O Conservadorismo fala de respeito às instituições, aos estabelecimentos democráticos, aos freios e contrapontos e à liberdade civil, algo que esta nova direita com carácter identitário tenta consecutivamente minar com um discurso divisor mascarado de reformista. Bolsonaro faz parte da resposta global da direita radicalizada contra a hegemonia de esquerda, que em vários países tornou-se um parasita em várias instituições e assustou o status quo em vários assuntos sociais e económicos. Foi uma esquerda que também se radicalizou, com uma história de reformas económicas e recessões que trouxeram miséria, e por falta de soluções, abraçaram todo e qualquer tipo de ideologia identitária de forma a manter o seu eleitorado. Seria natural uma resposta da direita que, para competir, tivesse de adotar estratégias similares ao carácter revolucionário de esquerda, embora cunhado com credos religiosos. Se o PT rebaixava Jesus para o encaixar no político, agora o bolsonarismo eleva o político para o encaixar em Jesus.
É verdade que discursos de Bolsonaro foram deturpados para servir uma contra narrativa eleitoral, mas sendo este um político de estirpe populista, as mentiras fazem uma maior parte do menu do que é normal noutros meios políticos. O canal do Twitter @desmentindobozo fez um excelente trabalho de fiscalização pública do Presidente. No entanto Yago foca-se na personalidade de Bolsonaro como político que usa o nome de Deus e a religião de uma forma que faz lembrar os autoritários de outrora, claramente usando o eleitorado e instituições religiosas para se elevar a um patamar onde qualquer questionamento ou crítica aos seus feitos não seja considerada parte do processo democrático, mas sim o equivalente a heresia.
Bolsonaro se vendeu várias vezes como um bom cristão em discurso e nas redes sociais. Postagens de versículos, clamores pelas bênçãos de Deus, alianças com líderes evangélicos e fotos em momentos de oração. Isto é comum no meio político e em nada retira o mérito de Bolsonaro o cidadão abrir um pouco a janela da sua vida privada para se humanizar perante o eleitorado. Conquanto Bolsonaro elevou a profanação aos símbolos da fé a um novo nível. No dia 12 de Abril, Domingo de Páscoa, ele comparou a facada que recebeu com a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Faz uso de profanação messiânica e até à escrita deste ensaio, ele parece ter aceitado Jesus meia dúzia de vezes.
Ao clamar “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” o governo Bolsonaro, a partir do seu núcleo ideológico, usa o nome de Deus em vão, solicitando a colaboração das igrejas cristãs. Com um discurso de bem contra o mal – típico de líderes populistas – Bolsonaro passou a usar a língua da batalha espiritual que é tão comum nas igrejas neopentecostais, e também presente no catolicismo romano da renovação carismática. São discursos incrivelmente poderosos e mobilizadores dentro da igreja que, juntamente com o elemento político, cria uma espécie de elite e “braço armado” em volta dos líderes. Isto permite mascarar ainda melhor o que é comum na política: políticos que falam contra o casamento gay estando no terceiro ou quarto casamento, ou contra o aborto enquanto defendem péssimas políticas sanitárias; falam contra a liberalização das drogas enquanto protegem a vida boémia dos seus filhos. Este cristianismo cultural faz com que descrentes confundam o que é um verdadeiro projeto de sociedade cristã com qualquer política chamada de conservadora.
Com isto Bolsonaro não é louvado principalmente pelo que faz mas pelos seus credos. Defender Bolsonaro torna-se uma resposta automática e toda a acção pouco ou nada cristã é tolerável, citando com habitual cliché a história do Rei David, um herói bíblico com (vis) falhas. Na perspetiva dos bolsonaristas, a cultura e as instituições estão tomadas por comunistas, incluindo os liberais e os conservadores moderados como adversários políticos por estes terem alegadamente vergado perante a pressão comunista. O sistema de ensino brasileiro certamente foi influenciado pelo teorista crítico Paulo Freire, feitos altamente ignorados até tarde demais, enquanto a ditadura militar caçava guerrilheiros no mato. Mas não vejo como justifica o romantismo bolsonarista pela política militar, que acabou em ditadura e desrespeito por direitos humanos. Conservadorismo vive o presente e olha para o passado com sabedoria. O bolsonarismo olha para o passado com saudosismo e menospreza a modernidade.
Para ser franco, não sou particularmente fã do autor deste ensaio, a principal razão sendo que eu simplesmente não acompanho o seu canal, pelo menos assiduamente. Contudo a reflexão aqui feita foi sólida e sóbria.