquerda, o que provavelmente não é o caso do autor, é uma leitura triste e lamentável. Apaziguar-me--ía que o autor escrevesse sobre outros crimes, comos os do verão quente de 75 abençoados pela Santa Madre Igreja e pelo seu sinistro Cónego Melo. 4 estrelas, porque não há preconceito ideológico.
Um livro bem fundamentado e documentado. Quando leio estes documentos fico com a certeza de que os poderosos se protegem mutuamente. A arraia miúda é que se trama sempre. Mas é um documento importante para perceber o que se passou naquela década embora seja talvez demasiado extenso nas questões muito técnicas.
Um bom livro que mostra como nao fomos capazes de com penalizar os que estiveram envolvidos nas FP-25 e a fraqueza das instituicoes portuguesas, embora a que ter em conta que estavamos no principio de um estado democratico. Tambem mostra como nao fomos capazes de desligar Otelo heroi do 25 de Abril de Otelo o terrorista e deixamos passar uma imagem que estavamos a julgar o heroi e o proprio 25 de Abril em vez do terrorista e os seus crimes. Tambem mostra o mau papel feito por Mario Soares, Ramalho Eanes e Sampaio neste caso condecorando e amnistiando membros das FP-25. Por fim o papel dos partidos com destaque para o sempre PCP entrando e saindo da influencia deste movimento,do Bloco de Esquerda que acaba por receber 5 membros e por fim do PS que acaba por receber um membro e nunca conseguiu de forma clara descolar-se dos partidos a sua esquerda, mantendo sempre um carinho com estes, minando a democracia e os principios liberais que decidimos seguir no 25 de Abril
Boa compilação de informação. Falha um pouco na clareza, na organização e devida referenciação de fontes. Faz um algo excessivo uso de linguagem emocional e enviesada, afirmações que obrigariam a sustentação adicional que o autor frequentemente não oferece. Ilustra um país que infelizmente ainda existe em demasia, assolado por muitos dos mesmos problemas, ainda que o terrorismo que estes permitiram felizmente já não se sinta.
É um livro que revisita um período deliberadamente esquecido da nossa História coletiva. Muito bem documentado, não deixando praticamente nada sem a referência para consulta autónoma. E revela à saciedade a politização deste processo e a forma como foi tratado e, injustamente, aceite e esquecido pela generalidade do povo português.
Interessante para conhecer um pouco melhor a história das FP-25 e a gravidade da situação que a esquerda em Portugal tenta desvalorizar e fazer esquecer.