Entre as divindades cultuadas pelas religiões afro-brasileiras, nenhuma tem provocado tanta polêmica quanto Exu. Por se tratar de uma entidade associada à sexualidade e à fertilidade, seu culto de origem africana, quando descoberto pelos europeus séculos atrás, foi alvo de preconceitos e mal-entendidos. Sua demonização foi inevitável, tanto na África quanto nas Américas para onde seu culto foi trazido, preservado e transformado pelas comunidades africanas e seus descendentes, num diálogo intenso com a colonização católica e as práticas indígenas locais. Exu é um livro um pouco diferente dos títulos publicados anteriormente pela Pallas Editora na Coleção Orixás. Ele não trata de detalhes de culto “visto de dentro”, de listas de correspondências simbólicas ou de outras informações desse teor, mas discute o significado e o processo por meio do qual se configurou a entidade hoje cultuada nas diversas religiões afro-brasileiras. Fala de seus mitos, do seu papel no panteão africano e brasileiro, de suas relações com o cotidiano do povo. Incompreendido quando veem nele apenas um arauto do mal, sob a ótica das religiões que professam dicotomias maniqueístas (bem e mal), Exu soube dar a volta por cima e mostrar seu poder de inversão ao difundir a possibilidade de também fazer o bem, ainda que sob a capa preta ou usando nomes associados aos chamados demônios judaico-cristãos. Nesse sentido, expressa seu poder de negociação e de interligação entre mundos sociais e religiosos inicialmente distantes, mas que se tocam por força da história.
Seguindo a linha acadêmica com que em solo brasileiro certos assuntos são abordados ou até mesmo monopolizados pelas cátedras, o livro traz uma linguagem quase pernóstica - ou, pelo menos, resultante de um emaranhado de fontes que em sua maioria não se concatenam de forma a direcionar o leitor a um exercício intelectual coeso. Para uma leitura tão breve, levei praticamente um semestre para concluí-la - o que, ao meu ver, mesmo a despeito de outros afazeres, mostrou-se excessivo.
Com relação ao conteúdo, trata-se de um breve compêndio que mais expõe aspectos basilares da estratificação social tupiniquim e como ela veio, por razão das características limitadas e tendências meramente intuitivas ou sentimentalistas de seu povo - tratadas por José Osvaldo de Meira Penna em seu livro "Psicologia do Subdesenvolvimento" - a deturpar conceitos sobre Èṣù, força vital cultuada por diversas etnias oriundas da África Ocidental e cujo caráter se desvela no funcionamento dinâmico do Universo e no intercâmbio entre os seres humanos e as demais divindades que o sustentam.
Do ponto de vista sociológico, portanto, traz informações interessantes, principalmente quando aborda comparativamente e de forma pormenorizada as diferenças e semelhanças entre a cultura brasileira e a cultura cubana, por exemplo, detalhando conceitos inerentes aos diversos títulos que este Òrìṣà carrega junto à Santeria e ao Lucumí - léxico litúrgico derivado da linguagem Yorùbá. Porém, não mais do que isso.
Trata-se, portanto, de uma exposição sobre o imaginário coletivo brasileiro - inegavelmente supersticioso e cuja identidade é representada por maneirismos populares que ao longo dos séculos vieram a afastá-lo de sua origem tradicional - e suas justificativas.
Certamente, para o leitor mais experimentado, torna-se mais conveniente considerarmos a própria bibliografia elencada para a produção de "Exu: O guardião da casa do futuro", em meio à qual se pode encontrar sumidades como Wande Abimbola, Pierre Verger, Juana Elbein dos Santos, Geoffrey Parrinder, entre outros.
Exu é quem abre os caminhos. Exú é a ordem e a desordem. Exú nos orienta e desorienta. Ele nos acompanha na encruzilhada da vida e nos apresenta as alegrias de viver. A obra de Vagner é um convite para ampliarmos o entendimento de quem é Exú. Em uma sociedade onde a intolerância religiosa cerceia a beleza que acompanha a sabedoria que veio da África e que se expandiu no Brasil, este livro nos fornece repertório para criticarmos um discurso superficial e que dividi ao invés de incluir. Laroiê, Exú!
Se por um lado o livro trata tanto do Orixá Exu quanto da entidade de Umbanda Exu, o que o caracteriza como fonte de bastantes informações, por outro o livro não faz uma distinção entre as duas coisas, que são de naturezas completamente distintas.