A origem da espécie investiga uma das histórias mais antigas que ainda se contam na face da Terra: o Mito do Roubo do Fogo.
Mitos pertencem, sobretudo, ao campo da etnologia. São ainda objeto da filosofia, da história das religiões, da sociologia, da psicologia, da psicanálise, de outros ramos do conhecimento. Que faz, então, um romancista, um contador de histórias como Alberto Mussa, no terreno do mito? Ele responde: “Mitos são, no fim das contas, apenas mais um gênero de narrativa; embora seja, para mim, o gênero por excelência — o mais exuberante, o mais perfeito entre todos, por condensar o máximo de conteúdo com um mínimo de expressão.”
A origem da espécie é um ensaio literário que reconstitui as personagens e o arcabouço da trama original do Mito do Roubo do Fogo — um poderoso programa ideológico, um código dos valores fundamentais da humanidade primordial, que inclui: o alimento cozido; a caça como expressão da inteligência; o tabu do incesto; e o poder “xamânico”, segundo o qual “ser plenamente humano é não ser apenas humano”. Assim reconstituído e interpretado, o Mito do Roubo do Fogo ainda lança luz sobre a polêmica questão da origem da linguagem, provavelmente surgida em hominídeos mais antigos que o Homo sapiens.
À semelhança de um filólogo que estuda e compara diversos manuscritos antigos e anônimos de um mesmo poema ou narrativa, Alberto Mussa escreve aqui, em sua obra mais radicalmente pessoal, o que pensa — ou o que sente — sobre o roubo do fogo, assim como sobre a compreensão da verdadeira noção de humanidade, concebida no paleolítico, ou a de sociedade, como existe hoje.
Nas palavras do autor: “Mitos, na verdade, são mais velhos que línguas; são mais antigos que populações. Já passa da hora de dar voz a eles”.
Born in Rio de Janeiro in 1961, Alberto Mussa studied mathematics and percussion before dedicating himself to linguistics. After obtaining a Masters degree from UFRJ with a thesis on African languages in Brazil, Mussa worked as a teacher and authored a dictionary then published his first novel, Elegbara, in 1997, followed by O trono da rainha Jinga (1999), which won the National Library prize. O enigma de Qaf (2004) was awarded the Casa de las Américas APCA prize. He has translated stories by African and Arabic storytellers for the magazine Ficções, and a collection of pre-Islamic poems Os poemas suspensos, not yet published.
Fogo, o maior símbolo da ascensão do Homo sapiens foi a primeira fonte de energia por nós controlada e é até hoje rememorado nas narrativas humanas, desde a cultura pop até os mais diversos mitos e histórias de diversas culturas do mundo.
Em ‘A Origem da Espécie’, o escritor Alberto Mussa (de quem eu pretendo conhecer o resto da obra), compila e analisa centenas de mitos sobre a “origem do fogo” onde tenta defender a ideia de que todos esses mitos, são oriundos de um mesmo protomito narrado originalmente milhares de anos atrás.
Aqui devemos ter bastante cuidado: Mussa não é etnologista e se envereda por um campo nebuloso, onde antropólogos e arqueólogos têm pouco acesso devido à escassez de dados brutos, falar da pré-história é sempre muito especulativo. Segundo, Mussa se utiliza de toda uma aritmética estranha e meio infundada, para tentar comparar os vários mitos (e convenhamos, considerar “o mito tupinambá sobre o fogo” não faz dele único, mas significa que ou ele foi o único compilado ou o único que o escritor teve acesso, o que é sempre menor que o número original), além disso a justificativa do isolamento dos povos pela língua embora válida, simplifica demais um cenário muito mais complexo (para mim é meio impossível descartar a possibilidade de que esses mitos tenham sido reinventados e compartilhados milhares de vezes ao longo da jornada humana).
Todavia, passado o pântano aritmético das primeiras páginas e alguns rodeios argumentativos nebulosos, o resultado final a partir de onde Mussa se propõe divagar é convincente: o mito sobre o fogo existe em praticamente todas as regiões do mundo (mesmo em povos isolados), o tema mais recorrente de longe é o roubo desse fogo e quase sempre temos animais participando dessas histórias.
Mussa não chega a conclusão sozinho (se baseia num bom repertório bibliográfico de diversos especialistas sobre o tema) e o retrato da pré-história que discute é crível e instigante: fala sobre tribos (de várias espécies) que batalhavam constantemente pela posse do fogo, de forma que os mitos que nós conhecemos devem ser primevos à essa época, quando surgiram as primeiras alianças e conceitos de família, tabus e sociedade, assim como o xamanismo e noção de cosmologia, onde a linguagem era a fronteira que separava os grupos, tudo isso condensado nos mitos sobre o fogo... ufa!
Portanto cuidado com as certezas (sempre!) e tenha em mente que se trata de um maravilhoso ensaio literário sobre o mito do fogo, que lança fagulhas sobre o nosso passado mais nebuloso e narra um cenário deslumbrante sobre as primeiras jornadas do Homo sapiens e primeiras construções sociais, além de ser por si só um compilado com centenas de contos sobre o tema, prato cheio para os amantes de mitologias!
Treze anos depois do genial "Meu destino é ser onça", o autor volta a atacar como mitólogo. Dessa vez a proposta foi ainda mais ambiciosa.
"A origem da espécie" dá alguns saltos argumentativos perigosos na tentativa de provar seu ponto. Nem todos se sustentam perfeitamente. Porém, o que falta em rigor acadêmico ou em evidências materiais é compensado pelo texto e por uma lógica narrativa que é a especialidade de Mussa.