Ana e Joan. A primeira é diurna e contemporânea, bombardeada pelo consumismo e por pressões estéticas e comportamentais. A segunda é noturna, influenciada por noções de ancestralidade, ritos de passagem e intuições do inconsciente. Ambas estão prestes a completar dezoito anos e acompanhamos suas histórias em paralelo, mês a mês, até a data de seus aniversários. Mas não se engane: mais do que o relato da jornada de duas jovens mulheres, Elas marchavam sob o sol é um romance sobre violência, perseguição religiosa, perda de liberdade e direitos, além de ser um libelo sobre a necessidade dos ritos, dos sonhos e da ressignificação dos corpos, questionando papéis sociais através da linguagem vibrante e singular de sua autora.
A subjetividade metafórica da história não me conquistou. Em certos pontos me parece até indecifrável. Peguei me questionando várias vezes “o que a autora pretende me contar?”. Não nego que pode ser que eu não tenha entendido. Acontece. As escolhas que ela fez ao narrar o amadurecimento de personagens femininas, que apesar de diferentes possuíam a mesma voz narrativa, não são transparentes ou explícitas. São informações que precisam ser pescadas pelas deixas escassas. Gosto de algumas partes do texto. Principalmente dos depoimentos das mulheres torturadas na ditadura. Mas a conexão e a reflexão sobre as inúmeras situações em se tornar uma mulher não agradaram.
Era uma vez a mãe filha irmã mulher canal aberto do mundo que fazia verter sobre as gentes o rio de vida que fazia todos viverem bem, para sempre, para sempre bem, para sempre bem felizes, para sempre bem felizes em paz, para sempre bem felizes em paz e inteiros.
Mas o ser humano é da fração, somos criaturas fracionadas, deixamos de ser inteiros faz tanto tempo que não sabemos mais como voltar a ser, tem sempre dois números separados por uma barra, risco, traço, muro, fronteira, linha, em eterna divisão. Quando o uno deixou de ser e passamos a ser um quarto, um terço, dois terços, três quartos, um quinto, dois sextos, doze avos, a divisão foi a invenção do fim da humanidade e ela veio do macho porque ele é divisor, acha que é uno pois enxerga seu falo como UM, mastro único, altar mor onde todos devem orar e na igreja do homem, dividir é melhor porque traz estabilidade através da luta pela eterna busca do inteiro, a fração é o sêmen do mundo moderno, rasgou a unidade materna para deixar nascer os órfãos do hoje, o ontem era fêmea amante mãe provedora de leite, mel e vida; o hoje é o fel que escorre pelas pernas moles do homem gozo que defeca ventres vazios para chamar de seu e o amanhã, bom, ele a quem não pertence?
O sagrado que se foi revive nessa marcha sob o sol, não sob a lua porque ela é para os poucos que não demandam da vida arestas e farpas, rasgos e nós, para marchar sob a lua basta ser não gente, não homem, não ninguém, fazer a reverência ao sagrado que exala dos corpos mãe que só trafegam à noite porque é lá que podem voar e sentir o mundo sem atritos e amarras, durante o dia, a marcha sob o sol queima porque não pode haver marcha sagrada sob o sol porque não é permitido aos pais falos provedores deixar que a família truncada veja a marcha nua das sagradas feiticeiras que detém o sono do mundo, a sabedoria dos tempos, o sonho dos justos, os elementos que não sabemos mais como dominar, elas sabem e por saber devem queimar debaixo do sol, do fogo, da gasolina, da lenha, do pau de arara, da dor, do medo, da segunda classe, menos que um nada porque nada ainda pode ser algo mas as que marcham, as que ousam marchar, precisam arder para não darmos fé dos inteiros, jamais, há de ser fração para sempre.
A gente olha para o fogo que emana delas que marcham sob o sol, um fogo sagrado, que aquece mas não queima, só queima quem não sabe respeitar seu ardor, quem ousa tocar sem lhe dar o respeito e pagar a oferenda que deve ser paga de coração, não de obrigação, é preciso entender que o mundo foi encaixotado e colocado num porão para que nunca mais seja visto pelos olhos mães que ainda marcham por aí, olhos ternos e tenros, olhos lúcidos pois estão aqui há mais tempo do que nossas almas, olhos úmidos pois sabem que o choro é a alavanca que move o mundo, olhos rábidos pois sabem que podem matar ou curar apenas em olhar, olhos tristes pois lamentam as mortes de todas a mães, companheiras, parceiras, amigas, amantes, geradoras, acalentadoras, transgressoras, lutadoras, inteiras, unas, gaias e aias de um povo que não sabe mais como ser delas e, por isso, prefere vê-las arder do que entender.
A marcha segue, tem de seguir, vai seguir, se um dia vai terminar, não sei, não se sabe, não saberemos, não cabe a nós saber, alguém mais a frente vai saber, vai testemunhar, vai entender e vai conhecer e vai olhar para cá, para esse pedaço de trás onde estamos e vai dizer que elas marchavam sob o sol para chegar até aquele ponto, entregar o sol e a lua e deixar que a marcha siga sem temer o dia ou a noite...
Livro poderosíssimo! Muitos tópicos discutidos em poucas páginas, mostrando que menos é sempre mais. A linguagem que Cristina usa é bem metafórica, muitas vezes, o que, para mim, é o destaque deste romance. Uma resenha completa deve sair no meu Instagram e/ou no meu canal em breve.
A escrita é muito boa mas não me conectei muito com a história, nem consegui fazer as costuras entre os relatos de mulheres torturadas na ditadura e as duas meninas.
ser um corpo aberto, que não dá pra definir onde fica o começo e onde está o término. descontínua e ilimitada, cheia de arestas e linhas vazadas. beleza oceânica. o que é fluido não pode ser aprisionado.