Quem se deslumbrou com a maestria narrativa, a sólida e delicada construção de personagens, a linguagem apurada e a temática brasileira de Torto arado, romance que converteu Itamar Vieira Junior em um dos nomes centrais da nossa literatura contemporânea, vai encontrar neste Doramar ou a odisseia: Histórias ainda mais motivos para celebrar a ficção do autor. E não são mesmo poucas as razões. Num diálogo permanente com nossas questões sociais e a tradição literária brasileira, Itamar enfeixa um conjunto de histórias a um só tempo atuais e calcadas na multiplicidade de culturas que formam o país: negros, indígenas, ribeirinhos, a força inesgotável das mulheres, as religiões de matriz afro, a sabedoria ancestral dos povos originais. Parte dos textos deste volume foram publicados em A oração do carrasco (2017), finalista do Prêmio Jabuti em 2018. A estes, foram acrescidos outros, inéditos em livro. Lidos na sequência, atestam a vitalidade de um escritor que encontra uma boa parcela de inspiração em personagens que desafiam os limites que lhes foram impostos e abraçam a existência em toda a sua plenitude.
Itamar Vieira Junior (Salvador, 1979) é um escritor brasileiro. Formou-se em Geografia na Universidade Federal da Bahia, onde também concluiu mestrado. É doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia com estudo sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste brasileiro. Em 2018, venceu o Prémio LeYa, com o romance “Torto Arado”.
Este livro conta doze histórias e o início da leitura não foi fácil. Não estava a perceber grande coisa e a prosa andava às voltas, mas isso deve ser só estilo do autor. Depois, comecei a gostar de algumas das histórias aqui contadas, mas não é um livro que me vá ficar na memória. Talvez seja blasfémia, mas penso que, e já é o terceiro livro que leio deste autor, não virá nada que supere Torto Arado. Talvez seja um one hit wonder...
As histórias de que mais gostei:
A oração do carrasco; Meu mar (fé); Doramar ou a odisseia; Voltar.
Ao iniciar a leitura dos 12 contos presentes na obra, esperava, invariavelmente, encontrar o autor de Torto Arado, isto é, um pouco de Bibiana, Belonísia e Zeca Chapéu Grande pelas páginas. No início não consegui, mas com o passar dos contos, como semeando aos poucos, tudo, mais e melhor do que há em Torto Arado se apresenta na presente obra.
As histórias presentes especialmente em Alma e A Oração do Carrasco foram de uma beleza adorável, que por si só já valeu a leitura. Ali não está somente o autor, está Martin Luther King, Lenon, Gandhi, Margarida Alves, Malcolm X, Garcia Lorca e tantos mais que foram perseguidos pelos carrascos da história, carrascos esses que “abordaram um ajudante de pedreiro em seu caminho para casa, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e desapareceram com seu corpo” (p.77).
E é assim, com crítica pungente, que o autor conversa conosco novamente acerta dos temas tão caros de sua trajetória, abordando pontos relacionados a escravidão, a mitigação da identidade afro, o machismo, a reforma agrária, os refugiados, a ditadura de 64, a destruição do meio ambiente, a deturpação da religião africana, a usurpação de propriedade, a questão indígena e a loucura da extrema-direita acerca de doutrinação ideológica nas escolas. Embora não tenha conseguido gostar de todas histórias, com beleza ímpar, Itamar nos leva de Amarildo até o julgamento de Eichmann em Jerusalém, tudo isso, falando especialmente do amor a terra e sua ligação com o homem. É bom, mas não excelente.
O meu primeiro contato com a escrita do Itamar Vieira Junior não foi com Torto Arado, livro que está na minha lista de futuras leituras desde que todo mundo começou a falar sobre. Ganhei Doramar ou a Odisseia de natal e achei que poderia inverter a ordem e começar por esse. E deu certo, porque agora eu quero ler Torto Arado ainda mais.
Doramar ou a Odisseia é uma coletânea de contos, então sinto que tive um gostinho do que a escrita do autor proporciona e a forma como ele desenvolve as suas histórias. Eu adorei. Achei um livro extremamente potente e um retrato incrível do Brasil (ou melhor, os diversos países e realidades que compõe o Brasil). Eu senti que cada um dos contos aborda uma temática importante para a compreensão do que é o Brasil e como o país se construiu ao longo dos anos. Itamar aborda o racismo, o machismo, os povos indígenas, a destruição do meio ambiente, refugiados, ditadura e mais. É um retrato. Honesto, forte e importante.
Por mais que eu tenha mais dificuldade de amar livros de contos, eu senti que a costura desse livro foi excepcional. Por mais que temos contos muito diferentes uns dos outros (em quesito de formas de narrativa e estrutura) eles se conversam entre si justamente por participarem de um todo e por todas as temáticas terem um diálogo tão necessário entre si. Isso tudo coexiste na vida fora dos livros e eu achei sensacional ver isso coexistindo também em uma obra de literatura
" Você está perdido lá, onde o deixamos, arrasto com o barco tudo o que há dentro de mim. No momento oportuno subo em você, mar, com a ajuda desse barco, vou caminhando por você, mar, porque cansei de nadar e boiar no dia em que nos separamos, eu trocaria você, mar, para que ele voltasse para meus braços. "
( excerto do conto Meu Mar (Fé) )
Doramar ou a Odisseia é um livro de 12 contos muito diferente do primeiro livro que li do Itamar Vieira Junior, Torto Arado. Neste livro encontrei uma narrativa mais lenta, poética e por vezes melancólica, que nos fala sobre a escravatura, as tradições indígenas, machismo e sobre o amor. Alguns contos não me prenderam tanto, outros me arrebataram, como por exemplo: Alma; A Floresta do Adeus, O Que Queima ou Meu Mar (Fé) que nos mostram como Itamar sabe escrever com mestria e delicadeza sobre as mulheres e suas emoções. Aconselho vivamente a leitura deste livro a quem já leu Torto Arado mas principalmente a quem queira conhecer este escritor tão talentoso.
Doramar ou a Odisseia foi a minha segunda experiência com o autor, a primeira foi com o livro Torto Arado. Eu diria que, ao mesmo tempo em que temos um resgate das lembranças de Torto arado, as obras também se diferem completamente. Em TA a gente encontra uma narrativa mais direta, quando aqui eu sinto que o autor pode experimentar muito mais em seus modos de escrever. Em Doramar eu pude encontrar uma narrativa mais poética, várias divagações até, que trouxeram um impacto e emoção muito maiores, ao mesmo tempo em que tornaram a leitura um pouco mais lenta de absorver. Por conta disso eu levei um pouco mais de tempo, apesar de não ser um livro longo, pelo contrário. Aqui encontramos diversos contos que conversam muito com as críticas que encontramos em TA, contos que falam de ancestralismo, falam sobre o passado escravagista, tradições indígenas, machismo, desmatamento e podemos encontrar até críticas à extrema-direita, todos temas muito relevantes para a nossa situação atual, mas que também nos permite resgatar muito do nosso passado. Confesso que nem todos os contos me agradaram, tive alguns que li mais devagar por não me prenderem tanto, mas alguns certamente me impactaram muito e até me emocionaram, entre eles: Alma; O espírito aboni das coisas; Voltar; e o manto da apresentação, que conversou muito bem com todos os outros contos e encerrou perfeitamente o livro. Recomendo muito a leitura deste livro, principalmente após Torto Arado ❤
Itamar Vieira Junior é um escritor de causas. Quem já leu “Torto Arado”, sabe o quanto as desigualdades sociais, o trabalho escravo ou a violência de género, a par com os atropelos ambientais, são alvo das suas preocupações e da sua luta. Nesse sentido, a literatura é uma arma ao serviço da denúncia de uma sociedade dominada por interesses obscuros, de políticos corruptos, da exploração crescente que cilindra os mais desfavorecidos, do fosso cada vez mais fundo entre ricos e pobres, tudo isto num planeta doente, moribundo, para o qual não há plano B. Mas se Itamar Vieira Junior prova, com “Torto Arado”, ser um extraordinário romancista, a sua faceta de contista não é menos notável. Vem isto a propósito de “Doramar ou A Odisseia”, um livro que acaba de ser publicado entre nós e que reúne doze textos, alguns deles publicados em “A Oração do Carrasco” (2017), aos quais o autor acrescentou um conjunto de inéditos de feitura anterior ou mais recente.
No afã de um fascinante tricotar de palavras, na singularidades dos seus sentidos e na beleza do seu contar, Itamar Vieira Junior oferece-nos um vasto e riquíssimo leque de contos, todos diferentes entre si, mas com um mesmo tom a uni-los. Um tom poético, suave como uma carícia, moldado no verde profundo da floresta, na água da chuva que cai incessante, no brilho do relâmpago ou no vermelho sangue que corre nas veias, irmanado com a matéria e os seus elementos, respeitados e adorados pelo homem que com eles comunga todos os dias, a quem entrega o seu querer e a sua vida. São textos que encontram continuidade em “Torto Arado” e se prolongam para além dele, conferindo força e coerência ao conjunto da obra do autor. Textos onde o céu é “neme” e a terra é “wami”, o rio é “faha” e o peixe é “aba”, os espíritos são “aboni” e o coração é “ati boti”, exaltantes na sua pureza, inspiradores no apego à mãe natureza e a todos os seus filhos.
Homens e mulheres roubados à terra e enviados para o outro lado do mar em barcos de negreiros, milhares de migrantes cujas balsas os despejam às portas da Europa ou se afundam no meio do Mediterrâneo, deserdados da terra em nome do progresso, criados de servir que se rebelam contra a sua condição - em todos escutamos uma voz a gritar liberdade. Homens e mulheres que, “com seu senso de humanidade interromperam guerras, sofreram dores, atravessaram desertos, viveram odisseias, transpuseram muros e cercas, forjaram a liberdade nas entranhas do seu ventre.” É nelas e neles que o autor se revê, é com eles que partilha inquietações e medos, mas também a esperança e a ânsia de um viver melhor e mais digno. Por isso nos lembra que, por muito altos que se ergam, os muros derrubar-se-ão; por muito que a destruam, a floresta renovar-se-á; por muito humilhados que sejam, os homens revoltar-se-ão. E a sua revolta espalhar-se-á. E, na sua luta por justiça e igualdade, vencerão!
Contrariando o sentimento geral, Torto Arado não foi das leituras mais marcantes para mim. Mas com "Doramar ou a Odisseia" foi diferente.
Os contos parecem ensaios para Torto Arado, tanto na forma quanto no conteúdo: o lirismo, a alternância de narradores, a centralidade das personagens femininas, a ligação do povo brasileiro com a terra e com sua ancestralidade, a luta de classes estão lá. Ao mesmo tempo, a coletânea é mais ampla. O campo, a mata, a cidade, o litoral se intercalam nas paisagens. O contemporâneo e o histórico se intercalam no tempo. Textos mais secos se intercalam com outros mais poéticos.
E os contos, por serem mais enxutos do que o romance, são também mais potentes.
Destaque absoluto para o conto "Alma", um texto como o de Raduan Nassar, que machuca como um Graciliano e tem um enredo com um toque de Tarantino.
Como todas as reuniões de contos, Doramar tem altos e baixos, mas os altos se sobressaem - e muito.
Histórias de mulheres guerreiras, que sofrem e passam pelas maiores provações. Contos que demonstram as atrocidades humanas, a realidade da "roça" e da escravatura. Itamar volta a expor a revolta e o desespero dos miseráveis. Gostei principalmente dos contos "Alma" e "Doramar ou a odisseia".
Quando peguei o livro em mãos, fiquei empolgada por reencontrar a escrita do Itamar Vieira Junior. Torto Arado me impactou de tal forma que as expectativas eram muito altas... Ainda não sei se isso foi o que prejudicou a leitura de Doramar ou a Odisseia ou o que me incentivou a ler os contos até o final, à procura de um pouco da experiência anterior. O fato é que as temáticas dos contos, as sinopses são muito boas. Voltar é uma delícia. Mas em geral a forma como eles foram escritos (e são bastante diferentes entre si!) não me agradou, não me engajou. Ainda gostaria de encontrar o autor de Torto Arado em uma nova obra.
Irregular. I mean, Itamar maneja bem as temáticas características e essenciais para a literatura brasileira. Percebe-se com muita clareza que é herdeiro de Raduan Nassar com toques de Guimarães Rosa. Mas senti falta de uma coesão melhor nos contos. Talvez tenha lido rápido demais e não tenha degustado como se deve. Mas as alternâncias tão bruscas de vozes e narrador dão mais uma sensação de desnorteamento do que qualquer outra coisa. Salva-se "Alma", "oração do carrasco", os mais longos em geral. Mas os curtos, ali pra preencher o miolo, nossa. Um autor importante, uma voz importante, sem sombra de dúvidas. Mas talvez só não seja meu tipo de literatura memo.
1. Eu realmente não sou a maior fã de contos. 2. A nota três foi meio que uma média porque eu me emocionei com alguns contos maaaaas outros tive a sensação de que estavam inacabados e não gostei.
“Doramar ou a Odisseia: Histórias”, do autor e escritor brasileiro Itamar Vieira Junior, é uma coletânea de doze contos que dá voz às feridas expostas das populações negra e indígena do interior da Bahia, por tantos séculos e vias silenciadas e marginalizadas.
A escrita de Itamar é como um caleidoscópio, combinando de forma fluida, poética e envolvente elementos que fazem parte da riquíssima herança ancestral e cultural do Brasil, de políticas sócio políticas que vulnerabilizam os mais vulneráveis, nomeadamente os que vivem da terra, para a terra e com a terra, que sustém, que nutre, que observa e testemunha.
Com precisão, clareza e admiração, o autor o reflete sobre o trabalho de sol a sol, a míngua, a solidão, a paciência, a resignação, a saudade dos que se foram e a esperança de um reencontro, o diálogo íntimo do ser humano com os elementos naturais, construindo pontes entre o Brasil passado, presente e futuro.
O animismo, as metáforas e as alegorias são uma constante ao longo destes doze contos, assim como a presença forte e firme de figuras femininas que lutam, de forma destemida e corajosa, contra o patriarcado, sem nunca deixar de lado o afeto, o carinho, o cuidado.
“A floresta do adeus”, “Alma”,”A oração do carrasco”, “O espírito aboni das coisas”, “Meu mar (fé), “Doramar ou a odisseia” e “Manto da apresentação” estão entre os contos que mais me sensibilizaram e que me deram a conhecer um Brasil dotado de uma história ancestral que deve ser protegida, honrada, perpetuada. Sublinhei, anotei, mergulhei e vim à tona à medida que avançava na leitura. Houve contos que voltei a ler em voz alta, de tão bonitos que são.
Mais do que um conjunto de histórias, este livro retrata a odisseia de pessoas que lutam para sobreviver num mundo onde o silêncio, a indiferença, o anonimato, os interesses político-económicos e a descartabilidade ainda estão a tempo de serem contornados com a consciência plena de que o eu e o outro são como duas faces de uma mesma moeda, de uma mesma humanidade.
Itamar Vieira Junior é uma voz incontornável da literatura brasileira contemporânea pelo que recomendo vivamente a leitura dos seus livros.
O soteropolitano Itamar Vieira Júnior, nascido em 1979, geógrafo, doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA é, hoje, escritor consagrado. Seu romance de 2019 – “Torto Arado” – venceu o prêmio Leya, além de receber os prêmios Oceanos e Jabuti e de estar sendo traduzido para mais de uma dezena de idiomas. “Doramar ou a Odisseia” é um conjunto de relatos breves mas contundentes em que o autor desvela o nosso passado (e presente) eivado de tradições de origem africana e, ou indígena além de, mais uma vez, como na saga das irmãs Bibiana e Belonísia presente em “Torto Arado”, desenvolver personagens femininas fortes e marcantes. Os contos são ótimos com a exceção de “manto da apresentação”, confusa e algo verborrágica homenagem ao artista Arthur Bispo do Rosário. Merecem destaque “A floresta do Adeus” (pungente relato sobre um trágico amor na perspectiva de Rosa, separada forçosamente do seu amado), “Farol das Almas” (contundente e breve relato centrado no papel do braço escravizado na construção daquilo que chamamos de Brasil), “O que queima” (relato um tanto fantástico e fantasmagórico sobre um casal que se muda para a “casa dos sonhos” que acaba se transformando em um pesadelo), “Alma” (cativante e emocionante relato de uma escravizada em fuga), “Na profundeza do lago” (relato com um “quê” de gótico em que uma sensível mulher se depara com um terrível segredo), “Meu mar (fé)” (que aborda a questão de todos aqueles que se aventuram longe de sua terra natal em busca de uma vida melhor), “Doramar ou a Odisseia” ( que nos traz a empregada doméstica Doramar e seu despertar para toda a opressão que ela sofria no seu dia-a-dia) e “Voltar” (que nos revela a sofrida vida de Divina, uma senhora que se recusa a deixar a sua casa localizada numa área que está para ser alagada). Itamar Vieira Junior, indubitavelmente, é autor de uma obra que merece ser seguida neste Brasil em que a literatura é tão menosprezada. Ótima pedida!
A floresta do Adeus ★★★★ Farol das almas★★★★ O que queima★★★ Alma ★★★ A oração do carrasco ★★★★ O espírito aboni das coisas ★★ Na profundeza do lago ★★ Inquieto rumor da paisagem ★★★ Peixe gigante encalhado ★★★★ Meu mar (fé) ★★★ Doramar ou a odisseia ★★★ Voltar ★★★★ manto da apresentação ★★★
É uma aventura ler um livro de contos: mal nos apaixonamos por uma história e ela chega ao fim. Ao mesmo tempo, se não gostamos, também temos o consolo de que ela logo acabará. Esses foram os meus sentimentos mistos com essa coletânea. Encontramos o Itamar militante dos outros livros, usando a ficção para ilustrar nossas problemáticas como Brasil: escravidão, racismo, o impacto de grandes projetos de infraestrutura. O que torna acaba tornando esse livro excelente para introduzir muitas discussões de direitos humanos. ((Mas meio cansativo pra quem já conhece elas (?)))
A “floresta do adeus” nos introduz ao tempo de espera de vidas fronteiriças, em “oração do carrasco” os dias de matança de um pai de família que ceifa vidas como ofício, honrando o mesmo ofício de seus antepassados. Em “voltar”, conhecemos uma idosa que não quer arredar o pé de sua casa diante da construção de uma hidrelétrica que promete inundar a região. Histórias de vingança, de travessias, de quartinhos no fundo das casas e dores. Não cheguei a dar 5 estrelas pra nenhum conto pq o ritmo se quebrava quando eu percebia o tom de manifesto meio fora de lugar, estratégia bem repetitiva nos contos.
Em ‘’Doramar ou a Odisseia’’, escrito por Itamar Vieira Junior, somos apresentados 12 contos que apresentam historias sobre diversos assuntos diferentes mas que no fim sempre intercalam a problemática social e politica das relações brasileiras e históricas produzidas por meio de uma ideia de exploração neoliberal. Itamar promove um encontro a um mundo subjetivo e ficcional que se traduz como uma mecânica literaria para traduzir o que ocorre no mundo real, físico e material.
E com toda essa prepotência, somos apresentados a 12 contos ruins. Que não se expandem em si e possuem uma confusão na escrita que não se parece nada com a escrita de ‘’Torto Arado’’, livro anterior, do qual ele ganhou seu sucesso, por isso digo de maneira imperativa, não vá comprar esse livro se acha que será uma continuação espiritual ou metafisica do seu antecessor famoso pois ira se arrepender.
No fundo, tenho a teoria macabra que esses contos foram escritos antes de seu irmão mais velho, mas como Itamar queria lançar algum livro, por necessidade financeira ou egóica, acabou por compilar eles em um único volume estratégico para a mercantilização do tal. No fim, todo mundo precisa comprar o leite das crianças, mas não precisava entregar uma obra tão mal escrita, pouco elaborada e mal desenvolvida como essa.
demorei um pouco pra pegar no tranco, mas a partir do terceiro conto, acho que teve uma ótima sequência e fluidez de altos e baixos entre os contos. é impressionante como em duas páginas eu já sinto o impacto da narrativa e entendo o sentimento que o autor quis passar, gosto muito disso na escrita dele. li esse depois de Torto Arado, e confesso que estava com altas expectativas, que foram supridas no geral. em especial, Alma e A Oração do Carrasco foram excepcionais e com pontos de vista únicos, realmente algo que eu nunca tinha lido parecido. o desenvolvimento se deu até o ponto certo, o ideal quando se trata de contos. além disso, a sequência dos capítulos Meu mar (fé) e Doramar ou a odisseia são realmente o ponto alto do livro. apesar das poucas páginas, são muitos os temas, problemáticas e discursos abordados magistralmente pelo autor. também tive uma boa surpresa com o último conto, com uma genial homenagem a um artista do meu estado.
Li "Doramar ou a Odisseia: histórias" algum tempo depois de Torto Arado, uma obra que me marcou para sempre. Em Doramar a construção, como obra, não se desenha de início, são contos e como tal devem ser lidos separadamente. Só quase no final ( e deixei o conto "Doramar..." para o fim) senti aquilo que procurava: um sentimento de unidade em relação às personagens, todos elas fazendo parte da mesma história, a História do Brasil maculado de injustiças e sofrimento. Curiosamente escrevo este pensamento depois de ler "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes e as duas obras têm para mim muitos pontos de contacto: a fratura de mundos entre o poder dos ricos e a fragildade do trabalhador braçal escravo, o apego à terra ou ao mar destes últimos bem como a capacidade que têm de encontrar nos restantes seres vivos a irmandade que lhes é negada pelos da sua espécie. Aqui o Bem e o Mal são personificados sem margem para dúvidas. Que grande obra Itamar Vieira Júnior!
que felicidade foi descobrir a arte de Itamar Vieira Júnior em 2021!!! Doramar ou a Odisseia traz toda a sensibilidade e profundidade desse autor excepcional. fui com bastante expectativa depois de ler Torto Arado e não me decepcionei. meus contos favoritos foram "Meu mar (fé)", que traz a dor e a angústia de esperar por e não desistir de alguém que foi arrancado de você e que nunca mais irá voltar, assim como "Doramar ou a odisseia", que revela as sequelas da escravidão que maltratam até hoje, ao retratar as agruras de uma mulher negra que vive como empregada doméstica e que presenciou muitas violências e perdas. "Voltar" também me tocou muito, pois não tem como não se sensibilizar com a determinação e a dor de Divina, uma senhora que vive para reparar um certo arrependimento do passado, quando teve de fazer escolhas difíceis. uma das melhores leituras do ano! 🤍
Se você não conhece Itamar Vieira Jr, não recomendo iniciar sua leitura com esse livro (recomendo com Torto Arado ou Salvar o Fogo). Fora isso, achei um livro cheio de sentimentos, a escrita flui na velocidade de nossos pensamentos e emoções, sem pontos finais. Como toda leitura do Itamar, também é carregado de muita ancestralidade afro indígena, com viagens no tempo pré e pós escravagista, carregando todas as cicatrizes disso tudo.
Uma série de contos onde prima a beleza da linguagem, com parágrafos de fôlego estonteante transformando a prosa num rio de poesia. Na escrita de Itamar cabe a humanidade inteira e a intensidade das personagens fá-las sair do papel a cada página percorrida.
Entre os seus dois exitosos romances Torto arado (2019) e Salvar o fogo (2023), Vieira Júnior publicou esta coleção de contos, embora alguns deles já tivessem sido publicados e até premiados antes do fenômeno literário e social do seu primeiro romance.
Como já escrevi na minha resenha de Salvar o fogo, não compartilho totalmente a aparente unanimidade crítica sobre a escrita do autor, e tenho algumas reticências com ambos os romances. Por isso, surpreendeu-me gratamente Doramar.
Parece-me que o formato curto favoreceu a experimentação com vozes e temáticas novas e mais diversificadas. Embora parte dos contos compartilhem o universo neorrealista e histórico que é a "marca registrada” do autor, outros aprofundam-se numa distopia autoritária contextualizada na sua provável produção nos anos que seguem ao golpe legalizado contra Dilma Rousseff: os tenebrosos anos que se iniciam no governo Temer e só concluem com a posse de Lula em janeiro de 2023. Alguns, ainda, enveredam-se pelos caminhos do maravilhoso.
Nesses contos, mesmo sem abandonar um certo doutrinarismo, o autor permite-se explorar as ambiguidades morais e as contradições humanas com maior liberdade criativa, apontando caminhos possíveis para a sua produção futura.
Ouvi o livro na plataforma Audible, e penso que o trabalho do ator Ivan Velame contribuiu também para a apreciação do livro.
É sempre difícil dar nota para um livro de contos, porque sempre gosto mais de alguns do que de outros. Meus preferidos deste livro foram: "A oração do carrasco" "Na profundeza do lago" "Meu mar (fé)" "Voltar" "manto da apresentação"
A escrita de Itamar Vieira Junior é algo de surreal do quão bonita é. Poesia pura em cada palavra. Nesta coletânea de contos é possível saborear o seu dom da escrita. Certos contos conquistaram-me mais do que outros - como seria previsível - mas todos foram uma leitura agradável.
Após o sucesso arrebatador de “Torto Arado”, Itamar Vieira Júnior republica o seu livro de contos, agora intitulado “Doramar ou a Odisseia: Histórias”, pela editora todavia. A obra traz novos contos, escritos após “Torto Arado”, e traz os elementos que serviram de inspiração para o universo construído em sua obra premiada: o mergulho no Brasil profundo, a ascentralidade, a herança escravagista e patriarcal do Brasil, a relação do homem com a terra e os sentimentos universais e atemporais que tão bem caracterizam a literatura de Itamar. Em seus contos, acompanhamos a sina dos escravizados no Brasil, a luta dos povos refugiados em busca de melhores condições de vida, as tradições indígenas apagadas ao longo da nossa história, mas que ao mesmo tempo nos definem, as vozes negras femininas silenciadas. No estilo que já caracteriza a sua escrita, Itamar apresenta, como ninguém, a alternância de narradores, dando voz a quem nunca teve a oportunidade de se manifestar. Na obra relançada e potencializada, Itamar supera com destreza o desafio que se impõe a qualquer livro de contos: suas histórias tem unicidade.
Itamar Vieira Junior continua um ótimo escritor em todos os quesitos, mesmo que eu tenha me lembrado um pouco de como as vezes ele é um pouco direto e óbvio demais, entregando tudo mastigadinho para o leitor (o que não é necessariamente um problema, só chatice minha mesmo).
e mesmo assim, tá pra nascer coleção de contos que me pegue de verdade. sempre tem uma minoria de histórias incríveis, enquanto as outras caem no esquecimento assim que acabam. continuo lendo porque gosto de como esse formato de leitura se encaixa na minha rotina, e continuo procurando um livro de contos que finalmente se mostre diferente dos demais
Segui o caminho convencional do leitor brasileiro de 2021, fiquei encantado com o Torto Arado e corri para ler Doramar ou a Odisseia. Não achei espetacular, alguns contos melhores que outros, mas um bom livro. Serviu, sem dúvidas, ao propósito mercadológico e surfou a onda de Torto Arado com louvor.
“Doramar ou a odisseia” é o conto que empresta nome a essa coletânea de Itamar Vieira Júnior que, mantidas as particularidades do gênero, poderia facilmente ser encarada como um romance, à maneira de uma “biografia do Brasil”, para referirmo-nos a título caro a Lilian Schwarcz, mas, diferente do esforço historiográfico desta, construída a partir de um exercício ficcional que tematiza as subjetividades que (sobre)vivem à revelia de uma objetividade que tenta subjulgá-las e mesmo exterminá-las intencional e sistematicamente. Em outras palavras e aludindo a uma ilustração metafórica mobilizada pelo autor no texto “Voltar”, este é um livro sobre as histórias que precisaram ser apagadas para que a “luz” da história hegemônica fosse acesa: as mulheres que foram encarregadas da política do cuidado (com a casa, com os maridos, com os filhos etc) e, em razão disso, precisaram abrir mão do “sonho da morada e da vida próprias”; o cativeiro das que são “como se fosse da família”, mas na condição de patrimônio; as sendas de fuga e sobrevivência trilhadas pelos/as que foram escravizados/as; os que, como Dom e Bruno, foram vitimados por carrascos, estes mesmos tributários de um contexto de violência política generalizada; a parteira de idade avançada cuja casa lhe é expropriada e em seguida inundada em favor da fundação de uma hidrelétrica.
A leitura desses fios de história que compõem uma tessitura heterogênea, assaz distinta da homogeneidade artificiosa pressuposta pela ideia de nação, nos remete a empreendimentos análogos operados por outros autores latino-americanos. Aqui, me refiro especialmente às “Coisas que perdemos no fogo” da argentina Mariana Enriquez, que constrói algo como um “terror” que, na contramão dos cânones estadunidenses, os quais lançam mão do sobrenatural para gerar efeitos de medo e apreensão, se faz precisamente a partir de um hiper-realismo que traz a tona histórias que, não obstante obscurecidas e sistematicamente ignoradas, se interpõem ao nosso cotidiano a todo instante: a da mulher brasileira que nasceu “macho e uruguaio”, ou da que teve o braço amputado e gera medo nas crianças que crescem em uma sociedade capacitista, ou ainda dos crimes cuja origem encontra-se no complicado entroncamento da extrema pobreza com o estímulo ao consumismo desenfreado.
Tanto na obra do brasileiro quanto na de seu par argentino, a necessidade de gerar desconforto e questionar um cotidiano que, a muitos/as, soa como pesadelo.