Com a participação de António Guterres, O Mundo Não Tem de Ser Assim oferece o mais completo retrato do percurso político e humanitário do secretário-geral das Nações Unidas. Baseada em mais de 120 entrevistas - a antigos chefes de Estado e de Governo, altos funcionários da ONU e amigos íntimos do ex-primeiro- ministro português - esta biografia conta a história de António Guterres desde o despertar da sua consciência política até ao seu trabalho sobre as questões mais prementes do século XXI, como os direitos das minorias e os fenómenos migratórios, o terrorismo globalizado e o diálogo inter-religioso, ou a própria reforma das Nações Unidas. Revelando episódios e documentos inéditos, esta obra dá ainda a conhecer as manobras de bastidores que tentaram sabotar a candidatura portuguesa ao posto de secretário-geral da ONU e a relação de António Guterres com as duas grandes potências mundiais, Estados Unidos da América e China. Dividida em quatro partes - que cobrem, respetivamente, o início da sua carreira política, os mandatos como primeiro-ministro, a missão à frente do Alto Comissariado para os Refugiados e a eleição para secretário-geral das Nações Unidas - este livro apresenta a visão de António Guterres sobre o mundo, produto do seu contacto com os líderes mundiais e as populações mais vulneráveis.
Foi muito mais pelo "personagem" do que pelos autores que me atirei às 630 páginas da biografia de António Guterres. Contudo, a escrita revelou ser corrida mas de qualidade, como se quer (ou eu quero) neste tipo de abordagens de não ficção.
As páginas lêem-se bem e delas transparece a enorme investigação levada a cabo pelos autores. Construir um todo coerente com tanto material mostrou ser um enorme desafio. Não obstante, foi aqui que residiu, na minha opinião, o pecado deste livro: a selecção de demasiada informação. Uma das grandes artes da escrita está na forma como se constrói um enredo, assente na selecção criteriosa do material que serviu de base à investigação. As 630 páginas deste livro poderiam bem ter sido 500 que pouco se perdia. A cor das cadeiras ou da alcatifa de um hotel em África onde Guterres deu uma conferência pouco acrescenta ao que se quer transmitir.
Dito isto, o livro é um regalo para quem admira António Guterres. "Fiz as pazes" com dois pontos que haviam ficado atravessados dos tempos de primeiro-ministro (eu tinha 14 anos quando Guterres venceu as primeiras eleições): o aborto e o deputado do queijo. No primeiro, tal como Guterres, também eu mudei de opinião e no segundo, gostei de ler a assumpção do seu erro (ele chama-lhe "erro de avaliação total"): o deputado do queijo foi o que mais me desiludiu no seu comportamento.
Oscilei entre as 3 e as 4 estrelas, mas apesar das 3 estrelas que atribuí, sabem a 4 para muitos leitores (como se pode ver pelas classificações). E são merecidas pelo enorme trabalho de investigação, pelos autores terem conseguido manter as pontas coesas, e pelo percurso admirável de um homem bom.