Português que se ponha a caminho da montanha, no inverno, ou da praia, no verão, é certo passar por esta planície de canaviais; mais certo ainda, nem dar por ela. A velha linha férrea passa-lhe ao lado e os comboios já nem sequer abrandam por aqui. Em tanto espaço igual, esta é paisagem fácil de se perder.
Pois permitam que vos apresente os ilustres da vila.
O padre Elias Froes, o homem santo que tem por hábito gastar tempo a pensar no mundo, raramente em si próprio. Guarda segredos que mais ninguém sabe.
Catalina Barbosa, aventureira e contestatária. Menina bem-comportada apenas aos domingos, quando a avó a amordaça dentro de um vestido bonito para ir à missa.
Rosa Duque, a mulher que, em tempos, teve tudo para ser feliz. Foi vencida por um coração partido e resgatada por uma flor.
Zé Mau, o terror na vida das crianças. Os irmãos Mondego, os vilões nas histórias dos adultos.
Este vilarejo pode até ser pequeno e parado, mas está cheio de gente atrapalhada com muita vida para esconder.
Descubram comigo o que aconteceu, afinal, na noite do grande incêndio de há uma década e quem são os verdadeiros heróis desta nossa história pitoresca, temperada com os habituais mal-entendidos.
Maria Isaac é natural das Terras de Antuã, no norte de Portugal. Autora de “Onde Cantam os Grilos” (2017), finalista do Prémio Fundação Eça de Queiroz, que inicia a série Odisseia das Pequenas Coisas, seguindo-se “O Que Dizer das Flores” (2021), e “Quantos Ventos na Terra” (2023). Nos seus livros procura reinventar a temática do Portugal rural e espelhar as peculiaridades da alma lusa. Desde 2020 é a voz do podcast PALAVRA .
Mont-o-ver é uma típica vila portuguesa cheia de personagens caricatas e carismáticas onde toda a gente se conhece e tudo se sabe. Um grande mistério sobre um enorme incêndio que se passou há uns anos vai levar a uma série de mal-entendidos.
Sobre o amor, a solidão, as aparências, segredos, corações partidos, vilões, verdade, relações familiares e como não podia deixar de ser mal-entendidos e confusões. É muito rico em personagens fortes e com muito potencial, cheio de segredos e mistérios.
Para quem leu 'Onde Cantam os Grilos' vai adorar rever o querido Formiga, mais uma vez uma personagem muito admirada e reconhecida por todos. Eu gostei ainda mais deste livro do que do anterior, apesar de preferir que tivesse uma maior concretização, achei mais dinâmico, mais rico e com muito 'pano para mangas'. A Maria Isaac já nos habituou a esta maravilhosa escrita sublime, deliciosa e subtil.
Uma bela sequência do “Onde Cantam os Grilos”. Que saudades do Formiga, se bem que aqui temos um pouco do “Fomiga”.
Em “O Que Dizer das Flores” o palco é Mont-o-ver, uma vila com “tiques” de vilarejo.
Um vilarejo como tantos outros do nosso remoto Portugal. Associo-o àqueles lugares com uma associação local onde os homens vão “beber um copo” e jogar uma partida de bilhar (aconselhadamente pela ordem inversa), a pequena mercearia da esquina com as velhas prateleiras/expositores de madeira (agora não permitidas pela ASAE), a fonte, centralmente localizada, onde os animais vão beber água (com a placa água imprópria para consumo), o adro da igreja, onde todos os habitantes se encontram no domingo de manhã (que sacrilégio seria faltar à missa) farmácia que também funciona como correios, o sapateiro que até dá um jeito com o alicate e tira aquele canino (devidamente anestesiado com um potente “mata-bicho”) que fez o “paciente” perder a noite com fortes dores…
Localidade onde todos se conhecem e onde determinadas vidas estão presas e determinadas pelas aparências. O preconceito e o rótulo ainda resistem e perduram.
Casamentos, divórcios, incêndios, crime, fugas, doença, mentiras, o confronto pelo poder local, …
E depois temos uma Catalina e o seu patinho (consegui vê-los, senti-los, um acompanhando o outro pelos canaviais). Que energia, que intensidade e arrojo, que saudável rebeldia…!
Se no início senti necessidade de me empenhar, de fazer uso de algum esforço na leitura, para acompanhar o enredo e me “ligar” às personagens (e relacioná-las), breve a afinidade com as mesmas surgiu e aí sim, a leitura ficou bem mais fluída e agradável.
E o desenho (Maria Isaac uma vez mais não desiludiu) feito das personagens são, para mim, a maior riqueza deste livro. Tão diferentes, tão iguais, tão “tugas”. É tão bom ler sobre o nosso Portugal, escrito por um português (no caso, uma portuguesa).
Para culminar, a cereja no topo do bolo, temos a bela da narração realizada por um belo de um narrador!!!
A Maria Isaac é muito boa a relatar a vida nas pequenas aldeias. A sua escrita é muito portuguesa, cheia de humor, amor, sátira e escárnio, como todas as boas novelas. Achei muito interessante a maneira como a autora ligou os dois livros, mas mesmo assim o "Formiga", o narrador do "Onde cantam os grilos" conquistou o meu coração mais do que este. Não deixa, no entanto, de ser mais um belo livro desta belíssima escritora.
Antes de me alongar na minha opinião, começo por dizer que ler este livro foi sentir-me envolta num abraço quentinho alimentado pela escrita simples, mas ao mesmo tempo tão poética, de Maria Isaac. Ler "O que dizer das flores" é uma dupla viagem: uma viagem no tempo, até a um Portugal algures no tempo após a Revolução de Abril, e uma viagem geográfica até muitas das aldeias do nosso Portugal mais interior, onde a Igreja, a mercearia, o cabeleireiro e o café central se encontram impregnados no ADN de forma tão mais forte que a herança que os pais carimbam no nosso material genético. Mont-O-Ver é, duplamente, um retrato passado e presente do nosso Portugal, no qual facilmente somos capazes de reconhecer as vilas e aldeias da nossa infância, sejamos nós do Norte, Centro ou Sul de Portugal. Ao ler as primeiras páginas deste livro, senti que Mont-O-Ver poderia ser qualquer aldeia ou vila portuguesa que encerra segredos de família em cada esquina e em que as aparências e conversas sussurradas sobre a vida dos outros ditam a velocidade da vida dos habitantes deste local onde não podia deixar de existir um café central e onde a porta da igreja serve de ponto de encontro para muitas destas conversas. Eu, que tenho as minhas raízes, no Baixo Alentejo, ao começar a leitura deste livro, quando se fala em Santa Luzia como padroeira de Mont-O-Ver, facilmente pude viajar ao longo do Alentejo até Elvas, que possui o Forte de Santa Luzia e que tem uma autoestrada bem perto a ditar a proximidade e o afastamento de todos... (calma, leitores mais atentos... Bem sei que Elvas não possui campos de arroz alagados nas redondezas, mas um leitor também pde ter a sua liberdade livrólica enquanto lê, não é verdade?).
Ao longo do livro, a importância das flores vai surgindo no caminho das vidas das personagens deste livro. Por exemplo, na pág. 40, pode ler-se: "Catalina sonhava escrever e o Sr. Bilros, da biblioteca itinerante, disse-lhe que o difícil era escrever sobre as coisas simples, como as flores. Ao que Catalina prontamente respondeu: “toda a gente sabe o que dizer das flores. Que interessa isso? Nada!". E nesta explosividade algo contida de Catalina perante a afirmação de que é difícil escrever sobre coisas simples, não pude deixar de sentir um dos heterónimos de Fernando Pessoa a espreitar por cima do ombro do Sr. Bilros... O mestre da ingenuidade, Alberto Caeiro, tinha a capacidade magistral de escrever sobre as coisas simples e penso que este Sr. Bilros tem um pouco desta ingenuidade deste órfão de pai e de mãe, que vê na natureza que o rodeia um dos seus maiores catalisadores inspiracionais. Quem sabe quantos pontos de comum existem entre Bilros e Caeiro?!
À semelhança do que se pode encontrar em "Onde cantam os grilos", este livro vai revelando muito do preconceito enraizado no cidadão português e que continua a ditar muita da forma de reagir aquilo que se entende como indiferente. "Antónia falava, adivinhando por instinto o que se passava além dos olhos bovinos; a condescendência e o preconceito eram animais que viviam no mesmo rebanho, liderados pelo mesmo pastor surdo" (pág. 91). Este pastor surdo continua a deambular, mais ou menos perdido no meio na multidão, mexendo com convicções, ditando conversas em surdina e palavras que nunca vão para além do silêncio. A forma doce de crítica social que encontramos na escrita de Maria Isaac convida-nos a refletir sobre um conjunto de aspectos variados da essência de se ser humano e e de se ser português, sem uma declarada narrativa nesse sentido. Gosto desta linha paralela que a autora nos permite fazer durante a leitura e que torna os seus livros ainda mais ricos do que poderíamos esperar à primeira vista. E, assim, se consegue cativar os leitores de uma forma iningualável. Impossível não relembrar a descrição que encontramos de duas das personagens deste cativante livro, cunhado de retrato social das aparências que tanto parecem valer, mais do que a essência, que se encontra no início do capítulo 13: "Viviam na casa perfeita que combinava com a perfeição dos dois, da sua história de amor, do seu casamento e de outras coisas igualmente importantes para quem os rodeava. Ela era a rapariga forte e inteligente, de origens humildes, que estudara na capital e regressara para salvar a vila de ser cortada ao meio pela nova autoestrada. Ele era o rapaz simpático de boas famílias, que não olhara ao berço desfavorecido da mulher que era o seu primeiro e único amor.”. Este livro e os pequenos vislumbres que vamos vendo pelos cortinados entreabertos nas janelas é um retrato do Portugal já do pós-25 de abril, mas em que os hábitos de um prolongado Estado Novo continuam a estar impregnados no mais profundo ADN de muitas aldeias e vilas. Uma linha menos explorada na narrativa, mas a que não pude ficar indiferente, foi a breve menção à saúde mental de Duque e de Elias Froes, regressados da guerra colonial: " Ele estava… como deves imaginar, desorientado, nervoso, mal conseguia articular uma palavra…gemia como um animal, coçava-se, puxava os próprios cabelos” (pág. 140). Esta descrição de um soldado que volta da guerra pelas palavras de outro que partilhava “as noites de pesadelos e suores frios recorrentes após o regresso da guerra”. Será tudo isto apenas stress pós traumático de Duque ou esconde algo mais? E, claro, a forma crua e bastante directa como é descrita a violência doméstica neste livro: “No final, como em todas as outras noites iguais aquela noite, ficou o silêncio, rostos molhados por olhos a transbordarem terror, lábios sangrados pelos gemidos que tiveram de prender, o alívio e a resignação dos segredos tristes, guardados por mulheres que, ainda assim, conseguem sempre voltar a sorrir” (pág. 165) Um relato cru mas que revolta por se saber que esta é a realidade de muitas mulheres por esse país fora… E que afecta mulheres cada vez mais jovens no nosso país.
"O livreiro guardião de histórias intermináveis, sempre paciente com a nossa presença, sempre disposto a responder a perguntas desnecessárias com a sua voz calma de quem lê vários livros ao mesmo tempo, sem pressa de os acabar. Tudo nele fazia lembrar mistérios do passado. Nós gostamos dele, não é de admirar” (pág. 96)
Para além de uma dupla viagem, "O quer dizer das flores" faz-me também sentir em dois lados de um espelho... De um lado, o olhar sobre a realidade dos ricos e da sua vida pincelada de dramas familiares que não deixou ninguém indiferente no seu livro de estreia. Do outro lado, Mont-O-Ver com a sua realidade de vilarejo afastado do desenvolvimento fruto da proximidade a uma autoestrada que fez rumar a outros destinos as pessoas novas e o investimento. Outra particularidade muito especial deste livro são as linhas narrativas que se cruzam com outras leituras. Encontramos agora fitas temporais cruzadas e que nos ajudam a compreender a dimensão dos dois lados do espelho e aquilo que se veem pelos olhos do narrador/personagem… a gostar cada vez mais deste livro! E o que dizer dos padres que surgem nas histórias de Maria Isaac: Sombra e padre Elias Froes… mas que destino é este o de Mont-O-Ver com os seus padres?! Outro aspecto também que já vem sendo habitual na escrita de Maria Isaac são os segredos que moldam vidas: “Os dois deixaram-se ficar, escassos segundos ousados nas barbas de uma vila adormecida, a transbordarem de sentimentos que a proximidade exacerbava ao infinito dos amores proibidos e impossíveis de se tornarem reais” (pág. 160). E por isso é tão delicioso ler as histórias criadas por Maria Isaac… porque nunca sabemos quando as redes do tempo nos podem trazer os segredos de vidas por viver."
Gostei mesmo muito de ler este livro. Um livro doce, envolvente, que nos abraça e que nos prende à leitura desde as primeiras páginas. Uma escrita poética, doce, mas que transmite força ao mesmo tempo e que mostra o quanto os mal-entendidos podem determinar a vida das pessoas que nos rodeia. E, Maria Isaac... Obrigada por aqueceres o coração com o regresso breve da pessoa de quem tanto gostamos e por teres escolhido um narrador tão especial: aquele olhar que pode estar sempre presente sem nos darmos conta, mas que é o símbolo maior da amizade, do amor, da entrega sem esperar nada em troca... Um olhar que nem a paixão por cavar buracos afastada da leitura da realidade à sua volta :) Parabéns por este livro e espero, novamente, poder voltar a olhar para o nosso Portugal pela doce lente da Maria Isaac! :)
*REVIEW ESCRITA EM CONJUNTO COM O A REVIEW DO PRIMEIRO LIVRO DA AUTORA, "ONDE CANTAM OS GRILOS"*
Estes dois livros foram escritos pela Maria Isaac, uma autora que escreve sobre um pseudónimo, tiveram de mim a mesma classificação mas para mim são histórias tão prazeirosas que não servem propriamente ao típico ranking de uma a cinco estrelas, são boas histórias que merecem leitura sem preocupação de classificação.
“Onde Cantam os Grilos” conta a história de Formiga, que foi abandonado num cesto nos degraus da casa da Herdade do Lago. Há muito mistério que envolve a sua chegada, muitos segredos e revelações à espera da sua descoberta. Vinte anos depois Formiga regressa à Herdade do Lago e usa a sua voz para contar a sua história pelos olhos da criança que foi, através da sua voz adulta. Um livro que nos leva a pintar uma tela cinematográfica de página a página e com um personagem único, o Formiga, que não nos larga nem após o fim da sua história. Aprendemos a avaliar a consequência dos nossos erros e o valor de um segredo que antes de exposto não “revela” a maldade que pode fazer.
“O Que Dizer das Flores” já chegou à minha prateleira com expectativas bem altas. Esta história dá-nos as boas vindas a Mont-o-Ver e de repente, Isaac, levou-me à minha terra, onde cresci e conheci também autênticas personagens pitorescas com tudo o que uma terrinha pequena tem para oferecer. O que aconteceu? Quem fez? Quem viu? Peculiar, real e que pede o seu tempo de leitura para conhecer cada canto desta terra.
Os dois livros fazem-se acompanhar de uma escrita deliciosa e um storytelling fora de série com personagens que nos ficam na memória, por vezes por causa da sua identidade e desenvolvimento único.
Depois de o ano passado ter lido o livro Onde Cantam os Grilos (opinião aqui ) foi com muito entusiasmo que recebi a notícia de um novo livro de Maria Isaac. Em O que Dizer das Flores, conhecemos Mont-o-Ver, uma pequena vila de Portugal, onde sentimos essa união das gentes da terra. E onde conhecemos personagens incríveis, cada um com os seus segredos, que tentam esconder. Mas, claro, numa vila pequena, o díficil é conseguir esconder algo. Catalina é uma menina incrível. Tão diferente do meu "eu criança" mas que me conquistou logo na primeira aparição. Destemida e com ânsia de querer saber mais do que o que lhe dizem. E, claro, tem uma relação especial com os livros e com o livreiro itinerante, o Sr. Bilros. Uma história que me agarrou logo nas primeiras linhas e que me envolveu até ao final, com uma escrita absolutamente deliciosa, e que eu não queria que terminasse. E, eu, que não marco citações, nem sublinho nos livros, tive tanta mas tanta vontade de marcar enúmeras passagens.
Ás vezes as histórias mais simples são aqueles que mais nos encantam. Podem não possuir muitas reviravoltas mas tendo personagens encantadoras e um cenário pitoresco, tal chega para agarrar o leitor. Já havia ficado encantada com o Formiga e a Herdade Vaz, agora fiquei rendida á Catalina e ao misterioso Padre Elias.
Maria Isaac volta a oferecer-nos uma história que nos aquece o coração, e nos leva de novo as nossas origens portuguesas. Nos seus livros somos transportados para uma aldeia que guarda muitos mistérios, com habitantes que parecem não quererem perder a sua tranquilidade e por isso adiam a entrada da "civilização".
O titulo advém de uma conversa entre Catalina e o Sr. Bilros, e a importância de darmos valor aos pequenas belezas da vida. Afinal o que dizem as flores? O que significa uma flor para cada um de nós? Este condutor da biblioteca itinerante é uma das personagens mais fascinantes deste livro, e a sua verdadeira identidade irá deixar aos mais atentos com um sorriso no rosto.
"O que dizer das flores" é o livro prefeito para ler na primavera, entrem nas suas páginas e descobram Mont-Ver!
Começo a minha review por congratular a Maria Isaac e a sua forma de escrever. Cada capítulo é fabuloso, linguagem simples e acessível, uma prova de que "menos é mais" e que não é preciso grandes malabarismos para contar uma boa história.
Mont-o-Ver é casa, é o nosso Portugal. Todos nós conhecemos estas personagens 🙂
Podia ser um livro excelente, mas não gostei da conclusão. Senti que foi "rápida", ficaram algumas pontas soltas, arcos com grande potencial que foram mal explorados... Talvez as respostas surjam no próximo livro da trilogia.
Começo por agradecer à Cultura Editora por ter disponibilizado um exemplar deste belíssimo livro.
Depois de ler, há cerca de um mês, «Onde Cantam os Grilos» da mesma autora, Maria Isaac, não sabia bem o que poderia esperar de «O que Dizer das Flores». Não li a sinopse, parti para a leitura como uma tela em branco.
«(…) As flores tornam-se importantes por si mesmas e não precisavam de histórias para serem mágicas.» (p. 47)
A primeira constatação que fiz foi a quantidade de personagens que povoam este livro. Mas, nada temam, cada uma tem o seu papel bem definido e rapidamente conseguimos estabelecer o paralelo de quem é quem.
«(…) conhecia bem os olhares disfarçados, as vozes que misturavam simpatia e desdém, o requinte de julgamento que mantinha as pessoas nos respetivos lugares de acesso ao céu ou ao inferno,» (p. 119)
A escrita da autora é maravilhosa, fluida, repleta de frases bonitas. A vida naquele lugarejo está muito bem retratada com todas as suas intrigas, coscuvilhices, e, acima de tudo, as aparências tão necessárias de manter.
«Os pobres trabalhavam a terra, os ricos desfrutavam dela. A quem nascia lagartixa de pouco lhe adiantava sonhar ao estilo de jacaré.» (p. 146)
Em certos momentos, a narrativa intercala-se com a história de «Onde Cantam os Grilos». Não sendo imperativo ler os livros pela ordem de publicação, recomendo vivamente que o façam, uma vez que estabelecemos a relação entre as personagens do antes e a sua evolução no agora.
«Cada virtude está no equilíbrio entre dois defeitos.» (p. 108)
Muitas das personagens deste livro vão evoluindo de tal forma durante a narrativa que poucas são aquilo que aparentavam ser inicialmente. No entanto, algumas das que reaparecem da história anterior, acabam por não ter grande utilidade nesta.
«Vidas nunca devem ser comparadas, mas os contrastes fazem-nos pensar nas escolhas e oportunidades perdidas.» (p. 139)
Uma excelente história que nos remete para as vivências das pequenas aldeias ou vilas, para as dificuldades do dia a dia dos seus habitantes, e nos oferece pequenas nuances sobre a traição, a violência doméstica e a importância de proteger a família.
«(…) os segredos são perigosos, em especial aqueles que pertencem aos outros.» (p. 99)
Lembro-me muito bem de como me senti quando terminei de ler "Onde Cantam os Grilos". Lembro-me de ter ficado absolutamente fascinada pela forma como a Maria Isaac construiu as personagens e de como facilmente o leitor conseguia reconhecer as personalidades de cada um e saber quem é que estava a falar, sem ser necessário ler o nome. Automaticamente nos tornamos parte daquela herdade e, neste livro, tornamo-nos parte de Mont-o-Ver, uma vila tão portuguesa, tão representativa do que é nosso, mas que muitas vezes é esquecido por nós: "português que se ponha a caminho da montanha, no inverno, ou da praia, no verão, é certo passar por esta planície de canaviais; mais certo ainda, nem dar por ela". Vamos conhecendo as pessoas desta vila, vemo-nos envolvidos nos dramas e tomámos o lado de certas personagens. Fiquei com o coração derretido quando revi o Formiga ❤ tão inesquecível, será para sempre das minhas personagens preferidas, pelo que senti que estava a rever um amigo de longa data que cresceu e se fez homem. Numa narrativa tão jovial, a escrita, mais uma vez, não desiludiu.
Em O Que Dizer das Flores viajamos sem sairmos do lugar até um recanto conhecido por Mont-o-Ver cheio de mistérios, segredos de família e boa disposição. Foi o primeiro livro que li da autora e fiquei rendida à sua escrita cuidada. Diz tanto - sem dizer nada diretamente - através das entrelinhas, que a leitura se torna mágica e rica.
A forma como a autora construiu as personagens foi de uma subtileza enorme. Todas tão diferenciadas e tão reais. Senti que poderiam ser verdadeiros exemplos do que se pode encontrar por algumas das vilas portuguesas. Aquela que mais me marcou foi Catalina, uma criança perspicaz, destemida e cheia de energia. Fez-me fazer um paralelismo entre as atividades a que atualmente as crianças se dedicam e aquelas a que se dedicavam há uns anos atrás. A diferença é abismal. Catalina fez-me pensar na liberdade de correr por esses campos fora, pela procura de aventuras que inevitavelmente culminam em alguma traquinice, no fundo, fez-me pensar em felicidade. Destaco, também, o Senhor Bilros, a personagem que vai incentivando subtilmente a leitura e o questionamento crítico sobre o que nos rodeia.
No decorrer da história, como era de esperar, as flores vão ganhando sentido em cada uma das personagens, o que me leva a crer que o título não podia ser mais adequado.
O Que Dizer das Flores faz-nos refletir sobre as diferenças sociais, os estigmas estabelecidos e a importância da verdade e das relações familiares. Uma leitura que recomendo muito!
Agradeço imenso à Cultura Editora a cedência do exemplar.
Histórias com mistérios por desvendar nunca são simples. Conforme vamos avançando ao longo da história, percebemos que, muitas das vezes, as razões estão entrelaçadas entre tantas personagens e nada é em vão e nada é ao acaso.
Às vezes a culpa está num outro lado, numa outra personagem e numa outra perspectiva, numa outra casa. Motivos há muitos, dos mais triviais aos mais complexos, Pode ser paixão, pode ser vingança, pode ser por desespero, pode ser por tudo ou por nada.
Aqui, deixo o convite para conhecerem a velha vila, quase esquecida, Mont-o-Ver. Cheia de magia, recheada de personagens com os seus mistérios, os seus segredos e os seus motivos para estarem por de trás de um terrível incêndio e de uma terrível morte.
Uma história que não conclui muito bem todos os destinos que apresenta, mas que abre possibilidades para um futuro de uma vila recheada de misticismo e carisma. E quem sabe de uma revisita, por todas as suas ruas e flores.
Mas, se não ficarmos satisfeitos com as respostas, ficaremos deslumbrados com a escrita doce, inocente de Maria Isaac. "O que dizer das Flores", é sobre deixar-se levar pelas suas personagens e os seus dia-a dia, esquecer o mundo lá fora e ficar e apenas acreditar, que há uma vila (pequenina e perdida por aí) à espera de ser descoberta e relembrada.
Em "O Que Dizer Das Flores" visitamos Mont-o-Ver e as vidas dos seus habitantes.
Maria Isaac é a dona de uma escrita melodiosa e muito cuidada que, embora custe a habituar, é deliciosa. Não a considero particularmente fluída porque acho que requer uma atenção constante mas tenho a dizer que nos proporciona daquelas leituras demoradas mas peculiarmente agradáveis por estarem cheias de pormenores nas entrelinhas.
Quanto à história em si, demorei a entrar na narrativa e a começar a conhecer as personagens mas a partir do momento em que consegui fazê-lo senti-me completamente imersa na atmosfera tão portuguesa de Mont-o-Ver. Deleitei-me com a pequenez deste meio onde tudo se sabe menos o que verdadeiramente importa contudo, tenho de confessar que o que me prendeu verdadeiramente a esta obra não foi esse mistério por desvendar ou a justiça à espera de ser feita, foram os seus habitantes.
A autora tem uma capacidade extraordinária para escrever personagens, para as tornar palpáveis. Gostei de todas mas especialmente de Catalina, uma menina cheia de genica e com milhares de sonhos, ideias e perguntas em si.
Outro fator que adorei foi o regresso dos nossos já conhecidos e amigos de "Onde Cantam Os Grilos", fico sempre mega histérica quando é claro que os autores criaram uma espécie de universo partilhado para as suas obras!
Enfim, não sei mais o que vos diga, já sentiram que uma história vos deixa de coração apertado e quentinho em simultâneo? Os livros da Maria Isaac fazem isso comigo, leiam os livros desta mulher!
A Catalina e o seu pato estarão para sempre comigo! 🦆🧡
Gostei de reencontrar a escrita desta autora, capaz de nos transportar à "alma portuguesa" através da sua capacidade extraordinária de construir personagens e lugares. Neste livro, onde reencontramos alguns personagens do livro anterior, "Onde cantam os grilos", somos convidados a entrar na vida de um pequeno vilarejo do Portugal rural e a conviver com segredos de família, sonhos por realizar, assuntos por resolver, mal-entendidos que se intrometem e atrapalham as relações. Somos ainda confrontados com temas de fundo, que marcaram (e ainda marcam) a nossa história e a vida social - entre eles a guerra colonial, a pobreza e a violência doméstica. E depois há as flores, capazes de confortar, e até mesmo de salvar, de criar, num "cantinho de vida e de beleza", "um mundo perfeito e imenso, onde todas as cores tinham lugar na forma pétalas". Uma grande verdade, como sabem todos aqueles que amam flores!
(4.25) Este segundo livro da Maria Isaac mostra-nos, mais uma vez, esta “Odisseia das Pequenas Coisas”, com uma das minhas escritas preferidas em português que me leva automaticamente para o campo (e para a terra da minha avó paterna). A familiaridade juntamente com os dramas e segredos da vila tornam esta uma história simples e complexa ao mesmo tempo. Fiquei com um certo carinho pela Catalina e espero que não seja a última vez que encontramos estas personagens (tão humanas!) que poem em causa a linha entre o bom e o mau.
Adorei conhecer estas novas personagens da vila de Mont-o-Ver mas, mais do que tudo, adorei poder reencontrar algumas das personagens do livro anterior... foi como ver velhos amigos. Saber o que o futuro reservou ao nosso Formiga, à Ana, à Matilde, à Maria da Assunção... Alguns dos mistérios que ficaram por resolver no final do "Onde Cantam os Grilos" são aqui desvendados, ao mesmo tempo que novos mistérios ficam por desvendar num próximo livro (talvez? Por favor!).
Na escrita de Maria Isaac há sempre uma reviravolta: começamos a história a gostar e a torcer por umas personagens e acabamos noutras, não há volta à dar, tal como na vida, quanto melhor conhecemos uma pessoa e as suas intenções, mais a nossa opinião muda a seu respeito. É este a beleza da escrita da autora - escreve personagens fictícias que podiam muito bem ser os nossos vizinhos do lado.
“A terra é como uma mulher vaidosa: só sorri aos homens se for cuidada, tem preferência por aqueles que sofrem por ela e usa como pérolas o sal de suor e lágrimas.”
Este livro foi a minha estreia com a escrita de Maria Isaac, cujo rosto passei a conhecer pelo Bookstagram, como uma das autoras mais jovens e promissoras de Portugal.
Devo dizer que este livro surpreendeu-me pela positiva, embora nunca pudesse ser um favorito porque a história não viveu assim tanto tempo em mim. Este livro evoca-me as aldeias portuguesas que passaram a ser esquecidas ao longo do tempo, devido às construções das autoestradas e desvio do comércio/turismo.
Nesta aldeia, Mont-o-ver, toda a gente conhece todos, e os seus habitantes são ilustres. Todos têm os seus mistérios, o seu fair de quoi que os leva a serem quem são. Desde um padre guardador de segredos até uma idosa reclusa do mundo ligada numa outra vida às rosas até uma rapariga rebelde a tentar conhecer as suas origens, Mont-o-ver contraria aquilo que parece: pequeno e recatado. Os seus habitantes têm vidas únicas que, apercebemo-nos, se entrecruzam.
Não conheço muito a escrita da Maria Isaac, mas enquanto li o livro, deixei-me envolver neste pequenino cantinho de Portugal.
Desta vez vim dar-vos a minha opinião sobre o livro “O Que Dizer Das Flores” de Maria Isaac.
Este livro já estava na minha estante há algum tempo, foi me dado pela professora América da biblioteca da minha escola durante uma feira do livro que também se realizou na biblioteca. Como tal, devo esta leitura à professora América, a quem eu muito agradeço.
Neste livro conhecemos Mont-O-Ver, um vilarejo simpático que foi assolado por um terrível acontecimento que aconteceu há uma década. O grande incêndio que deflagrou na igreja do vilarejo.
Ao longo do livro vão-nos sendo apresentados todos os principais moradores desta vila, como por exemplo o padre Elias Froes “o homem santo que tem por hábito gastar tempo a pensar no mundo”, Catalina Barbosa “Menina bem comportada apenas aos domingos”, Rosa Duque “a mulher que em tempos teve tudo para ser feliz”, Zé Mau “o terror na vida das crianças” e muitos outros moradores também muito interessantes que vamos conhecendo página por página, que nos vão ajudando a entender o que realmente aconteceu naquela noite do grande incêndio.
Este livro é muito leve, o que o torna ótimo para conjugar com uma leitura mais difícil ou pesada. Retrata uma típica vila portuguesa com todos os personagens característicos que, num vilarejo ou outro, certamente existem na vida real.
Inicialmente, a autora dá-nos a conhecer grande parte das personagens que nos vão acompanhando ao longo do livro, o que é uma excelente introdução para não nos perdemos no meio do mistério do incêndio, onde várias destas personagens vão sendo mencionadas.
A autora é exímia nas caracterizações de todos estes moradores, todos eles com características e personalidades únicas. Não tenho em memória um livro que tenha lido com um processo de caracterização tão profundo em poucas páginas, visto que a autora prefere perder tempo (no bom sentido) a caracterizar estas personagens, e a levar tudo a seu tempo, do que partir rapidamente para o mistério e a solução do mesmo.
Mesmo sendo um livro pequeno consegue incluir muitos elementos narrativos na sua história. O amor, a sofrença, casamentos mal resolvidos, as aparências a manter, segredos que não deveriam ser segredos, confusões e mal-entendidos entre famílias a torto e a direito.
Por fim temos a solução do grande mistério do incêndio que, em parte, se mostra surpreendente, dado que no livro todo somos enganados pelas próprias personagens que tinham segredos a manter, e como é óbvio, a reputação da família também.
O narrador deste livro também se mostrou ser uma grande surpresa no final. Uma personagem que de todo, não estava à espera que fosse o “contador” desta história.
Gostei deste livro da Maria Isaac e espero acompanhar mais da autora num futuro próximo!
É o continuar natural do livro que lhe dá origem "Onde Cantam os Grilos".
Cruzam-se personagens, encerram-se pontas soltas de "Onde Cantam os Grilos", acrescentando uma nova narrativa e novas personagens que dão corpo à mesma.
Gostei da leitura simples e rápida que se faz do livro, sendo que me senti prendido ao desenrolar das personagens e do seu enredo.
Tivemos de volta o "Formiga" num novo papel, sendo que muitas vezes me questionei quem seria o narrador neste livro... no fim lá se percebe.