Jump to ratings and reviews
Rate this book

Hífen

Rate this book
«Flandia, o avesso desalinhavado de uma possibilidade hifanada. A discussão sobre o sexo dos anjos enquanto os portões cedem aos cavaleiros do Algoritmo.»

Hífen. um texto que, sendo de uma grande diversidade, tem do princípio até ao fim uma grande unidade e uma grande coerência, por um lado, e uma grande força. Quer quando se fala do amor de uma mãe por uma filha, e aqui chega-se a sentir um estrangulamento na garganta, quer quando Ofélia se dirige ao marido morto, e aqui sentimo-nos identificados com aquele sentimento de saudade, quer quando se evoca a luta por um mundo melhor, quer quando se grita contra a injustiça e contra o absurdo de um mundo onde nos sentimos muito bem desde que abdiquemos do essencial, isto é, do sal da vida. E já no fim, quando a resignação e o suicídio se confrontam como os dois destinos possíveis, a solução encontrada me parece a melhor: mesmo que não lhe encontremos um sentido, a vida é sempre a melhor solução.

280 pages, Paperback

Published May 1, 2021

168 people want to read

About the author

Patrícia Portela

36 books44 followers
Cresceu em Lisboa, Macau, Utrecht, Helsínquia. Trabalha em teatro, dança e cinema. Quase sempre nos bastidores. Vive entre Paço de Arcos e Antuérpia.

Tem 34 anos. Publicou "Operação Cardume Rosa"; "Se Não Bigo Não Digo" (ambos na Fenda); "Odília ou a história das musas confusas do cérebro de Patrícia Portela" (Caminho) e "Escudos Humanos" (Culturgest). Fez o curso de realização Plástica do Espectáculo e esteve no Teatro da Garagem, O Olho e Projecto Teatral. Escreveu diversas peças, como one spoke, one smoked, one died; Operação Cardume Rosa; T5; Banquete ou a Trilogia Flatland. Recebeu os prémios ACARTE/Madalena Azeredo Perdigão; Revelação de teatro pela Associação de Críticos de Teatro Portugueses e Navegadores Portugueses 94 de BD, pelo CNC.

Ratings & Reviews

What do you think?
Rate this book

Friends & Following

Create a free account to discover what your friends think of this book!

Community Reviews

5 stars
30 (34%)
4 stars
38 (44%)
3 stars
14 (16%)
2 stars
4 (4%)
1 star
0 (0%)
Displaying 1 - 17 of 17 reviews
Profile Image for Jose Garrido.
Author 2 books21 followers
July 23, 2024
Hífen, é a todos os níveis uma distopia, uma distopia fortemente politizada, a distopia do nosso quotidiano.
À partida, as distopias não me cativam, a fantasia tampouco. Mas a forma, sublime, como a Patrícia escreve, torna o texto pungente. Mexe connosco, incomoda – e eu não gosto disso. Mas vem imbuído de uma criatividade espantosa, de uma ironia mordaz, de uma crítica social e política atenta e aguda e, principalmente, de uma beleza, ao nível da construção e da linguagem que é notável.
Subentende-se que tinha muito para eu não gostar, mas gostei tanto, tanto.
Com este Hífen, a PP, poderia ter ido ao google e contentar-se com a definição de que o sinal gráfico (o hífen) existe para ligar os elementos de palavras compostas como (couve‐flor e ex‐presidente)… [by the way, o que não se poderia elaborar apenas a partir destes dois exemplos que não têm nada de cândidos] em vez disso construiu uma narrativa de grande beleza que em muitíssimas páginas roça a poesia.
Muito bom.
Profile Image for Magda Cruz.
100 reviews76 followers
May 26, 2021
Já tinha dito, a propósito de outro livro de Patrícia Portela, neste caso o "Dias Úteis", que tinha inveja do cérebro da autora.
Este novo livro é mais uma prova do brilhantismo de Patrícia, que acumula funções de autora com as de diretora do Teatro Viriato - função essa que eu vejo como sendo necessária muita imaginação.
Imaginação. Palavra chave para este livro.
Em "Hífen" entramos numa mundo chamado Flandia onde algo terrível começa a acontecer com os seus habitantes, os flans: todas as crianças em idade de aprender a ler caem num sono profundo do qual não acordam.
A autora diz-me que o livro não é uma distopia, mas que para mim a premissa basta para se catalogar como distopia, talvez valha a pena ler para tirarem as vossas dúvidas.
A escrita é impecável, agarra e não nos deixa largar mais.
Adorei e que venha o próximo livro de Patrícia Portela.
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews39 followers
July 3, 2021
Entre as várias definições que dela dá, Patrícia Portela começa por lembrar que a palavra “hífen” é a “união de duas palavras para que a palavra resultante seja mais do que a junção das duas que a compõem”. É com base neste princípio que se desenvolve “ - Hífen - “, ficção brilhante que toca as pontas do real ao falar-nos dos efeitos de uma doença que se instala insidiosamente e vai alastrando de forma tenaz até ganhar contornos de hecatombe. A reacção inicial das autoridades de saúde será de ligeireza, para adquirir um tom musculado à medida que a epidemia se espalha, sem cura nem fim à vista. Aliada incondicional do regime, formatada para contar apenas um lado da história, a imprensa vai-se multiplicando em contos e ditos, espelhando a desorientação reinante. Enquanto isto, os doentes e as suas famílias são tratados em ambiente asséptico por verdadeiros autómatos. Mas onde é que eu já vi isto?

Oferecendo-se a múltiplas leituras, “ - Hífen - ” adopta um cenário distópico para melhor discorrer sobre “nós e os outros”. A escrita é tomada como um acto de rebeldia porquanto constitui uma “maneira de ver o que se pensa e de o mostrar a outros cérebros”; nos cuidados de saúde, a “eficácia total da mecanização em caso de situações absurdas ou inesperadas” tende a apagar do dicionário a palavra humanização; a cultura, entendida como um “tranquilizante”, é gerida por “dedicados amanuenses com francas aspirações políticas”; e os jornais e revistas abandonaram a grande reportagem política e as reflexões filosóficas e são agora ocupados por “múltiplos artigos (muito concisos) sobre produtos de limpeza doméstica ou beleza corporal, sugestões alimentares ou conselhos para passar os tempos livres”. Enquanto isso, “um ser humano consegue levar uma vida de cão, trabalhar em condições miseráveis (e das quais se queixa compassivamente aos amigos) e votar com convicção num ditador que lhe cortará o salário, dizendo -lhe que não há alternativa”.

Entre notas de um caderno, entradas de um muito particular alfabeto e ementas peculiares, o que Patrícia Portela nos vem dizer é que os hífens estão em toda a parte. Juntam coisas e pessoas, fazem a ponte para novos caminhos, multiplicam-se em conceitos, dão sentido aos sonhos e carregam às costas os males do mundo. Têm as costas largas, os hífens. São arautos da desgraça e bodes expiatórios. Mas são imprescindíveis, fazem parte da nossa vida, até nas mais pequeninas coisas. Estão no nosso código genético e trazem consigo a marca da sobrevivência. Que os “eus” tendam a virar-se para si, a erguer muros à sua volta e a proclamar a sua superioridade perante os demais, não passa de um erro. Erro que teimamos em alimentar, seres superiores duma Flandia em queda livre, perdulários e displicentes, entregues a algoritmos que vão tomando conta de nós e da capacidade de cada um pensar pela sua cabeça. De uma lucidez e eficácia incríveis, as baterias apontadas ao individualismo e à egomania, “ - Hífen - ” é um livro imprescindível para quem ousar ver mais longe.
Profile Image for Margarida Galante.
469 reviews42 followers
July 5, 2022
A acção decorre na Flandia, um lugar que não é um país ou um estado, mas uma espécie de local modelo, de elite, onde estão os priveligiados, os que administram, os que representam o futuro e o progresso.
Inexplicavelmente, alguns dos seus habitantes mais jovens começam a ser afectados por um mal que os coloca num estado de dormência permanente. As crianças entre os 6 e os 8 anos adormecem e não voltam a acordar.

A história vai sendo contada através do diário de uma mãe, que vê a sua filha ser apanhada por esta estranha doença, e de notas elaboradas por uma enfermeira andróide, que pretende aperfeiçoar-se e tornar-se quase humana.

Uma distropia muito bem imaginada onde não faltam temas como a preocupação com o ambiente, a desumanização dos processos, o afastamento relativamente ao outro, a crescente interferência do algoritmo na formação do sentir e pensar dos humanos.

Capítulos curtos e uma estrutura original composta por entradas do caderno de Ofélia, a mãe de Z., o alfabeto elaborado pela enfermeira, a que foi dado o nome de Maria do Carmo, e ementas/receitas onde os ingredientes comuns são combinados com outros menos ortodoxos.

Um livro de uma autora que eu desconhecia e que o meu filho comprou porque a capa lhe chamou a atenção. Ele gostou tanto e falou tão bem dele que eu achei que tinha todos os ingredientes para passar à frente na minha lista. Quem disse que não devemos escolher um livro pela capa?
Profile Image for Célia Gil.
880 reviews41 followers
September 22, 2022
Este não é um livro comum. Intercala pensamentos, crítica, acontecimentos, em que tudo se interliga numa distopia.
A ação desenrola-se na Flândia, um lugar inventado pela autora a partir de uma reflexão sobre o pudim flan, uma metáfora extraordinária de um preparado que nos facilita a vida a tal ponto, que já não se distingue um pudim de ovos de um pudim flan. É precisamente isso que acontece com o mundo, constantemente mais facilitador, mais “evoluído”, mas em que tudo perde a cor e o sabor e o saber.
De uma forma literária, com uma linguagem simples,mas muito bem trabalhada, Patrícia Portela leva-nos até este novo lugar pela voz de uma mãe de uma das muitas crianças vítimas da “doença do sono”, narração essa que acaba por ser assumida por uma enfermeira das enfermeiras androides, neste lugar tão tecnologicamente evoluído e, ao mesmo tempo, já tão pouco humano.
É pela voz da mãe, dos desabafos que vai tendo com a filha enquanto dorme, enquanto chora com dores, enquanto se debate com “batalhas noturnas”, que vamos conhecendo a evolução da doença, a angústia crescente que se apodera desta mãe, sempre receosa de que a filha a abandone no sono, já que “É no sono que nos abandonamos ao cuidado dos outros, deixando o frágil coração decidir se continua a bater amanhã”. É nestas horas que esta mãe se recorda do passado, desde o nascimento da filha, das promessas que lhe fez e nunca cumpriu. E verdade seja dita, passamos mesmo a vida a dizer “vamos lá este ano, ainda lá vamos este ano”, sem que, de facto, façamos por ir. É aqui que desabafa sobre as preocupações que sempre partilhou com a filha sobre os problemas ambientais, sociais, financeiros, tecnológicos e políticos e que, neste momento, de nada valem, de nada servem.
Esta Flândia criada pelo próprio homem é a mesma que o trai, porque “Alimentámos um monstro”.
E mais não digo. Apenas que gostei muito deste livro e recomendo a sua leitura. Uma leitura atenta a todos os sentidos que se escondem por detrás das palavras para lhes conferir vida própria.
855 reviews
October 14, 2021
São raras as distopias em Portugal, e por isso corri a ler este romance. É uma leitura muito fluida, apesar de o narrador rodar entre algumas das personagens. Mas gosto que seja uma problematização do presente, como o são as distopias, e lembrei-me muitas vezes de José Saramago e Margareth Atwood.
Mas o (des)acordo empobrece o texto (lá se foi o c de característica, que não é mudo) e tira-lhe o gozo da leitura.
Profile Image for Paulo Reis.
159 reviews14 followers
July 30, 2021
Todas as relações tem um hífen a uni-las, e a mais forte de todas é o amor entre mãe e filha (mãe-filha).
Uma pandemia (doença do sono) inexplicável (plano Mefistofélico) toma de assalto as crianças de Flandia, entre os 6 e os 8 anos, adormecendo-as, num síndrome de resignação.
Flandia, ideal de uma vida moderna, burocrática, planeada até ao mais ínfimo detalhe com a ajuda de um Algoritmo Geral, que enquanto tenta compreender (copiar) os humanos, se especializa em organizar o livre-arbítrio, é virada do avesso, deixando os pais, ou melhor as mães, sem saber o que fazer.
Para sobreviverem resta aos habitantes desta região, pensar, “pensar é uma vertigem”, ou fugir.
Patrícia Portela diz o que tem de ser dito, numa escrita alegórica, mas directa, sem papas na língua (parece que em Flandia existem muitas, como em Bruxelas).
Gostei muito e vou querer ler mais desta autora, uma excelente recomendação do podcast Grandes Leitores.
Profile Image for Patricia Santos.
74 reviews1 follower
June 16, 2025
Estreia na obra de Patrícia Portela e uma agradável surpresa por uma narrativa original, nada evidente e que me levou a estar em constante reflexão.
A história passa-se na Flandia, um país autoritário e numa sociedade profundamente dominada pela tecnologia onde a humanidade e as relações sucumbem ao imediatismo, consumismo e automação. Nessa região começa uma epidemia e as crianças na faixa de idades do ensino primário começam a adormecer e não acordam mais. A narrativa é partilhada pelo relato de uma mãe de uma das crianças adormecidas e o relato de uma enfermeira androide.
É neste desenrolar que se vai percebendo as reflexões sobre a sociedade muito marcada pelo deslumbramento tecnológico e pela medição da satisfação em função dos objectos que se possui e consome. em contraponto com uma sociedade que atrofia a sua humanidade e capacidade de relacionamento pessoal.
A forma de poder dominante usa narrativas falsas e todas as formas de propaganda, anulação cultural e condicionamento do pensamento dominante como forma de extinguir qualquer tipo de contestação através da eliminação do espírito crítico.
O fim é surpreendente e quando o lia imaginava-o transposto para um grande monólogo final de uma peça de teatro.
Profile Image for Graciosa Reis.
542 reviews52 followers
October 30, 2023
Patrícia Portela na Nota Prévia informa o leitor de que esta obra foi construída a partir de fragmentos e de reflexões num tempo em que a vida estava à beira do abismo, pelo que com estas palavras aguarda o resgate do inferno para onde se encaminhou.

Estamos, assim, perante uma alegoria do mundo. De um mundo doente representado utopicamente pela Flandia, “ o centro do universo com uma geografia impossível”, e o Olival, “o resto do mundo. A sobra. De onde vimos e para onde nunca voltamos.” Assim, do título Hífen subjaz a ideia de ligação entre as duas regiões. Mas Patrícia Portela não se fica pela simples ideia de união. Ela vai à etimologia da palavra (Hí + Flan) para criar e nos explicar a origem de Flandia (a região) e Flan (o habitante), e com isso desenvolver toda a sua ideia de (des)união entre as pessoas, entre os povos.
No início, estranhamos a estrutura, mas no evoluir da leitura verificamos que há unidade e coerência e tudo fará sentido no final da obra. Na distopia desenvolvida na Flandia (região hifanada) os seus habitantes (os flans) estão normalizados, controlados pelo algoritmo. O ser humano é substituído pela tecnologia.

Esta leitura leva-me a intuir que a imperfeição da sociedade quer seja a da narrativa, a distópica, quer seja a actual, se encontra na ausência de ligação entre as pessoas, na distância entre uns e outros, na falta de afectos, na forma como agimos, como nos “hifenizamos”. Não é em vão que a autora aborda temas como a maternidade, a doença, a emigração, a escrita e a leitura. Temas fundamentais na construção, desenvolvimento e compreensão de uma sociedade.

Patrícia Portela com este livro pretende mostrar a complexidade de uma sociedade que se deixa conduzir, iludir em vez de decidir, de lutar por um futuro mais feliz e atractivo.
É por demais evidente a analogia com o presente em que vivemos subjugados pela tecnologia, pelos algoritmos, pela inteligência artificial e que corremos o risco de “um dia acordar sem palavras”, de perder faculdades, de perder a capacidade de raciocínio. Tudo isto influi no relacionamento entre as pessoas, deixa de haver união e desenvolve-se o individualismo.
Hífen é uma obra de difícil classificação, mas desafiante e perturbadora na medida em que nos faz questionar o presente em que vivemos.
Afinal também nós fomos até ao inferno. Será que fomos resgatados ou permanecemos adormecidos como as crianças Flans? Segundo consta “até à data, na Flandia, nenhuma criança acordou.” E nós?

Profile Image for juliana meurer .
117 reviews2 followers
December 6, 2024
Um flan chamava "flan" a qualquer doce da Flândia, fosse ele feito com leite e ovos, ou adicionando água a uma saqueta de ingredientes em pó. Chamava tomate a um vegetal produzido quimicamente num laboratório e a um que crescera na terra. O mesmo acontecia com um ser humano, que poderia dizer-se de alguém prestável que levasse uma vida pacata ou de alguém que ordenasse uma chacina de outros seres humanos. Não é evidente a Lógica de nomeação das coisas e dos seres e suspeito de que não utilizavam sempre as mesmas regras.

Amei, amei, amei. Um ensaio sobre a natureza humana escrito em forma de romance distópico. Geniais os capítulos da robô androide e suas observações que só poderiam ser feitas a partir desse afastamento da espécie humana. Certamente um dos livros mais criativos e filosóficos que já li - mas nem por isso confusos ou densos. Pelo contrário, encontrei aqui uma escrita leve e divertida, com direito a jantares flutuantes e notícias completamente absurdas.

Como é bom quando a gente encontra um livro assim ao acaso. Encontrei por 15 reais no balaio de promoções da feira do livro e no fim só levei porque gosto da editora e gostei da capa – a sinopse não me chamou tanto a atenção. E no fim posso dizer que foi uma das minhas leituras favoritas de 2024 :)

Profile Image for Beatriz Sandrini.
4 reviews
January 8, 2026
"Dias milagrosos que nenhuma mãe quer perder: os primeiros dias da leitura, da escrita. O poder que sentias quando olhavas à tua volta e podias fazer sentido de qualquer placa, qualquer carta, qualquer anúncio, qualquer sinal nas ruas. As letras não faziam só sentido no caderno da escola, faziam sempre sentido, em qualquer lado — numa revista, na parede, estampadas numa peça de roupa, num rótulo de uma garrafa, em casa, na padaria, nos livros, nas coisas. As letras faziam sempre sentido e nunca mais deixariam de o fazer. Ler era tão bom como aprender a andar de bicicleta."
Profile Image for Mario Soares.
220 reviews6 followers
April 13, 2022
Daquelas leituras que giram, giram, giram, e não saem di lugar.
Displaying 1 - 17 of 17 reviews

Can't find what you're looking for?

Get help and learn more about the design.