a noite avança e estás sozinho num quarto interior deitado e de lanterna acesa a ler "Fotocópias" de John Berger à espera que alguém se recorde dos teus vinte poemas em dez anos e da tua voz grave
e ninguém telefona
o teu nome desaparecido no primeiro nevão do ano és apenas um bicho enterrado na neve ou no que resta dela"
ninguém
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"e um dia fundir-te-ás com a sombra que carregas pelo mundo e que não consegues vender
nessa altura mergulharás na escuridão evitarás paisagens claras voltar-te-ás para dentro só respiração e resquícios de poesia lírica"
só respiração
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A angústia patente nestes poemas seduziu-me. Acho admirável, louvável, que alguém escreva abertamente, e de forma tão despojada, sobre este espaço de solidão que todos temos (todos temos? Acredito que todos o tenhamos, mesmo que não o saibamos nomear).
do corpo que me espera e a quem levo tumulto e frenesim e duas ou três palavras sussurradas sussurrantes que entram pelos orifícios do prazer e ressoam em todos os lugares primitivos onde habita ainda o animal que tentamos domar
o tempo suspende o seu avanço
apenas breves gemidos que converto em sinais de uma língua que só nós deciframos”