Antes de deixar a Grécia, podia ser um zé-ninguém. Mas ainda assim era eu, o filósofo da família, o filho da minha mãe, o lateral-esquerdo da equipa do bairro, o orgulho do professor Pávlos (...). Tudo isso ficou perdido, levado pelo comboio em que parti, ou pelo vento. Quem poderia dar-mo de volta? Olhava tudo em meu redor, numa busca ansiosa, na esperança de que qualquer coisa dentro de mim acordasse, alguma das coisas que ainda recordava. Mas era apenas como se revisse um filme que tinha visto em criança. As lembranças tinham perdido a sua força. Talvez fosse essa a razão pela qual era incapaz de escrever. Tinha-me tornado uma noz oca.
Com pouca concentração para ler ficção, são as memórias que me trazem conforto e refrigério neste momento. Nunca tinha visto o nome de Theodor Kallifatides em lado nenhum e, ao que me parece, nem ele tinha nenhum livro editado em português. Estranho, por isso, esta opção editorial aos 84 anos de idade do autor, mas congratulo-a, porque chega em boa hora.
“Outra Vida para Viver” foi o primeiro livro que Kallifatides escreveu em grego, a sua língua materna, estando a sua restante obra escrita no idioma do país para onde emigrou aos 25 anos, a Suécia. Aos 77 anos, o autor depara-se com um profundo bloqueio criativo, abdica do estúdio a uns quilómetros de casa, para onde ia escrever como rotina diária e, com essa decisão, piora o seu estado de espírito.
Embora casados há 46 anos, não somos do estilo fusional. Cada um precisa da sua independência – coisa que tínhamos. Enquanto trabalhámos, não houve problema, nem quando Gunilla se reformou ainda antes dos 60. Eu seguia todas as manhãs para o covil do lobo. Durante 17 anos inteiros ela tinha o dia todo para si – casa e jornal incluídos. Daqui para a frente, passaríamos ambos todo o dia em casa.
Kallifatides não se conforma com esta reforma que não planeou, não só porque a escrita é uma compulsão...
Porque é a escrita pesava tanto na minha vida? O que me dava? O que substituía? A mesma coisa que a guarda na tropa, diria eu. Eu assumia uma responsabilidade, tinha um certo poder. E isso sem ter de o pedir a alguém. E sem que ninguém pudesse proibi-lo. Talvez fosse essa a importância da escrita. A responsabilidade pelo meu mundo.
...mas também porque vê o trabalho quase como um elixir da juventude, dando exemplos de vários conhecidos e amigos seus que adoeceram ou morreram assim que se aposentaram. “Outra Vida para Viver” é também, por isso, uma meditação sobre a velhice e sobre a morte de entes queridos.
Tudo isto acontece numa altura em que a conjuntura global causa uma crise nos dois países da sua vida: uma crise de valores na Suécia, com a chegada de um número crescente de refugiados, e uma crise económica na Grécia, com todas as repercussões que são conhecidas na Zona Euro.
A pobreza, até a mais profunda, não me era uma coisa desconhecida. Já em miúdo eu vira as barracas no bairro do Polígono, onde se instalaram os refugiados do Ponto e da Ásia Menor. (...) Não eram miseráveis, nem a sua pobreza era repugnante. Agora sim, era uma pobreza repugnante. Tanto no pinhalzinho do meu bairro de Atenas como na praça no meu bairro de Estocolmo. Havia uma verdadeira guerra contra as pessoas, coisa que eu ainda não tinha compreendido. Os pobres deixaram de ser pessoas para se tornar apenas um problema.
É então que Theodor regressa talvez pela última vez à sua aldeia na Grécia, para ser homenageado na escola secundária local e procurar no país natal um remédio para a sua angústia.
A um estrangeiro oferece-se sempre alguma coisa. Figos, um copo de água, um cacho de uvas, algo refrescante. De repente, ocorreu-me que nessa ideia é que estava a doçura da vida na Grécia. Uma mão que dá. De uma pessoa para outra. De um estrangeiro para outro. Lembranças antiquíssimas vieram-me à mente. As mãos calejadas da minha avó a descaroçar azeitonas para me dar. (...) Foram anos agrestes, mas havia sempre uma mão a dar-me de comer.