Esta obra tem sido importante na formação de sucessivas levas de estudantes de letras e artes, pela inesgotável atualidade de suas análises para o trabalho acadêmico e para a discussão crítica das modernas leituras estéticas, que tocam não apenas outros campos do saber, como a filosofia e a lingüística, mas a realidade viva das diversas artes.
Antonio Candido de Mello e Souza é um sociólogo, literato e professor universitário brasileiro. Estudioso da literatura brasileira e estrangeira, possui uma obra crítica extensa, respeitada nas principais universidades do Brasil. À atividade de crítico literário soma-se a atividade acadêmica, como professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É professor-emérito da USP e da UNESP, e doutor honoris causa da Unicamp.
Muito bom, mas eu, particularmente, indico ler o livro por um todo, pois mesmo sendo diferentes artigos de diferentes autores, cada parte complementa outra. Portanto, vale a pena ler inteiro (:
"A ficção o único lugar — em termos epistemológicos — em que os seres humanos se tornam transparentes à nossa visão, por se tratar de seres puramente intencionais sem referência a seres autônomos; de seres totalmente projetados por orações. E isso a tal ponto que os grandes autores, levando a ficção ficticiamente às suas últimas consequências, refazem o mistério do ser humano, através da apresentação de aspectos que produzem certa opalização e iridescência, e reconstituem, em certa medida, a opacidade da pessoa real. É precisamente modo pelo qual o autor dirige o nosso "olhar", através de aspectos selecionados de certas situações, da aparência física e do comportamento — sintomáticos de certos estados ou processos psíquicos ou diretamente através de aspectos da intimidade das personagens — tudo isso de tal modo que também as zonas indeterminadas começam a "funcionar"." (Rosenfeld: Literatura e Personagem)
Curtinho e enriquecedor! São quatro textos que dão boas chaves de leitura. O ensaio de Rosenfeld, em particular, elaborou várias ideias que eu nunca tinha conseguido estruturar direito.
Não me identifiquei tanto com Salles Gomes, na parte dedicada ao cinema. Em primeiro lugar, porque acho que não concordo com a premissa de subordinação do cinema ao romance e ao teatro, meio datada. Em última instância porque esse tema não me instiga tanto o quanto os anteriores e tenho menos repertório para entender o debate, com a exceção dessa passagem que dá bastante pano pra manga:
"O cinema se adapta mal ao critério de individualismo e originalidade que se tornou norma na melhor literatura. Para ele, tudo ocorre como se as personagens criadas pela imaginação humana pertencessem ao domínio público. (...) Acontece, contudo, que a pilhagem cinematográfica de personagens célebres nunca se verifica no sentido de aprofundá-las e ampliá-las. No melhor dos casos, o cinema aspira a uma transposição equivalente,'mas quase sempre o que faz é reduzi-las a um digesto simplificado e pobre. No entanto, capaz de criar personagens tão poderosas quanto as da literatura ou do teatro, que ele pilha e humilha, embora, nos seus 67 anos de existência [à época], só tenha na verdade produzido uma: Carlito."
Vale sublinhar que o livro é bem cheio de referências e diálogos intertextuais então provavelmente deve ser uma leitura chata para quem não é da área (não que eu seja, mas)
⁸Este livro em questão, A Personagem de Ficção, marcou, ainda em 1968 a estreia da memorável coleção debates da Editora Perspectiva. Desde então, teve 13 edições, nesta 13ª que eu leio, trazida à luz das livrarias no ano de 2014. Digo tudo isso para poder esclarecer porque acho que boa parte do livro se encontra datada ou defasada. Isso, entretanto não retira a importância de muitas outras partes pertinentes deste livro, composto de 4 capítulos que originalmente compunham um seminário sobre o mesmo tema. O primeiro capítulo, Literatura e Personagem, é chato e enfadonho, de complicada compreensão, escrito por Anatol Rosenfeld. O segundo capítulo, escrito pelo mestre e crítico literário Antonio Candido é o melhor de todos, que traz mais informações pertinentes aos dias atuais e o menos obsoleto. Também é o mais gostoso de se ler. O texto sobre O Personagem de Teatro de Décio de Almeida Prado é uma leitura agradável e expositiva, mas que deixa o leitor atual um pouco perdido com as citações em francês sem tradução. Por fim, o texto O Personagem Cinematográfica, de Paulo Emílio Salles Gomes, acaba sendo o mais datado, uma vez que, diferente da literatura e do teatro, o cinema é uma mídia mais dinâmica e muitas de suas referências de décadas passadas acabam se perdendo - o que não pode ser falado de Cidadão Kane e de Carlitos -, ao mesmo tempo, a nuances do compor personagens no fazer cinema também mudaram bastante desde a década de 60 para cá se comparado aos avanços do teatro e da literatura. Não por acaso os capítulos, conforme o livro avança, vão ficando mais sucintos. De toda forma, A Personagem de Ficção, apesar de parecer sofrer de obsolescência, ainda guarda ricos tesouros como os de manuscritos perdidos, de peças nunca encenadas e de filmes com o nitrato de prata restaurados, que devem ser valorizados.
A coleção Debate trazia a proposta de orientar estudantes sobre as diferentes vias epistemológicas de algum tema. A coletânea de artigos em A Personagem de Ficção versa pela teoria literária apresentando quatro propostas acerca desse elemento narrativo, a personagem.
Literatura e Personagem de Rosenfeld traz a conceituação, estruturação e definição dos dois temas, assim como a apresentação de gênero literário e suas diferenciações. A Personagem do Romance por Candido que faz ponte com a atual produção que versa mais pelo enredo através da personagem. A Personagem no Teatro de Almeida Prado traz a discussão para o âmbito teatral. O último artigo, A Personagem Cinematográfica de Salles Gomes faz o mesmo ponto, mas no cinema.
É um ótimo texto, mas voltado ao seu público protexto. Uma pessoa leiga poderia acompanhar com a ajuda de algum professor ou do nem sempre confiável google.
Um livro básico pra quem está começando a estudar Letras (acho que deveria ser leitura obrigatória do primeiro ano) dá uma boa noção inicial de análise de personagem. Para quem já é da área, parece um pouco "básico demais", mas achei extremamente didático, sendo acessível a quem não estuda crítica literária também. Recomendaria essa leitura para quem escreve / faz filmes, pois compreender as personagens literárias, teatrais e cinematográficas é de grande ajuda para a criação delas. Adorei todos os ensaios, leitura leve e divertida!
Livro reúne aula de renomados professores. É ao mesmo tempo libertador e frustrante. De um lado libertador porque põe por terra muitas ideias sobre construção de personagens. É frustrante porque não mostra realmente como construir um personagem. Uma leitura obrigatória de grandes professores brasileiros, que nos alertam para uma triste realidade: devemos encontrar o nosso próprio caminho.
2 estrelas pro antonio candido sendo perfeito; uma estrelas pro ensaio sobre teatro; 1 estrelas a menos pro primeiro ensaio, que é difícil de entender porque tem o pior tipo de escrita acadêmica; 1 estrelas a menos pro ensaio sobre cinema em que o autor não gosta de cinema e considera a sétima arte inferior às demais.
“A personagem registrada na película nos impõe até os ínfimos pormenores o gosto geral do tempo em que foi filmada. Poderá um Leornado do cinema fazer aceitar pela posteridade uma Mona Lisa cujo fascínio e mistério seria expresso através de movimento, som, sofrimento, alegria e do contexto completo do seu drama?”
O livro se divide, a grosso modo, nas partes: "Personagem no Romance", "Personagem no Teatro" e "Personagem na cinematografia. Antes de iniciar a parte de "Personagem no Romance, há uma parte de Literatura e Personagens. No início do livro, em que fala da literatura e especificamente do romance, o livro se mantém espetacular, com conceitos mais fortes. As partes que falam de Teatro e Cinema eu considerei um pouco mais fracas, como se não se aprofundassem muito na visualidade e estivessem muito amarrados aos conceitos que vêm da literatura.