Em Psiconautas, fruto de uma extensa pesquisa, Marcelo Leite conta a história das principais drogas psicodélicas, desde sua descoberta no século 20 até o uso medicinal revolucionário que vem sendo feito de cada uma delas atualmente.
Mesclando relatos da própria experiência com várias dessas substâncias ao perfil dos principais pesquisadores da área, muitos deles brasileiros, Leite oferece um panorama completo do chamado renascimento psicodélico, desfaz mitos e aponta para conquistas científicas há pouco tempo impensáveis, como tratamento para a dependência química, a depressão e a síndrome do estresse pós-traumático, entre outros benefícios ainda sendo pesquisados.
O livro recebeu prefácio do neurocientista Sidarta Ribeiro que, junto a Luís Fernando Tófoli, Stevens “Bitty” Rehen e Dráulio de Araújo, compõe o grupo dos psiconautas brasileiros que guiaram Marcelo em suas explorações.
Psiconautas é um livro do jornalista de ciência Marcelo Leite com uma proposta original. Com a curiosidade despertada por uma faísca, ele viajou até uma conferência internacional sobre psicodélicos e empreendeu uma jornada de conhecimento íntima com diversos psicodélicos e também se propôs a utilizar ele mesmo todas as drogas estudadas para que pudesse dar um relato também pessoal de sua experiência. Ayahuasca, ibogaina, MDMA, LSD, psilocibina… Foram diversas drogas estudadas profundamente pelo autor do livro procurando suas histórias, as contradições da repressão, relatando diversos estudos realizados em diferentes contextos utilizando cada uma das drogas, conversando com pesquisadores e usuários e ele mesmo utilizando cada uma delas para relatar seus efeitos. Achei tudo muito interessante e deu para ver o tamanho da imersão na pesquisa. Para mim o livro somente perde um pouco com uma tendência à imparcialidade porque, às vezes, os adjetivos são tão exagerados… Fico tentando entender alguns estudos e de onde saíram as informações e acho que precisaria ser um pouco mais detalhado nisso, Ao mesmo passo que em determinados pontos achei que foi tudo muito repetitivo.
Fazendo uso de uma metáfora psico-livresca: o autor conduz o leitor em uma viagem histórica de sobrevoo da ciência psicodélica brasileira (mas não só) e o deixa na página atual desse livro, com o desejo de que sua escritura siga adiante, com força. No entanto, neste “histórica” não há nenhum historicismo, nenhuma factualidade fria mas histórias daqueles que sofrem de doenças ou condições que podem ser beneficiadas pelos tratamentos com substâncias psicodélicas, dos que se dedicam a pesquisar e desenvolver esses possíveis tratamentos, entremeadas por histórias das próprias experiências do autor com as substâncias. Há um esforço por tratar as descrições científicas do impacto das drogas sobre o funcionamento neuronal de forma simples e compreensível mas as analogias, embora bonitas, não causam maiores efeitos. Em contraponto, as experiências pessoais do autor são narradas com a nitidez e precisão que qualificam seu conhecido texto jornalístico, emocionante e informativo.
achei que eu teria uma dificuldade por não tá muito acostumada com leituras mais científicas mas foi bem tranquila e fluida. o autor repete e explica as mesmas coisas várias vezes, talvez incomode alguns mas para mim mais burrinha foi essencial
"Psiconautas" é um livro interessante, que complementa a obra responsável por inaugurar o conhecimento mainstream acerca das substâncias psicodélicas e seus usos terapêuticos e recreativos — ainda que essa dicotomia seja criticada por Marcelo Leite —, o "Como mudar sua mente", de Michael Pollan. Para nós, brasileiros, Marcelo traz algo de muito valioso: a contribuição da ciência e dos cientistas brasileiros para as discussões sobre a fronteira da mente humana, especialmente com relação aos estudos da ayahuasca, de origem amazônica.
É muito alentador saber de uma rede ativa de pesquisadores, sobretudo em Natal e em São Paulo, que conduzem estudos desmistificando o uso terapêutico dos psicoativos, mormente no tratamento da depressão e da dependência química. Ademais, os trechos sobre o uso de MDMA no tratamento do estresse pós-traumático são bastante interessantes.
Marcelo Leite, no entanto, ao contrário de Michael Pollan, não é uma pessoa tão interessante. Embora seus relatos pessoais sobre o contato com LSD, ayahuasca e psilocibina sejam legais; suas visões, comentários e elaborações acerca da natureza mais ampla dos compostos psicodélicos e suas implicações políticas, psicológicas, sociológicas e mesmo econômicas são extremamente passáveis. O fato de o livro ter sido concluído em meio à pandemia de 2020 também contribui para essa sina. Deu-me exatamente essa impressão: um cara chato falando de um tema legal. Quando ele assume o timão, o barco perde o rumo.
Por fim, destaco que o livro, mais apegado aos estudos e avanços recentes e menos "atemporal" que aquele introdutório de Michael Pollan, não deixa de transmitir uma aura de desatualizado, o que opera em seu desfavor.
No geral, um bom livro informativo, repleto de interessantes relatos pessoais — não só de Marcelo.
Já acompanhava o trabalho do Marcelo pelos artigos na folha então já esperava um material muito bom. Mas a cobertura dos experimentos e o contato direto com os pesquisadores brasileiros e internacionais foi surpreendente. E o relato pessoal sobre as trips com as substâncias foi essencial pra dar a autoridade necessária pro texto, além de uma visão pessoal. Excelente.
Um livro fantástico sobre a relação de drogas psicoativas e saúde mental. Um trabalho de pesquisa e estudo entorno de diversas substâncias tidas como droga ou religião e como a guerra às drogas acabou tirando boa parte dos estudos sobre o assunto
Neste livro, Marcelo Leite - jornalista que escreve sobre ciência na Folha - traz o estado da arte da ciência de psicodélicos. Meu interesse pelo livro apareceu depois de ter visto o documentário "Fungos fantásticos", no Netflix. O uso de psicodélicos é coisa das mais polêmicas, mesmo que seja para fins terapêuticos. O tema é verdadeiramente tabu e apenas muito devagar vai se quebrando o gelo a respeito do uso de substâncias psicodélicas para enfrentar uma gama de distúrbios mentais. Os estudos vão se tornando mais frequentes e aumentam as evidências dos benefícios dos psicodélicos. A ibogaína - uma raiz de origem africana, que desconhecia - tem sido largamente utilizada em pesquisas no Brasil para combater vícios - caso do alcoolismo - e os resultados têm sido substancialmente melhores do que as técnicas tradicionais. O mesmo tem acontecido com outras substâncias aqui e no exterior. Um ponto importante a respeito dessa família de substâncias diz respeito aos seus efeitos. Segundo o autor não criam dependência, produzem efeitos benéficos e não causam danos aos usuários. Mesmo as bad trip seriam uma coisa muito menos comum do que se imagina. Muito depende do set e do setting, respectivamente a condição mental do usuário e o ambiente em que se dará o uso. Enfim, um tema que merece ser tratado de forma mais racional É hora de superar o tabu quando se fala do tema.