Lina Bo Bardi foi uma mulher corajosa e perspicaz, e seu legado como arquiteta e intelectual pública é notável. Em 2021 foi homenageada com o Leão de Ouro Especial da Bienal de Veneza, mas sua odisseia pessoal é relativamente pouco conhecida. Lina, que nasceu em Roma em 1914 e faleceu em São Paulo em 1992, passou a vida em trânsito, navegando pelas contingências de gênero, geografia, história, política e diferentes visões de mundo. Lutou por sua independência e por reconhecimento pessoal, enquanto se debatia com a solidão de viver na alteridade das convenções sociais e intelectuais da época e dos lugares que ocupou.
Esta biografia é resultado de vinte anos de pesquisa de Zeuler R. Lima e traz um olhar inédito e sensível sobre a vida e a personalidade dessa mulher fascinante, com uma narrativa saborosa e uma série de fotografias e desenhos da arquiteta.
Obra essencial pra quem quer conhecer mais sobre a trajetória e o pensamento da Lina, uma das figuras mais importantes (e interessantes) da arquitetura brasileira. O autor consegue muito bem organizar e separar os fatos dos mitos, em uma narrativa sempre muito sensível sobre as angústias e as conquistas da arquiteta. Senti falta de ver mais dos desenhos e projetos conceituais citados ao longo do livro, que se limitam praticamente aos expostos no início de cada capítulo, mas ainda assim segue sendo uma leitura excelente.
A biografia escrita por Zeuler Lima acerca de Lina Bo Bardi é um bom complemento à biografia escrita sobre a mesma personalidade por Perrota-Bosch. Ao focar no aspecto psicológico ao analisar a trajetória de vida da arquiteta (ou "do arquiteto", como ela provavelmente gostaria de ser chamada), o autor escreve uma biografia de uma maneira exemplar, sem dar margem para passadas de pano, analisando e evidenciando as contradições dela enquanto ser humano mas sem deixar de fazer os devidos elogios e ressaltando também as suas qualidades positivas. Ao ler essa obra, fico com a impressão de que ganhei uma compreensão total do humano Lina, em suas múltiplas facetas, desde sua relação conturbada com o passado italiano e com o poder, a sua paixão pelo Nordeste (e, em particular, pela Bahia), até a sua vida íntima com Pietro Maria Bardi.
PS: Talvez eu esteja fascinado por ela justamente por eu ter nascido em Roma,ser metade italiano e metade baiano e atualmente morar em São Paulo. Ler sobre ela tem ajudado a lidar com muita coisa interior minha.