Le grand livre qu'on attendait sur l'année Covid racontée par un grand écrivain.
En mars 2020, déboussolé par les images venant d'Italie, je me suis senti, comme beaucoup, bombardé par un bombardier inexistant. Les actualités et la pandémie captaient toute mon attention. Au cours de ces semaines, mon attention latérale a été mise en suspens et une tension a surgi pour ne plus s'éloigner. Face à cette tragédie et à cette intensité, l'écriture devait être présente. Faire un pas en avant tandis que progressait ce violent événement. Je me suis mis à écrire tous les jours, suivant ce qui se passait avec la sensation d'assister à quelque chose d'unique et de terrible. J'ai écrit chaque texte comme si c'était le dernier, non pas parce que je pensais que j'allais mourir ou que la fin du monde approchait, bien sûr, mais dans le sens où je mettais toute l'énergie de la journée dans le texte –; ne pas garder des munitions pour le jour suivant : c'est maintenant ou jamais. Et le lendemain je me réveillais et j'adoptais la même attitude : c'est maintenant ou jamais.
Gonçalo M. Tavares was born in Luanda in 1970 and teaches Theory of Science in Lisbon. Tavares has surprised his readers with the variety of books he has published since 2001. His work is being published in over 30 countries and it has been awarded an impressive amount of national and international literary prizes in a very short time. In 2005 he won the José Saramago Prize for young writers under 35. Jerusalém was also awarded the Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2007 and the LER/Millenium Prize. His novel Aprender a rezar na Era de Técnica has received the prestigious Prize of the Best Foreign Book 2010 in France. This award has so far been given to authors like Salmon Rushdie, Elias Canetti, Robert Musil, Orhan Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez and Colm Tóibín. Aprender a rezar na Era da Técnica was also shortlisted for the renowned French literary awards Femina Étranger Prize and Médicis Prize and won the Special Price of the Jury of the Grand Prix Littéraire du Web Cultura 2010. In 2011, Tavares received the renowned Grande Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, as well as the prestigious Prémio Literário Fernando Namora 2011. The author was also nominated for the renowned Dutch Europese Literatuurprijs 2013 and was on the Longlist of the Best Translated Book Award Fiction 2013.
Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, peças radiofónicas, curtas-metragens e objectos de artes plásticas, vídeos de arte, ópera, performances, projectos de arquitectura, teses académicas, etc. Estão em curso cerca de 160 traduções distribuídas por trinta e dois países. Jerusalém foi o romance mais escolhido pelos críticos do Público para «Livro da Década». Em Portugal recebeu vários prémios, entre os quais, o Prémio José Saramago (2005) e o Prémio LER/Millennium BCP (2004), com o romance Jerusalém (Caminho); o Grande Prémio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores «Camilo Castelo Branco» (2007) com Água, Cão, Cavalo, Cabeça (Caminho). Recebeu, ainda, diversos prémios internacionais.
Vă mai amintiți lunile martie, aprilie și mai ale anului 2020, începutul molimei, „starea de urgență”? Tavares ne împrospătează memoria.
Jurnalul său cuprinde știri ciudate, grotești, de un comic involuntar (în plină pandemie, Trump e obsedat de gardul dintre Mexic și SUA), meditații despre împrejurarea de a fi singur (pentru „a fi împreună cu ceilalți”, cum pretindea o lozincă), fraze din horoscoape (care nu ies din stereotipul lor milenar), emisiuni la televizor, articole din publicații, editoriale, filme de tot felul (inclusiv coreene), replici amețitoare. Eroii zilei: Boris Johnson (a căzut bolnav chiar la început), regina Elisabeta a II-a (nu și-a mai serbat ziua de naștere cu salve de tun), Papa Francisc (își începe ziua cu o rugăciune către Thomas Morus, martirul), Ursula von der Leyen („Europa trebuie să-i ceară iertare Italiei”), Hugo López-Gatell, epidemiolog mexican foarte chipeș: a devenit instantaneu idolul femeilor din Mexic.
Jurnalul e redactat în propoziții telegrafice, lapidare, adesea fără predicat, fără legătură unele cu celelalte - alta decît aceea impusă de procedeul psihanalitic al asociațiilor libere. Tavares nu a vrut să compună un text coerent, nu a încercat să privească de sus, cu ochi olimpian, zvîrcolirile lumii în pandemie, a lăsat rumoarea știrilor în discontinuitatea ei aiuritoare. În fond, așa funcționează și lumea, și mintea: anapoda, haotic, absurd, dezlînat. Mai ales atunci cînd mintea nu e obligată să caute un sens sau nu-l poate găsi din pricina propriei orbiri (sau a spaimei).
Să vedem cum își justifică Tavares însemnările:
„Necesitate absolută, jurnalul. În fața întîmplării, rămîn atent și în picioare… Jurnalul Pandemiei, ca tovarăș în zilele dure și în zilele făcute pentru a vedea. Și tentativă de document, pentru ca memoria nestatornică să lase un vestigiu mai clar. A fost tentativa mea de a diagnostica, pe jumătate speriat, realitatea zilelor. Jurnalul a fost, înainte de toate, o reacție individuală la acele timpuri dure”.
Închei cu o observație uimită: ceea ce lipsește din notele lui Gonçalo M. Tavares e veșnica teorie a conspirației, înfloritoare la noi și ucigătoare de prietenii și iubiri eterne. În Portugalia, se pare că medicii nu au fost plătiți (cu cîte 2000 de dolari bucata) pentru a pune un diagnostic fatal, convenabil Guvernelor și ocultei iudeo-masonice. Cei care au murit de Covid chiar au murit de Covid...
P. S. Pînă una-alta, nici în Japonia nu au avut succes ideile conspirative. Ar trebui să ne întrebăm de ce...
Opinião (silenciosa) d’O Diário da Peste, de Gonçalo M. Tavares
Revisão de Texto: Anabela Prates Carvalho
Febre. Diário. Urgência.
Pressa. Pasmo. Confusão. Alerta.
Música. Som. Silêncio.
Medo. Espanto. Incerteza. Caos.
Frenesim. Depressão. Abismo.
“Em vez de máquinas para a velocidade, máquinas para a salvação”.
“Estar doente é uma ameaça ao Estado. Todo o doente fica de imediato estrangeiro”.
“Ficar no mesmo sítio, mas de forma rápida. Destruir a própria casa pela velocidade. Destruir a família pela velocidade. Destruir a família pela lentidão”.
“Só fora do ecrã o sangue é sangue. Mas esta peste não tem sangue. Uma das raras tragédias em que não há sangue. Difícil entender tragédia sem sangue”.
“Quanto tempo fica o mal numa superfície? Pensar no mal que se elimina limpando. Apesar de tudo, é um mal mais ou menos manso. Um mal que espera. Não ataca. (…) Não apenas o mal. Quanto tempo fica o bem nas superfícies?”
"Se fores resistente, o acaso mostra o que procuras. Subornar a sorte através da paciência."
Não há palavras que descrevam uma bela crónica de quem transmitiu a essência do Humano, em letra maiúscula, num dos tempos mais conturbados da Humanidade. Acontecimentos que nos parecem tão distantes e ainda assim tão frescos. Saramago disse que G.M.Tavares era um grande potencial ao Nobel. Não fazia a mínima ideia que o senhor, revestido de uma vasta cultura, com um diário escrito em 90 dias em plena pandemia, conseguisse dar-me um murro no estômago. Que soubesse dar voz a cada silêncio contido, cada alma que pediu socorro e afinal não estava sozinha. Que trouxesse música, o olhar vigilante dos animais, a máscara que cobria o rosto, mas não os olhos. O toque que se tornou proibido. Os passos em falso. Grito contido. Humanidade em plena pandemia do século XXI.
Este é daqueles livros cuja passagens só podem descrever o seu cerne...
"Não podemos pensar qualquer coisa em qualquer sítio O sítio onde estás fisicamente determina aquilo em que pensas Há coisas que só se podem pensar na fronteira. Na transição de um espaço para outro. Certos pensamentos são apenas possíveis em 2020. Época preciosa nesse sentido: é preciso aproveitar a fronteira."
Este diário é muito mais do que um retrato da pandemia vivida em 2020, é uma imersão total na mente de Gonçalo M. Tavares, que nos permite sentir em primeira mão o processo (in)consciente da ligação de pensamentos derivado de notícias e acontecimentos que caracterizam esta época. Apesar das crónicas soltas e por vezes sem ligação, foi este formato que transformou este livro não só numa experiência literária única, mas também num objeto de extremo valor de representação histórica.
Testimonio, poesia, narración, llamenlo como quieran; lo cierto es que es una experiencia intima e intensa, profundamente racional y emotiva sobre los primeros noventa días de la pandemia: Hechos aislados, hechos transcendentes de 2020, historias locales e internacionales, observaciones del individuo común y del espiritu humano en este acontecimiento del que todos fuimos parte. Una gran oportunidad para revivir día a día el miedo, la incertidumbre, la esperanza, el asombro y el terror cuando la normalidad se descubre como artificial, tiranica y ajena a los intereses y suplicas de la humanidad; la obra transmite a la perfección la naturaleza de la Historia, siempre sigilosa y muda, que repite discursos ignorados con anterioridad y que anticipa desafios que siempre están a la vuelta de la esquina.
Si desean leer las entradas una por una, se encuentran disponibles gratuitamente en internet. Considero que correran la misma suerte que yo: no habia leído ni cinco entradas y ya sabía que compraría el libro y que se convertiría en una de los objetos más preciados de mi vida.
O tempo perdeu a sua brevidade e o espaço encolheu. Era suposto viver-se com entusiasmo a inauguração da mais recente década do século XXI, século marcado pelo dinamismo, pela expansão do globalismo, pela velocidade, e por uma sociedade que age e reage a tantas mudanças. Mas vive-se afinal um novo século, criado ao fim de 20 anos. Uma excepção. Ninguém sabia o que esperar quando chegou a nova peste.
A peste infeta os pulmões do tempo, os relógios, máquinas que se julgavam estar sincronizadas com o ritmo da sociedade, cujos ponteiros exprimem verdades absolutas e que, de repente, parecem abrandar. "É preciso endireitar a cama, fingir que se saiu durante o dia para muito longe. A cama não entende que a enganamos. Estamos o dia todo ali perto, a uns metros.". Misturam-se dimensões para falar de uma infeção que se propaga ao espaço enquanto não faltam previsões para o acerto dos relógios. A imaginação fica confinada enquanto a lógica avança no desconhecido. "Os números com o tempo transformam-se em linhas e as linhas transformam-se em montanhas. Montanhas altas, montanhas baixas. Fala-se de achatar a montanha má, a montanha da peste. Cada dia a contribuir para a forma final da montanha. Imagino alguém a escalar a montanha da peste. Uma montanha falsa, não fica no espaço como as outras. Fica no tempo." Assim é a primeira montanha aos olhos de Gonçalo M. Tavares, talentoso escritor deste diário, criador de uma nova profissão que balança com engenho a arte da imaginação, geologia e meteorologia.
O "Diário da Peste" é escrito por "pura necessidade", um relato em direto de Gonçalo M. Tavares sobre um mundo a viver uma pantanosa indefinição. A sensação que descreve como "bombardeado por bombardeiro algum" acabara de surgir. Esta é uma guerra diferente. Não há explosões que deformem o corpo dos homens, mas uma invasão da mente por um carrossel infindável de hipóteses que coloca a vida num limbo. As pistolas dos novos tempos passam a disparar números. "Nestas semanas, a atenção lateral foi suspensa e uma tensão surgiu e não se afastou. Diante daquela tragédia e intensidade, a escrita tinha de estar presente." — Gonçalo M. Tavares decide-se pela escrita para enfrentar tempos nunca antes vividos cujo fim é uma incógnita.
A certo ponto, Gonçalo M. Tavares lembra-nos Sísifo. Sem um vislumbre de esperança, como o absurdo assim exige, é condenado a escrever todos os dias na eternidade da peste, a empurrar as suas palavras de uma montanha até ao topo, para no dia seguinte começar de novo. Nem sempre certo do seu sentido, executa a tarefa diária de imortalizar as suas palavras enquanto a sua mortalidade se evidencia no acumular do cansaço e nas tonturas, cuja intensidade e recorrência varia como se de outras montanhas se tratassem.
Permanece um silêncio mordaz nas ruas que se transforma num ruído extenuante nas cabeças. "Hoje troquei mensagens com muitas pessoas. Muitas pessoas dessas muitas pessoas estão a quebrar. Muitas pessoas dessas muitas pessoas depois de quebrar vão de novo estar fortes. Mas algumas desses muitas pessoas não.". Amigos cuja localização se torna indiferente — estão sempre demasiado longe, do outro lado das máquinas — e cuja ausência se torna cada vez mais presente. Restam os seus companheiros caninos, Jedi e Roma, as únicas fontes de calor cuja presença não é julgada pelo distanciamento social. A cada dia que passa no diário sente-se o chão de sua casa a ficar gasto e as paredes a ficar manchadas por sombras que antes não existiam.
O "Diário da Peste" surge carregado de um sofrimento impossível de ignorar. Lembra-nos as histórias dos nossos avós, de quando nos sentávamos no calor da sua presença e eles nos recordam outras pestes com ínfima precisão, de riqueza inigualável, impossível de compreender para quem não as viveu. O século que se inicia em 2020 será mais pobre.
"No La Repubblica dizem que na Lombardia já não há avós. É esta a frase. É preciso repeti-la até ela se desaparecer no ar. Escondê-la debaixo do chão ou então repeti-la até ela desaparecer no ar. No La Repubblica dizem que na Lombardia já não há avós."
Crónicas escritas de março a junho de 2020, ao sabor e acaso das noticias pandémicas do dia. Um olhar lúcido e crítico. Uma argúcia total. Um esventrar da ignorância, da estupidez e do medo. Também do conformismo. Um registo precioso de meses intensos que mudaram o mundo. Páginas de histórias para uma história da humanidade enclausurada.
Es un caleidoscopio de imágenes, anécdotas, diálogos, recuerdos de películas, canciones, narrados desde el prisma de la pandemia y el confinamiento. Poético y feroz.
Desde el silencio, también, agradezco que existan estos poemas. Había olvidado esa realidad paralela que fue la pandemia, supongo que la amnesia es un mecanismo de defensa.
Uma evidente violência física, fazer este diário. Para mim, prova de força e resistência. Por vezes, um bruto cansaço. Mas uma necessidade sem obrigação exterior. E uma tensão de documentar, de assinalar em tempo real o que sucede e se sente.