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Autobiografia Não Autorizada

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AS CRÓNICAS BIOGRÁFICAS DE UMA GRANDE FICCIONISTA


Autobiografia não Autorizada é de uma intimidade sem precedentes na obra da autora: pessoais, memorialísticas, transparentes, e tão depuradas que se tornam universais, as crónicas de Dulce Maria Cardoso abrem lugar para cada um de nós. Como uma poltrona que «é moldada, dia após dia, pelo peso de um corpo, transformando‑se no seu ninho».


«Uma autobiografia é uma missão impossível. Deveria escrever um texto rigoroso, só que sou sempre personagem de mim própria, mesmo que narre tudo na primeira pessoa e me apelide Dulce, como se não estivesse a inventar‑me. Escrever é pensar devagar. A lentidão tanto leveda ou germina quanto mirra ou apodrece. E depois existe o outro lado: vós, os que estais aí. Enquanto leitora de ficção procuro inevitavelmente o autor no seu texto. Que verdade esconde o autor na mentira que conta? Uma autobiografia funciona um pouco ao contrário: que mentira esconde o autor na verdade que revela?

Na minha cabeça, a minha vida é um puzzle desmanchado. De tempos a tempos, pego numa peça e detenho‑me a olhá‑la. A pergunta que deveria espicaçar‑me, Onde é que isto se encaixa?, raramente me ocorre. Sempre fui uma má jogadora e sei que há peças perdidas. Também não conheço a imagem que deveria criar com as peças todas. Miro e remiro cada peça a que lanço mão como se estivesse perante o puzzle completo. A determinada altura, coloco‑a sobre a secretária já repleta de outras peças espalhadas.»

— D.M.C


Este livro reúne as muito celebradas crónicas publicadas na revista Visão.

232 pages, Paperback

First published June 1, 2021

35 people are currently reading
955 people want to read

About the author

Dulce Maria Cardoso

25 books596 followers
Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964, na mesma cama onde haviam nascido a mãe e a avó. Tem pena de não se lembrar da viagem no Vera Cruz para Angola. Da infância guarda a sombra generosa de uma mangueira que existia no quintal, o mar e o espaço que lhe moldou a alma. Regressou a Portugal na ponte aérea de 1975. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu argumentos para cinema, gastou tempo em inutilidades. Também escreveu contos. Tem fé, uma família, um punhado de amigos, o Blui e o Clude. Continua a escrever e a prezar inutilidades. Vive em Lisboa.

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Displaying 1 - 30 of 70 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,677 reviews570 followers
July 11, 2025
4,5*

Fiquei um pouco arreliada quando, em vez da muito antecipada segunda parte de “Eliete”, vi surgir nas livrarias este conjunto de crónicas escritas para a revista “Visão”. Afinal, já passaram mais de três anos, e com mais uns 400 livros enfiados no cérebro, como é que vou lembrar-me dos acontecimentos todos, eu que nem consigo decorar o nome dos protagonistas das obras? Pode ser que com este me safe, está na capa.
Depois da resistência inicial a “Autobiografia Não Autorizada”, cedi, e valeu muito a pena, claro, porque Dulce Maria Cardoso é uma das minhas autoras portuguesas preferidas e prova constantemente que não seria capaz de ser aborrecida nem se tentasse.
Apesar de DMC ser mais velha do que eu, é sempre uma alegria encontrar referências comuns dos tempos de juventude, como os Porfírios, os filmes “Paris, Texas” e “Jesus Cristo Superstar”, as férias de Verão de quase quatro meses, as telenovelas.

Os meus pais e sentávamo-nos apressadamente em frente do televisor para não perdermos as peripécias do “Roque Santeiro”, os meus pais e eu unidos em Asa Branca, uma cidade inventada, a divertirmo-nos com o vilão e iletrado Sinhozinho Malta e com a tonta e corrupta Viúva Porcina, a atriz Regina Duarte que, anos antes, tanta esperança me ensinara ao protagonizat a Malu Mulher,
Comaçar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido


DMC fala também do seu percurso como escritora, desde que sentiu que era esta a sua vocação, até às suas viagens de promoção de livros e residências no estrangeiro, enquanto noutras crónicas fala da sua vida amorosa com uma candura desarmante. As minhas preferidas, porém, dizem respeito à infância da escritora, primeiro em Angola, posteriormente em Trás-os-Montes, na casa dos avós, e no Hotel Paris, juntamente com todos os retornados lá hospedados, como tão bem retratou em “O Retorno”.
Foram muitos os textos em que dei por mim a sorrir, no entanto, houve dois em particular que me emocionaram bastante, “Crónica de uma Morte Anunciada” e “Foto #1: Para Além Daqui só Palavras me Contam”.
O primeiro diz respeito ao assassinato brutal do actor Candé por um velho racista:

O amor é caro e o ódio barato. Por isso o ódio se espalha, viral.
Violei muitas pretas em Angola, quem sabe se uma delas não era a tua mãe.
Vai para a tua terra, preto de merda
Quantas vezes outros lhe haviam dito o mesmo? Mas agora ele estava caído no chão. As balas tinham-lhe aberto o corpo e ele ia gelando.


O segundo é um momento de pura nostalgia, que poderia ter sido retirado da minha memória, umas regiões mais abaixo:

Foi a primeira e a última vez que, em idade adulta, entrei na casa. Uma penumbra de sesta, um silêncio de insetos, a casa abandonada, como se os meus avós se tivessem demorado demais num dos muito afazeres que as terras exigiam e ela não tivesse sido capaz de tomar conta de si mesma, a casa numa reprovação conformada, uma mágoa muda que só as coisas que julgamos inanimadas conseguem ter, (...) as panelas pretas de ferro fundido como senhoras gordas agachadas, (...) a arca do pão pela primeira vez vazia, os armários sem a louça de Cavalinhos, as cómodas de lençóis de linho e dos cobertores de papa (...). Tudo estranhamente presente e distante. Perdido.
94 reviews723 followers
December 14, 2023
Gostei tanto deste livro! A Dulce Maria Cardoso escreve muito bem mas o seu sentido de humor é o que mais me cativa.
Viajamos entre Luanda, Cascais e os EUA, são-nos relatados episódios da vida da escritora e terminamos com vontade de tomar um café com ela. Pelo menos foi o que aconteceu comigo.
Profile Image for Vera Sopa.
746 reviews73 followers
March 9, 2022
Escrever é pensar devagar. E eu leio com vagar e tantas vezes releio, principalmente quando as memórias podem ser partilhadas. Crónicas é algo que não renego, aliás abraço com entusiasmo, quando uma narrativa segue o curso de um pensamento ou vivência e se deixa quedar.

A escrita de Dulce Maria Cardoso é exemplar e concisa mas tanto expressa. Banal, não, jamais. Eloquente e sentimental, diria. Avanços e recuos numa história de vida que se conjuga sempre no presente. Mentiras escondidas são probabilidades irrelevantes, quando o que interessa se manifesta em palavras que se sente, como "Aqui dentro".

Sem mais, muito bom.
⭐⭐⭐⭐⭐
Profile Image for Célia Gil.
880 reviews41 followers
July 27, 2021
Este é daqueles livros que se quer ler devagar, tirar o máximo prazer de cada crónica, de cada palavra, de cada história de vida. A crónica é um género que parte de um acontecimento aparentemente banal do dia-a-dia para o ficcionar, e assim é com Dulce Maria Cardoso, não fosse ela a escrever. A autora, nestas crónicas, ficciona-se a si própria, recorrendo à memória. E o resultado é este: um livro que se quer degustar, completo, bem escrito, intimista, muito bom! Não é, portanto, um diário, um relato autobiográfico puro. É uma obra ficcionada a partir da verdade, não significando isso que seja verdade!
Nestas crónicas temos o espaço da infância, Luanda, onde inicialmente não teve uma plena integração, refugiando-se nos livros; Portugal, desde Cascais, Lisboa à aldeia da infância, em Trás-os-Montes, transpondo-nos, quando a revisita, para as suas memórias de infância, a sua maneira expedita e viva de ser; o Brasil a salvar-lhe a “tristeza salazarenta” e o mundo, onde nos transporta nas viagens que relembra.
Recorda o momento em que voltou para casa da mãe, quando esta começou a sofrer de demência e do quanto esta situação a veio afetar a ela própria.
Fala-nos da situação pandémica vivida e com esta afetou, de alguma forma, a sua vida e da sua família, angústias que são tão nossas, tão reais, na forma como acontecem e como as enfrentamos. As mesmas dúvidas, as mesmas revoltas…
Fala-nos das esperas e perdas da vida, do amor, do fim das relações, dos desconcertos, da felicidade das pequenas coisas, das ínfimas conquistas.
Um livro doce, que abraça, que tanto aconchega como nos deixa desarmados. Adorável!
Profile Image for Sofia.
1,038 reviews128 followers
January 30, 2022
DMC nunca desilude. Creio que ela poderia escrever sobre o modo de funcionamento de uma máquina de lavar e seria sempre um prazer ler esse texto.
Profile Image for Mariana.
15 reviews
August 20, 2021
“Vivemos cada vez mais, um dia seremos eternos, mas o tempo que se vai ganhando à morte não compensa aquele que gasto com a aflição de sentir tudo frágil à minha volta, com o que se estraga e não se conserta, com o que faz lixo mas não aduba, com a roleta das possibilidades infinitas, com o que tanto me demora a escolher e de tão pouco me serve…”

“À medida que vou envelhecendo, aprendo e desaprendo muitas coisas. Desaprendo mais do que aprendo. Não me angustio com isso, confio que a cabeça guardará o que é importante. A cabeça e o coração. Mas tenho pena de desaprender a esperança. Pena ou medo. Resisto. Tento resistir.”

“Tenho medo. Não propriamente da morte. Pelo menos da minha. Morrer não deve ser nada de especial. Deve ser alguém a apagar-nos a luz, como a minha mãe ao sair do meu quarto de criança. Agora dorme. Tenho medo da morte da minha mãe, da morte daqueles que amo. Um medo enorme. E mais do que da morte, do sofrimento. Do sofrimento de que não voltamos.”
Profile Image for Marta Clemente.
758 reviews20 followers
August 3, 2023
Foi tão bom ler esta "Autobiografia não autorizada" da Dulce Maria Cardoso! Gosto tanto da escrita desta autora!
Neste livro foram reunidas as crónicas publicadas pela revista Visão na rubrica com o mesmo nome. Nestas crónicas revisitamos vários episódios da vida da autora, da sua infância e das suas vivências durante a pandemia. Por vezes, segundo a autora, de forma um pouco romanceada, vamos conhecendo as teias da sua vida. Uma excelente leitura!
Profile Image for Ana Montenegro.
263 reviews10 followers
July 4, 2024
4,5 ⭐️ Gostei muito de ler este livro de crónicas, bastante diferente do registo de “Eliete”, que já tinha lido. No entanto, uma coisa é certa, quer seja crónicas, quer seja romances, Dulce Maria Cardoso escreve com uma leveza e uma naturalidade únicas.
A sinceridade que deposita nas palavras é incrível, e a beleza na sua escrita faz com que, uma coisa tão simples como o a passagem pelo dia a dia se torne numa colectânea de crónicas impossível de pousar.
Fico com muita curiosidade para ler a Autobiografia não Autorizada II.
Profile Image for Filipa Galrão.
33 reviews100 followers
September 13, 2022
conhecer as histórias que fazem a história de cada um é um exercício incrível de empatia.
Sinto sempre que ler a Dulce é conhecê-la. E este conjunto de crónicas faz-me gostar ainda mais dela ❤️
Profile Image for Leonor Dargent.
44 reviews
December 26, 2024
Um dia terei lido todos os livros escritos pela Dulce Maria Cardoso e esta ideia alegra-me tanto como me entristece.
Feliz ou infelizmente, ainda faltam muitos.
Profile Image for Sofia Belchiorinho.
66 reviews
Read
November 5, 2024
Se isto é o que Dulce nos consegue trazer num formato semanal, mal posso esperar para o que vou encontrar nos seus romances amadurecidos durante meses, quem sabe anos. Venha Eliete, O Retorno, e todos os outros. ❤️
Profile Image for Daniela Soares.
28 reviews3 followers
February 28, 2022
O meu primeiro livro da Dulce e com toda a certeza não será o último. Tem um talento incrível de colocar poesia em tudo, até nas banalidades do dia a dia.
Profile Image for Ana Rita Silva.
267 reviews27 followers
January 17, 2023
dulce maria cardoso é amor <3
quanto mais leio, mais perplexa fico por saber que não faz parte do programa curricular da disciplina de português no secundário (pelo menos não fazia parte no meu tempo).

"talvez possa descobrir-se no seu olhar a saudade que dizem ser portuguesa."

"as histórias não me libertavam da tristeza nem me amansavam o desespero, mas tornavam-nos outra coisa. e não precisavam de acabar. foram as histórias que me salvaram. por isso, sempre que me perguntam quando é que percebi que seria escritora, nunca hesito, aos 11 anos. não foi bem uma escolha. tive de o ser."

"hoje estou convencida de que não fugimos de um sítio, mas para um sítio. para a quimera que nos estende a mão. é sempre para a quimera que fugimos."

"tenho medo. não propriamente da morte. pelo menos da minha. morrer não deve ser nada de especial. deve ser alguém a apagar-nos a luz, como a minha mãe a sair do meu quarto de criança, agora dorme. tenho medo da morte da minha mãe, da morte daqueles que amo. um medo enorme. e mais do que a morte, do sofrimento. do sofrimento de que não voltamos."

"a lista de coisas que uma menina não devia fazer aumentava de dia para dia, assim como os cuidados que a menina devia ter, uma humilhante lista escrita ao longo dos séculos que, ainda que eu me rebelasse contra ela, ia condicionando o meu pensamento, a maneira de me comportar, as minhas opções de vida."
Profile Image for Daniela.
92 reviews11 followers
February 29, 2024
Não tenho por hábito ler crónicas e talvez tenha feito mal em ler todas estas quase de uma vez, mas foi mais forte do que eu. Adoro o sentido de humor da Dulce Maria Cardoso e a forma como nos deixa a questionar se as coisas aconteceram mesmo assim. A magia destas crónicas também está em saltarmos da infância para o presente e às vezes tudo no mesmo texto. Já tenho o segundo volume e vou tentar consumi-las em doses diárias recomendadas desta vez.
Profile Image for Madi.
161 reviews5 followers
August 10, 2023
Sinto que é bom, mas não é para mim. Gostei de algumas crónicas mas a maioria pareceu só que estava a ler um diário demasiado real. Não gosto de saber demasiadas coisas sobre a vida de escritores 🏃‍♀️
Profile Image for Julia Forbes.
35 reviews
August 14, 2024
“Precisei de anos para perceber que estar desatenta é estar também desarmada, e que isso é mau. Precisei de décadas para perceber que estar desatenta é estar também desarmada, e que isso é bom.”
Profile Image for Sara Ponte.
116 reviews12 followers
February 16, 2023
É sempre um prazer poder conhecer melhor o belo ser humano que é a Dulce.
Profile Image for Tânia Dias.
167 reviews13 followers
June 14, 2024
"A felicidade sabe às lágrimas comovidas da minha mãe." 🤍
Ler a Dulce é terapêutico, sinto que estou a ler as memórias de alguém muito próximo. Sinto-a como uma amiga. Recomendo tanto!
Profile Image for Rita Coelho .
94 reviews13 followers
August 24, 2023
“(talvez não tenham importância os princípios das histórias e sejamos mais felizes estando sempre a esquecê-los)”
Profile Image for Ana Catarina Jesus.
51 reviews26 followers
August 11, 2024
A Dulce é uma escritora-casa, do coração. Não sabia que gostava de crónicas até ter lido estas. Que maravilha ♥️
Profile Image for Ana Sousa Amorim.
6 reviews23 followers
February 27, 2022
Uma colectânea de crónicas já publicadas raramente representa uma leitura que me entusiasme, mas também ainda não havia uma assinada por DMC. Ficou muito sublinhado e guardei alguns trechos no coração. Uma leitura que se adia a partir do meio, com pena de se terminar. A companhia ideal, mesmo em temas que não tenho pressa ter em livro (pandemia). Imperdível. Que não lhe doam os dedos, quero mais.
Profile Image for Inês Lóio.
120 reviews5 followers
June 27, 2021
“No passado me perco, no passado me encontro. O passado é o pântano que habito. “
Profile Image for Carolina Ramos.
109 reviews5 followers
January 30, 2024
Mais uma vez, pela terceira vez, a Dulce Maria Cardoso conquistou-me. E nenhuma destas vezes foi o Retorno que li. Vou-me repetir talvez, mas a sua escrita sincera, crua e às vezes inesperadamente poética encantam-me.
Não estava à espera de tanta honestidade da parte da autora, mas agradou-me. Já por duas vezes me perguntaram p porquê do nome "Autobiografia Não Autorizada", e eu não sei a resposta, como seria de esperar. Ou então já ouvi a Dulce a explicar a razão algures, embora não me pareça. No entanto, de ambas as vezes respondi que a minha interpretação era a não intencional abertura da escritora nestas crónicas. Ou seja, imaginei que quando lhe foi pedido que escrevesse crónicas, ela não imaginasse que iria acabar por escrever uma espécie de autobiografia, mas foi o que lhe saiu, inevitavelmente. Apenas coisas da minha cabeça, atenção.

Como sempre, algumas citações demasiado lindas para não ficarem registadas:

"Precisei de anos para perceber que estar desatenta é estar também desarmada, e que isso é mau. Precisei de décadas para perceber que estar desatenta é estar também desarmada, e que isso é bom."

"(Cinquentona. De repente, dou conta deste entendimento sufixiante do português: trintona, quarentona, cinquentona. Nunca ouvi ninguém dizer vintona, o que certamente se deve ao pressuposto de que todas as mulheres entre os 20 e os 30 anos são sedutoras. Todavia, não será essa a razão por que não se diz sessentona. Como não ficar aflita se já vou a meio dos cinquenta?)"

"A minha avó foi a primeira leitora que tive, muitos anos antes de ter começado a escrever. Eu fui a minha segunda leitora. Se o meu corpo não podia distorcer a realidade em que eu estava, a minha cabeça, sim. (...) As histórias não me libertavam da tristeza nem me amansavam o desespero, mas tornavam-nos outra coisa. E não precisavam de acabar. Foram as histórias que me salvaram. Por isso, sempre que me perguntam quando é que percebi que seria escritora, nunca hesito, Aos onze anos. Não foi bem uma escolha, tive de o ser."

"A sul do equador é fácil perceber que Deus é estrangeiro." - da crónica "Penas e Anjos", gostei muito, e li-a por acaso mas certeiramente, no Natal.

"cresci com o Brasil a salvar-me da tristeza salazarenta, a desempoeirar-me a cabeça, as personagens do pequeno ecrã em que mais me reconhecia eram brasileiras, entre elas e eu não havia tradução,"

"Era raro falar dos meus dotes datilográficos, considerava-os, há muito, disparatados. Estava errada:
Às vezes os dedos desatam a tamborilar no teclado, rápido, cada vez mais rápido. Acontece soltar-me deles, um tempo ínfimo, ainda assim suficiente para que, ao regressar, a dúvida se tenha instalado, Quem és tu que por mim escreves?"

"Sou uma desorientada espacial. Invejo aqueles que sabem sempre onde estão, que indicam com segurança os pontos cardeais e se comportam como se o mundo, enigmático e mudo para mim, lhes fornecesse informações que os conduzem com segurança a todo o lado. Imagino os cérebros deles diferentes do meu, com mapas interativos no hipocampo ou no córtex frontal a revelar-lhes, segundo a segundo, os melhores atalhos para os destinos que traçam e a permitir-lhes escolher sem hesitação casas com orientação nascente-poente. (...)
agora tenho dentro do meu telemóvel milhares de mapas com que umas quantas aplicações me guiam pelos lugares mais extraviados do mundo. No entanto, continuo sem saber onde vai cair a sombra do que me rodeia." - in "O sol quando se põe não é para todos"

"Uma epidemia é diferente de uma guerra, ainda que ambas nos apequenem, a nós, a espécie todo-poderosa do planeta – quem sabe se do universo. Não por sermos vítimas de uma ou de outra, mas porque a nossa mera vontade concertada bastaria para evitarmos uma e outra. Concertar ou desconsertar, eis a questão."

"Nessas alturas, o meu coração atrapalhava-se, os ouvidos zumbiam, negociava com Deus, se eu abrisse ao acaso um livro da estante e o número de letras a da primeira linha em que batesse os olhos fosse par o Shane amar-me-ia para sempre (...)"

Também gostei muito da crónica "O lado errado", e percebi que estão todos disponíveis no site da Visão.
Profile Image for Manuela.
173 reviews
September 22, 2021
Um conjunto de crónicas intercalando presente e passado, onde as memória e vivências são o fio da entidade da autora. Uma vida num puzzle cujo objectivo talvez não seja concluir absolutamente nada, apenas adicionar mais e mais peças.
São crónicas com o dom de nos prender desde o início e acabamos por posicionar as nossas vidas em situações idênticas, com os mesmos dilemas, paixões, amores e desamores.
Nem sempre encontramos a letra certa de uma canção, ao contrário da autora.
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