A viagem de Suzanne Daveau começa em Paris, em 1925. É nessa cidade que, onze anos mais tarde, tira as primeiras fotografias. Seguia a prática do seu avô, e a sensibilidade de sua mãe. Os Alpes vão ser um destino frequente nas férias de juventude. Não desperdiça a oportunidade de ir trabalhar em África, na universidade de Dakar. Das mais altas montanhas da Europa para a orla do mais tórrido deserto. O seu amor por Orlando Ribeiro trá-la a Portugal. Aqui permanece. A vivacidade do seu olhar é a de uma mulher de uma inabalável determinação e curiosidade pelo conhecimento do mundo. O seu rosto, hoje, é o mapa que foi desenhando ao longo de décadas, ou o atlas, condensado, de uma singular beleza.
Este Atlas Suzanne Daveau constitui, com a reedição de O Ambiente Geográfico Natural, um díptico que faz uma introdução sumária ao pensamento geográfico de Suzanne Daveau. São as suas palavras e as suas imagens destinadas a um público generalista. Do seu trabalho científico vasto, deixamos esta introdução geográfica ao planeta que habitamos. É uma visão clarividente, lúcida e fascinante no seu poder de síntese.
O livro refere que não é uma geografia sentimental da autora mas foi certamente uma minha. Este livro remeteu-me ao meu tempo de estudante de Geografia Física, na Universidade de Lisboa onde Daveau e o seu marido deram aulas, e forçou-me a uma reflexão que não esperava. Enfrentar o contraste entre os meus sonhos e ambições da altura e aquilo que verifico agora. Claro que não vi isso refletido no livro de forma óbvia, mas estava sempre lá, subreptício. A fome de saber, de conhecer, de ir, de fazer, de registar, de recordar, de Daveau cobriu-me com um manto de nostalgia e de saudade de um tempo em que não vivi. E saudade de querer ser Daveau quando fosse "grande". Nunca cheguei a grande.
"Gosto muito de fazer excursões e de ver o ar interessado das pessoas que nunca tinham pensado que havia tantas coisas para ver . Viam ali a paisagem, o mar ....>>"