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Afastar-se - Treze Contos sobre Água

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«Fui coleccionando ao longo de mais de cinco anos contos que de uma maneira ou de outra metem água. Ela está sempre presente, doce, clorada, salgada, mais larga ou mais discreta, no oceano aberto onde se experimenta o abandono e a sobrevivência, no duche redentor que muda em narrativa irónica uma experiência de quase morte, na saliva que prepara a cinza, na piscina adorada que é meio de transmutação alquímica. Será esta colecção, talvez, em arco abrangente, uma reconciliação pela água: um livro termal, se quiserdes. Em muitos destes contos se reivindica o primado da experiência vivida, seja ela de jibóias!, na elaboração formal que lhe faz a vénia. Na vida da água que nos faz sonhar (só de olhar) reconhecemos a nossa própria sobrevida. Mas o lapidar é o lapidar e o que se escreve na água…»
LUÍSA COSTA GOMES

224 pages, Paperback

First published May 1, 2021

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About the author

Luísa Costa Gomes

106 books31 followers
Luísa Costa Gomes nasceu em 16 de Junho de 1954. É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi por vários anos professora do Ensino Secundário e trabalhou ainda no programa Escritores nas Escolas. Traduziu livros, traduziu e legendou filmes. Tem colaborado em vários jornais e revistas, programas de rádio e televisão.
A sua obra literária começou com a publicação, em 1981, do livro "Treze Contos de Sobressalto". Desde aí já lá vai dezena e meia de títulos, entre o conto, o romance, o teatro e a crónica, com variados prémios, e traduções no estrangeiro. Várias das suas peças subiram ao palco. Escreveu o libretto de algumas óperas, entre elas o célebre "Corvo Branco", de Philip Glass, com encenação de Robert Wilson, apresentado por ocasião da Expo' 98 (e também em Madrid e em Nova Iorque). Criou a revista de contos FICÇÕES, que dirige e coordena.

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Displaying 1 - 8 of 8 reviews
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews39 followers
June 30, 2021
Estendo o braço e colho um copo do armário. Rodo a torneira, encho-o de água, levo-o à boca e, em treze goles breves, refresco-me e sacio-me. Assim é “Afastar-se”, o mais recente trabalho de Luísa Costa Gomes, treze contos sobre água que, tal como o precioso líquido, alimentam e purificam. Escutando uma diluviana chuva que tudo lava, sorvendo o cheiro do sabão de amêndoas e mel que se liberta da bacia onde um homem lava os pés a outro, fantasiando com um chuveiro fresco na selva sufocante da Guiné ou seguindo os passos de uma resoluta Giulia que se entrega às águas no estreito do Helesponto, somos levados a perceber o quanto o elemento água está presente nas nossas vidas, não apenas por tudo aquilo que dá mas sobretudo pelo que promete, esconde ou retira.

Desregrado, caótico, sem preocupações cronológicas, geográficas, temáticas ou mesmo estilísticas, “Afastar-se” é o resultado de mais de cinco anos a coleccionar contos “que de uma maneira ou de outra metem água”. É, na sua essência, um livro engenhoso onde o elemento água se impõe no início de cada conto ou se deixa surpreender ao virar da página, subtil, fugaz. Que nos lembra uma relação que tem o seu início no ventre das nossas mães e vai emergindo como sinónimo de vida; mas que, ao mesmo tempo, nos dá a nota do efémero que é “escrever na água”. Um livro que nos pega de mansinho, nos toma na corrente breve que logo se torna torrencial e nos arrasta para o largo, nos faz perder o pé e nos submerge. Tudo isto “sem aflição, nem susto, por tentativa e erro, e quase se afogando um par de vezes sem sequer dar por isso.”

Numa escrita desconcertante, viva e livre, Luísa Costa Gomes “abre o livro”, lançando mão de uma prodigiosa imaginação que alia ao engenho de contar uma história. Como volutas que se erguem no ar, belas e imprevisíveis, assim é este “mundo líquido” e as vidas que o povoam, naquilo que têm de “original, insólito, irónico”. Objectivas, precisas, densas ou nebulosas, quase irreais, as figuras, os lugares e as situações sucedem-se, moldadas pela força criadora da autora, oferecendo um todo amalgamado, o nexo a brincar às escondidas, a força da razão a ceder o espaço às emoções mais elementares. Sem bóias nem tábuas de salvação que valham ao leitor, a solução é deixar-se ir, como num sonho acordado, um sorriso fixo no rosto e na alma. Enquanto isso, a cabeça dá voltas e mais voltas, sem soluções imediatas mas com a certeza de um final feliz.
Profile Image for Emanuel.
14 reviews8 followers
November 30, 2022
Afastar-se - 8/10
Sorriso - 8/19
Cinzas de Pirandello - 7/10
O grande azul - 7/10
Desertos, Enseadas, Covas abertas - 9/10
Sombra - 5/10
Híma - 6/10
Sacrifício- 6/10
Redondilha - 7/10
Gandembel - 6/10
Baía de Alumbrada - 7/10
O Tratado de Tavira - 8/10
Passeio - 6/10
Profile Image for Lightwhisper.
1,246 reviews3 followers
December 20, 2021
Pura literatura pelo gosto de ler a escrita da autora. Admito que não adorei as histórias mas adorei a forma de escrever.
Profile Image for Rita Guimarães.
50 reviews3 followers
December 14, 2021
"Depois de ressequida, vem o sudoeste e sopra e eu disperso-me no ar e dissolvo-me na água. Tenho esta fantasia desde menina, dispersar-me no ar, ir em pó sobre os telhados, ser finalmente uma alma que se veja. Ou ser assim apenas um fragmento do todo e escolher reunir-me ao elemento que me convém. Pousar nos ramos do limoeiro e daquele cacto que dá uma flor por ano e dura uma noite."

"É da própria natureza das coisas que o amor vença."

"Reparo e delicio-me com esta fase da nossa vida comum em que chamamos a atenção uns dos outros para uma cor, para uma forma, para o desenho de um duplo arco-íris duma nitidez de imagem fabricada."

"Nunca desejar, ou desejando, nunca mostrar, ou mostrando, nunca passar ao acto. O tabu do nunca repetido em todos os tons, de dedo em riste, da nacionalidade à ameaça, não podes, não deves, não o farás nunca. Mas ela reconhecia, embora apenas de ouvir contar, o andamento do processo: o que não se podia fazer ia puxando uma força desvairada, à bomba hidráulica, do poço da sua própria impossibilidade. Quanto mais se contrariava, mais ele crescia, e crescia para dentro, onde criava raíxes e se expandia daninho e vicioso até não restar nenhum espaço saudável aberto. O desejo fechava, sufocava, era um garrote. A pessoa então queixava-se de não conseguir estar em paz consigo mesma, dentro de si mesma, onde a coisa grassava e imperava sem outra regra que não fosse o seu imperar."

"As pessoas gostam de dar a volta à situação dizendo que se sentem vivas quando se apaixonam. É, no entanto, uma vida de bicho, desumana."

"Já tentei tudo, discotecas, namoro, namoro em grupo, monogamia, poliamor, sexo, sexo em grupo, peregrinações a Fátima, curandeiros, massagistas, especialistas em amarração e desamarração, hipnoterapia, todos os cultos, com cantigas, sem cantigas, seitas, religiões, tentei tudo e não consigo livrar-me desta praga.
Sabina esperou, mas já sabia o que a outra ia dizer.
- Tive o infortúnio de me apaixonar - disse a senhora, e rebentou num pranto que levou Sabina a voar para junto dela.
Tomou-a nos braços, embalaram-se e choraram juntas."

"Enloquecia por falta de tempo, fantasiava morrer para ter tempo."
Profile Image for Graciosa Reis.
543 reviews52 followers
May 14, 2023
Afastar-se! Tal como a água que corre, que se afasta, assim é a vida. Nos treze contos que integram este livro, a água, como a própria autora o refere, “está sempre presente, doce, clorada, salgada, mais larga ou mais discreta, no oceano (…) no duche, (…) na saliva (…) na piscina”. A água surge como meio de integração, de salvação (terapia), de prazer e de dissolução.
“ Atira-se para se afastar da margem. Avança sem coordenação e elegância. Oblíqua na água calma e quando se cansa vira o peito aos céus e flutua, engolindo um ou outro pirolito. Nada com uma determinação de galgo, sem olhar para trás, cada vez para mais longe até sentir que está no meio do mar, Aí, deita-se ao comprido na água e goza o ser. (p. 9)
e
“No amor, na piscina onde se nada. Cada banho me retira uma camada de pele à medida que mergulho na alegria. Sou cada vez mais carne viva. Sofro e sofro sem dó nem piedade. Gozo a minha indecência. A água está morna e faz-me querer ser água e regar cada torrão do jardim. Ao cair do sol vou cavar buracos e espremo as lágrimas lá para dentro. Saltam dos olhos, as pequenas idiotas. E aspiro a que ao terceiro dia esteja tão seca e ressequida que possa flutuar como um lanho e dissolver-me à superfície.» (p. 79)

São relatos que expressam o vivido, o sentido, o desfiar de memórias, o desejo de liberdade, projectos de escrita. São relatos que se cruzam com gente famosa como Byron, Pirandello, Kierkegaard, entre outros que, não citados, podem ser identificados. São relatos simples e simultaneamente complexos. Simples porque descrevem actos comuns, verosímeis, autobiográficos (?). Complexos porque revelam a natureza humana, o âmago da personagem: fraquezas, ambições, desejos, sonhos.
A escrita burilada, poética, ritmada, fluída, densa, subjectiva conduz o leitor a múltiplas interpretações, a imaginar o não dito, mas legado nas entrelinhas.
Gosto desta literatura libertadora que funciona, aqui, como uma boia, sobretudo quando “afastar-se” significa ir mais além, correr riscos, libertar-se, sonhar, ou seja, VIVER.
Profile Image for Célia Gil.
884 reviews43 followers
June 10, 2022
Luísa Costa Gomes venceu, com este livro, o Prémio Literário Casino da Póvoa 2022, o que é bem merecido. Nestas 13 histórias, 3 já publicadas antes e 10 inéditas, há um elo de ligação: a água. Se atendermos à simbologia da água, com efeito, esta perpassa ao longo de todos os contos. A água passa, corre, como corre a vida; por vezes, em margens que a acolhem no seu regaço (que ficam na memória), outras tantas passando e ultrapassando socalcos que a vão tentando impedir de seguir o seu curso natural (dissolvendo). Corre para ganhar uma nova vida ao se fundir com o oceano, ou morrer de encontro ao mesmo. Assim é a vida. Há nestes contos, escritos com grande sabedoria, neste fio condutor de água, o desfiar de memórias, que cada personagem traz com ela. Vidas sedentas de vida, de renascimento, de uma infância perdida…
Depois, temos ainda o convívio de algumas personagens com os livros de Lord Byron, Pirandello, Kiekegaard e outros escritores de que não refere o nome, mas que entrevemos de quem se trata.
Tenho de reconhecer na autora uma escrita exímia, muito trabalhada, numa prosa riquíssima (e até verso) cheia de ritmo, que nos instiga a curiosidade e nos prende.
Confesso que gostaria, em alguns contos, de estar a ler um romance, pois queira mais, queria que continuasse. Mas os contos são assim e o que fica por ler, nas entrelinhas, é também uma forma deliciosa de o leitor continuar as histórias na sua imaginação.
Recomendo!
Profile Image for Ana Sofia Filipe.
275 reviews2 followers
July 12, 2022
4.5

Para uma leitora como eu que não sabe apreciar particularmente contos, este livro foi uma maravilhosa surpresa.
Continuo a preferir a cadência do romance, o desenvolvimento da história, das personagens, a envolvência com as especificidades da escrita de cada autor, mas este conjunto de contos é uma deleite para qualquer leitor.

De tudo, o que destaco do livro e desta primeira experiência com a escrita de Luísa Costa Gomes é a forma ímpar e exímia com que utiliza a língua portuguesa como sua ferramenta de trabalho. Há um controlo, um cuidado e um domínio exemplar, uma atenção à escolha precisa da palavra utilizada. Quando quiser relembrar-me do que é saber bem escrever, já sei que escritora tenho de procurar.
Displaying 1 - 8 of 8 reviews

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