Art noveau/decorativa/erotica/simbolismo do xix são definitivamente um guilty pleasure - especialmente sob uma ótica mais matelialista, como é o caso aqui.
Primeiramente, as camadas que envolvem cada obra fazem delas intrigantes e mágicas:
"O tema desejado para Os Quadros das Faculdades 'A Vitória da Luz sobre a Obscuridade' tinha por objetivo uma apoteose, uma justificativa e uma glorificação das ciências racionais e da sua ação útil para a sociedade. Nos três quadros que lhe foram confiados: A Filosofia, A Medicina e A Jurisprudência, Klimt todavia rejeitou com veemência uma visão racional do mundo."
• A Filosofia: "O destino é sempre o mesmo. Longe do saber frio e claro, longe também do mistério do mundo eternamente disfarçado, a espécie humana esforça-se por lutar pela felicidade, mas continua sempre a ser um instrumento nas mãos da Natureza que a utiliza para o seu objetivo imutável: a procriação.'
[A obra] já não permite qualquer possibilidade de identificação com a história (...), recusa-se a ficar fixa no espaço e no tempo. A ideologia da burguesia decadente elimina o caráter histórico que ainda tinha sido o campo de orientação no historismo do século XIX, substituindo-o pela Natureza, que por seu lado não possui qualquer história, mas que conhece apenas um movimento circular intemporal que gira sobre si mesmo. Este ciclo suscita ambientes, emoções e sentimentos, mas nenhum saber ou reconhecimento - e, por conseguinte, também nenhuma representação de um domínio racional da Natureza, da subjugação da Natureza pelo Ser Humano. E é justamente sobre esta dinâmica da subjugação da Natureza, dinâmica reforçada pela técnica e desencadeada pelo capitalismo, que o otimismo progressita da burguesia se baseia."
• A Medicina: "A vida desenrola-se entre o Tornar-se e o Morrer, e a própria vida, no seu caminho entre o nascimento e a morte, cria este profundo sofrimento para o qual Higia, a filha miraculosa de Esculápio, encontrou o remédio mitigador e curador." - Ernst Stöhr
"A Higia de Klimt anuncia a ambiguidade na sua atitude hierática por meio de símbolos que a antiguidade grega lhe tinham dado: Higia, ela própria uma transformação da serpente em ser humano, oferece à serpente a taça cheia com água de Letes para beber o líquido das suas origens mais primitivas. Klimt proclama com isso a unidade da vida e da morte, a penetração da força vital instintiva e da dissolução individual."
"Nada aqui indica a medicina como a arte curadora e a ciência que reconcilia o contraste entre a vida e a morte. Nessa concepção pessimista do eterno Tornar-se e da Morte, a medicina (Higia) apresenta-se como um mistério da esfinge."
"O peso principal da alegorização dessa pintura é suportado pelas mulheres, que representam esse Tornar-se cíclico. (...) Klimt expôs a sua concepção de mundo como um protesto, uma contradição do passado, mas também como um projeto do futuro de uma nova cultura feminina."
• A Jurisprudência: "A justiça aparece como uma força punidora e vingadora com ambições drásticas e sexuais. (...) As representantes da lei estão bem no cimo da composição, portanto, no ponto mais importante da hierarquia, mas a atenção do espectador concentra-se sobre as personagens que saltam primeiro à vista devido à sua grandeza: o velho representado como uma vítima e, com isso, o herói desta alegoria, encontra-se em baixo no primeiro plano do quadro, e as três "Erínias da Lei" que, na sua qualidade de executoras da justiça e míticas forças vingadoras, parecem aqui ser mais importantes que a própria justiça. (...) Klimt estava longe de pretender dirigir a sua crítica, em primeiro lugar, contra o papel político e social da justiça, transpondo-a, pelo contrário, para um domínio dos contos míticos, onde o medo masculino face à força vingadora do feminino oprimido e os fantasmas da punição está situado no centro: 'O medo da castração reina sobre a ação de Klimt e torna-se o centro: a vítima do sexo masculino - passiva, agachada, impotente - é prisioneira de uma armadilha viva, um polvo que a envolve como o regaço de uma mulher. As Fúrias que supervisionam a execução são mulheres fatais do "fin de siècle" e mênades gregas numa só pessoa.
"O mundo da Lei de Klimt (...) faz lembrar a poderosa solução de "Orestes" de Aquiles. (...) Quando Atena construiu o seu tribunal para a sociedade, o Areópago, convenceu as Erínias a serem as suas protetoras e reprimiu a força destas, introduzindo-as no seu próprio templo. A razão e a cultura celebram assim o seu triunfo sobre o instinto e a barbaridade. Klimt inverte esse simbolismo antigo, devolve a sua força original às Fúrias e mostra que a Lei não ultrapassa nem o horror nem a violência e nada mais fez do que os esconder e legitimar.
(...) Em A Jurisprudência, Klimt descreve o conflito entre o artista e a sociedade como um conflito essencialmente psicossexual, patente na representação impregnada de medo da ameaça do homem pela natureza instintiva da mulher."
A contextualização foi outro ponto que me chamou a atenção, porque permitiu entender melhor o que a busca da liberdade e o culto ao artista realmente significavam para a Secessão:
"A sagração da experiência artística tinha começado no final do século XVIII com a concepção burguesa do museu e traduziu-se na arquitetura do museu classicista e historicista. A arquitetura dos edifícios culturais do início do século XIX (...) ofereceu um enquadramento adaptado à experiência artística 'reveladora'. Já nessa época se atribuia uma certa importância à forma de entrada e saída desse 'templo da arte' e à passagem da esfera da cultura para a do mundo cotidiano e profano."
Além da transparência e da minuciosidade crítica com que o autor busca entender os acontecimentos pelo que realmente são:
"(...) por ocasião da exposição de arte de 1908, Klimt lamentou num discurso que as exposições da Secessão não conseguiram fazer 'penetrar a infiltração cada vez mais forte de toda a vida com intenções artísticas' e foi sobre esta infiltração que se fundou 'o progresso da civilização'. Estas pallavras mostram que Klimt confessou o fracasso do conceito da Secessão. Eliminar as fronteiras entre a arte e a vida em nome da arte era um dos objetivos da Secessão e da sua atividade expositora.
A ideia de que a arte podia modificar a sociedade tinha já sido expressa no movimento das artes decorativas do século XIX (...). O artesanato, a indústria e a arte deviam formar uma unidade com vantagens para todos. O "aperfeiçoamento artístico dos produtos comerciais e industriais deviam servir para aumentar o seu volume de vendas e lucros, como também para a "cultura" da sociedade, uma cultura graças à qual se pensava poder interessar os artistas, os produtores, as pessoas cultas e "o povo"; pretendia-se com isso eliminar as barreiras sociais.
Foi impossível à Secessão manter incondicionalmente a ideia da unidade da produção e recepção da arte após as crises econômicas e sociais registradas no final do século XIX. Fundações como as do o atelier vienense (1903) e a reforma da Escola das Arted Decorativas, que tinham por objetivo aproximar a formação da prática, tal como a política de exposições da Secessão, eram tentativas de satisfazer a antiga exigência de reforma a um novo nível. Contudo, o projeto da Secessão, tal como o dos ateliers vienenses que criavam produtos de luxo escolhidos para um círculo pequeno de pessoas de posses (e que fracassou também a nível econômico) era elitista. A Secessão transformou a função da cultura pública do museu na realização de uma missão estética que era apenas apoiada pelos artistas e que se dirigia a uma elite."
Astrologicamente, o que eu entendi foi que a arte é apresentada por esses artistas com suas características piscianas - em oposição ao cotidiano de virgem, e mestra do prazer leonino: 'A maior missão da arte não é a de ser um prazer, mas a de ensinar a ter este prazer. É neste sentido que a arte é um magnífico educador do ser humano' - Rudolf Lothar
.
Falar da aristocratização das massas também me remete a um idealismo quase platônico - principalmente considerando que esse movimento se opôs às correntes realistas, e não buscava uma visão exata da sociedade.
Catálogo da exposição de 1902 - O Friso de Beethoven:
"A saudade da felicidade encontra o seu sossego na poesia. As artes conduzem-nos a um reino ideal onde só nós podemos encontrar a verdadeira alegria, a verdadeira felicidade e o verdadeiro amor."
Uma alegoria que centraliza o artista como herói. O autor questiona constantemente o narcisismo e o hedonismo dos artistas da Secessão (válido, né). Outro questionamento muito interessante é o da relação artista-modelo, em que Flidl já nos prepara para uma conversa honesta sobre a objetificação da mulher:
"Era o artista que podia limitar a liberdade dos modelos dos pontos de vista social, material e estético (o quadro A Esperança é um exemplo disso) e que era ele que decidia o olhar sobre a mulher. Os modelos eram justamente aqueles que se encontravam, naquela época, no fundo da escala da consideração social; não podiam dispor de si livremente e era-lhes vedada qualquer possibilidade de protesto. A determinação dos papéis femininos pelo artista masculino implicava evidentemente não apenas a 'descoberta' do erotismo e do sexual, mas simultaneamente também a redução do feminino quase exclusivamente ao erótico e ao sexual. É por isso e porque faltavam todas as condições culturais e sociais para o desdobrar de uma sexualidade feminina, livre de repressões, que não se podia falar de libertação em Klimt e nos seus modelos."
Agora, a questão mais polêmica, complexa, confusa e fastidiosa, que é a questão do gênero. Um dos pontos mais baixos em Klimt (junto com a questão elitista), e em seus contemporâneos. Temos em Klimt um canceriano (símbolo geralmente tomado por feminino) com Marte em Áries (masculino). Faz sentido que esta simbologia se manifeste em suas criações, em meio a conflitos e crises.
• O Beijo: "É do homem que emanam as -poucas - atividades do quadro. É ele que, no abraço, se esforça por fazer desaparecer os sexos e que procura a identificação com a mulher. Esta decorre do que se designou crise do masculino, ou, em termos político-sociológicos, crise do Eu liberal. Esta crise conduz também à descoberta das suas próprias facetas femininas. Em O Friso de Beethoven, estas tinham sido separadas e rejeitadas como "forças hostis" inquietantes. Em O Beijo, o reconhecimento da separação dos sexos também não é suportado. A imagem da mulher é literalmente incluída na do homem e subordinada ao princípio da masculinidade."
Novamente, o artista é o centro. Especificamente, as análises da obra indicam que a crise do artista e do burguês é simbolizada pela crise do Homem. Esta, representada pela incorporação do feminino. A feminilidade é reduzida à fragilidade. A mulher, retratada como algo incompleto. Falta-lhe o falo? Deseja o falo? Não é a realidade, a mulheridade é mais que uma ausência, mais que passividade. Mas isso poderia explicar a realidade interior do artista?
"Klimt não estava interessado em seu próprio ser-homem masculino - a sua frase 'não sou particularmente interessante' já foi citada - mas sim, e em toda a sua exclusividade, pelo ser-homem feminino. A procura de uma identidade em meio a crises culturais e pessoais não o levou a questionar sobre si próprio e sobre o fenômeno da bissexualidade descoberto por Freud, mas sim a tentar realizar sua identidade na imagem da mulher. Klimt não foi o único a ter esta ideia. Descreveu-se 'a nova valorização do feminino' como uma 'revalorização da feminilidade masculina', por expressões como 'feminização' ou 'autofeminização'."
"Tem-se a tendência para fazer desaparecer da arte a imagem do homem, sendo monopolizada pela da mulher - mas pagando o preço da sua demmonização, mistificação ou fetichização. A sua imagem transformava-se em Judith, bruxas, seres míticos e seres naturais e monstros - ou numa tentação estética de produtos. Na Arte Nova, o corpo nu é descoberto para a publicidade."
A mulher de Klimt é, de fato, passiva, lânguida, objetificada e altamente erotizada. A própria passividade é atributo canceriano. Outro atributo é a introversão, a proteção de si mesmo, das emoções próprias, que é o pouco que se sabe do artista. Era um homem retraído e absorto em si mesmo. Criou um mundo de alegorias e idealismo focado no mistério que a feminilidade evoca a alguns artistas. Mas não se posicionou diretamente a respeito das suas criações.
Deixou ele mesmo um mistério, da própria visão e proposta acerca da mulher.