Poucas mulheres marcaram tanto o século XX português como Vera Lagoa. De carácter destemido e opiniões fortes, a sua voz livre foi uma lufada de ar fresco no jornalismo português. Na coluna Bisbilhotices, no Diário Popular, comentou a sociedade do final do Estado Novo de forma atrevida, mordaz, indiscreta ao ponto de provocar o escândalo. No pós-25 de Abril, foi das raras vozes independentes, dissonantes, sem compromissos nem cálculo, que se atreveu a criticar os novos poderes instituídos.
Pela mão da historiadora Maria João da Câmara chega-nos finalmente a sua biografia. De uma menina marcada pela figura trágica do pai até à jovem precoce no trabalho, no casamento e na maternidade; de uma habitué dos ambientes intelectuais e artísticos sofisticados da Lisboa do pós-guerra - onde encontra Amália Rodrigues, Sttau Monteiro, Cesariny, Natália Correia, Ary dos Santos e José Manuel Tengarrinha, o amor da sua vida - à sua entrada nos meios oposicionistas e apoio à candidatura de Humberto Delgado, em 1956.
Da invenção por desespero do pseudónimo Vera Lagoa para o Diário Popular de Pinto Balsemão, à sua grande esperança, e posterior desilusão, com o regime democrático, registadas de forma corajosa e contundente no seu jornal O Diabo, Vera Lagoa - Um diabo de saias é o registo do percurso tão notável quanto acidentado de uma mulher à frente do seu tempo.
Fruto de uma pesquisa admirável com recurso a diversas fontes históricas, nomeadamente ao arquivo pessoal de Vera Lagoa e a entrevistas com familiares, amigos e colaboradores que a conheceram de perto, através da história desta mulher, Maria João da Câmara dá a conhecer uma sociedade, se não desconhecida, pelo menos esquecida, que vale a pena conhecer: a sociedade portuguesa na segunda metade do século passado.
MARIA JOÃO DA CÂMARA nasceu em Lisboa, a 27 de Março de 1964. Licenciada em História, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1987), mestre em História Moderna e doutorada em Arquivística Histórica pela mesma faculdade (2012), trabalhando nos últimos anos sobre as problemáticas dos Arquivos Familiares em geral. É Investigadora no CHAM-Centro de Humanidades, da NOVA/FCSH. Publicou os romances históricos Um Príncipe Quase Perfeito, Crónica de Amor e Mar, O Pecado e a Honra, Memórias Perdidas de Catarina de Bragança e os ensaios Pedro de Figueiredo (1657-1722) - Uma Biografia, João Branco Núncio (1901-1976), História do Desporto Equestre Português, Orey - Uma Família, Uma Empresa - 1886-2006, Cristo Rei - Espiritualidade e História e Maria José Nogueira Pinto - Uma Vida Invulgar.
E aproveita para falar especialmente das dificuldades que as mulheres experimentam quando tentam ser jornalistas (...): é doloroso para uma mulher que trabalha de manhã à noite nessa profissão, ser, por força do seu cartão de identidade, considerada doméstica. "Esta é, aliás, a identificação de Maria Armanda Falcão como cidadã portuguesa: doméstica. E apesar de, a partir do final de 1968, lhe ser (finalmente) concedido o direito de voto -" Estou muito contente. Já posso votar. Deixei de ser equiparada aos analfabetos." -, o facto de ter apenas a instrução primária é um dos impedimentos que o sindicato aponta para não lhe dar a carteira profissional.
Maria Armanda Falcão nasceu no dia de natal do ano de 1917. Só tinha a instrução primária, vulgo quarta classe, mas chegou a dona e diretora de um jornal.
O primeiro número do novo O Diabo sai no dia 10 de Fevereiro de 1976, e a sua directora aproveita para se congratular - como mulher, e tendo apenas a 4.ª classe - por aí ter chegado: "Cavalheiros! Parece-me que lhes vejo os narizes torcidos! Pois destorçam-nos que eu vou falar.
E se falou! Não poupava ninguém!
Começou a escrever numa coluna intitulada Bisbilhotices, frequentava a alta roda de Lisboa, conhecia os que importavam, mas isso nunca a impediu de dizer o que quer que fosse sobre quem quer que fosse. Nunca se calou! Os mais de duzentos processos em tribunal o atestam. Mas também usou a sua voz e o seu jornal para denunciar injustiças e ajudar quem precisava.
Para José Miguel Júdice, Vera Lagoa "Era uma mulher completamente livre e sempre do contra. Em Portugal, a característica dominante é que as pessoas são sempre da situação. Por isso é que, antes do 25 de Abril, contavam-se pelos dedos de uma mão aqueles que eram consistentes, inequívoca e totalmente contra o regime. Quando ela fez aquele livro - Revolucionários que eu conheci - foi um escândalo, depois vieram dizer que era falso, que era isto e aquilo. Ela estava-se a lembrar de memória, mas na essência aquilo era tudo verdade! É porque ela não perdoa aquela gente, que no fundo eram pessoas normais tinham coisas boas e más - era muito difícil a um intelectual, a um jornalista, a um escritor viver sem fazer algumas cedências... O que Vera Lagoa não perdoou não foram as cedências, o que ela não perdoou foi que, depois do 25 de Abril, eles se tornassem radicais, intransigentes a atacar e a criticar pessoas que eram, afinal, menos ligadas ao regime do que eles...
Goste-se ou não de Vera Lagoa, há uma coragem e uma determinação nela admiráveis. A sua vida foi realmente incrível e reveladora de uma atitude rara neste país tão pequenino. Ainda que não aprecie o estilo de muitos dos seus textos (por exemplo, nos “revolucionários que eu conheci”), não se pode deixar de tirar o chapéu à sua luta pela liberdade de expressão.
O livro está tendencialmente bem escrito. Tem um erro quanto à data de uma entrevista a Carlos Cruz, que foi em 1992 , quando no livro se fala em 1982, o que tem um ligeiro impacto em termos de algumas contextualizações. A autora optou por, nas citações que faz, usar , por vezes incompreensivelmente, o [sic] ou por fazer correções de pontuação nos textos citados. Nada a opor, desde que, então, se seja exaustivo. O que não é o caso. Além de que o texto tem, ele próprio, falhas frequentes de pontuação. Apenas um pormenor que, pessoalmente, me fez impressão.
De vez em quando, gosto de ler biografias principalmente de mulheres fortes como é o caso de Maria Armanda Falcão/Vera Lagoa. Dentro desta mulher singular, coexistem muitas facetas como a mulher trabalhadora, a mulher apaixonada ou a mulher inconformada. Este livro descreve-nos a riquíssima vida desta mulher destemida que encontrou nas palavras, a sua arma. Mas a autora não se limita ao trabalho biográfico à volta desta figura, Maria João da Câmara apresenta-nos, também, um detalhado retrato de Portugal nas últimas décadas do séc XX. Qualquer um deste objectivos foi plenamente atingido. É um dos livros indicados para perceber melhor a nossa História recente e em como se reflecte nos dias de hoje.
Uma biografia sobre uma mulher corajosa, que não gostava de quotas, mas de reconhecimento real das capacidades individuais. Alguém que procurou estar sempre do lado correto do que é a democracia e justiça, tendo ajudado comunistas durante o Estado Novo e lutado contra as tentativas de criação de um modelo de ditadura de esquerda no pós 25 de abril. Goste-se ou não das suas ideias, há algo que é inegável no seu trajeto (tal como em Snu Abecasis): consistência de pensamento! Um livro muito bem escrito e de elevada qualidade de investigação, que nos dá um pleno detalhe da história política, da segunda metade do século passado, do nosso país.
Esperava bem melhor. A biografada prometia um livro bem mais interessante... Achei muito pobre sobretudo em termos literários, mas também em termos de verdade histórica, i.e., esperava mais sobriedade (isenção), principalmente pela biografada, que era alguém que gostava da verdade, doa a quem doer :-)
É um livro que demonstra a figura complexa e controversa que foi Vera Lagoa, além de retratar vários pontos da História Contemporânea portuguesa. É um livro muito bom, embora gostasse que o livro não endeusasse tanto Vera Lagoa
Uma visão de uma das mulheres mais influentes. Além de conhecermos a vida de Vera Lagoa (maria Armanda), também conhecemos a evolução da politica de Portugal e do jornalismo.