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131 pages, Kindle Edition
First published January 1, 1954
Representações criativas da realidade geradas pelo gênio humano para destacar o que dela lhe parece profundo, grotesco, bonito, aterrador, sublime, longevo, as quais, em adição, se demonstram perenes. Obras artísticas são, dito de maneira um tanto poética, os combustíveis que resultam na luz que ilumina a alma; e, assim sendo, por maior que seja a idade da obra, sua capacidade de iluminar continuará existindo. Assim eu tentaria explicar para minhas filhas, adolescentes, o que entendo por arte.
"Mas, pai, o que faz uma pessoa conseguir criar algo assim?", perguntaria uma de minhas filhas. Eu, humildemente, recorreria a este artista que tanto admiro e responderia: "Filha, vou citar um excelente poeta brasileiro: 'o espanto'". Essa foi uma grande lição que tive com o maranhense José Ribamar Ferreira. A ti sou eternamente grato por isso, Ferreira Gullar!
São sucessões de espantos que ele nos apresenta em "A luta corporal". Espantos com o eterno e com o passageiro, o eterno, repetitivo, que não cessa de tornar todos efêmeros. Os gritos do galo que se repetem, e se repetem como se numa ânsia de nunca cessarem, sem consciência, pobres, o galo e seu grito, de que há algo, esse sim que não finda, que irá sempre silencia-los. Tolo, ingênuo galo se sente tão forte (sem consciência?) com seu canto potente.
Mas não acredite o leitor que apenas o animal espanta Gullar, também o vegetal lhe caiu como uma bomba. Mal sabem disso as peras, elas, sozinhas, ardentes, sossegadamente se consumindo. Pera, como não se espantar com você que está aqui, provavelmente, antes mesmo do homem, e que, mesmo assim, não lhe alcança um centésimo de vida ... que, como ele mesmo, germina em si seu próprio fim. Como poderia nossa espantado José não falar de você?
(...)Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço (p. 41).
(...)Onde jorrara a fonte, as pedras
secas. Onde jorrara
a fonte, jorrara a fonte.
Aqui jorrara a fonte (p. 113).
Gullar lutou, lutou com a alma e de corpo com as palavras, armado de seus espantos. Lutou e venceu! Venceu as palavras, a língua, as destruiu, lhes levou ao ocaso como somos a ele levados. Mas ele foi capaz, contudo, antes de ter ao seu sido levado, de sua vitória se arrepender.