Gostava muito de dar mais estrelas a este livro de João Tordo, autor cujos livros costumam estar entre os meus preferidos, mas não vai dar.
No geral, a história é decente, mas pergunto-me onde está o factor “thrilling” que se espera dum thriller. Aliás, pergunto-me se é justo publicitar este livro como um thriller. É mais uma investigação policial, e nem sequer das mais excitantes.
Na minha opinião, o livro peca por se dedicar demasiado à vida de duas das personagens, Cícero e a subcomissária Pilar Benamor. Vidas sofridas, degradantes mesmo, diga-se, que isto continua a ser um livro de João Tordo e um livro deste autor não pode cá ter vidas fáceis. Mas se isto é suposto ser um thriller, ou um policial, será necessário perder tantas páginas a remexer no passado das personagens? E era mesmo preciso criar uma subcomissária da PSP tão problemática, com uma vida tão degradante? Era mesmo preciso que ela tivesse aquele vício em particular? E porque não escrever uma história com a subcomissária Benamor, mas que não fosse um thriller, ou policial? E aí o autor podia explorar os seus vícios, as suas angústias, a sua queda e possível ascensão. E não havia o risco de passar aquele que devia ser o foco da história, a investigação de um homicídio, para segundo plano durante grande parte do livro, que é o que acontece aqui. A ideia que eu tenho é que a investigação a sério começa para aí umas duzentas páginas antes do final. E são 511 páginas.
Não vou dizer que foi um livro que me custou a ler, porque não é verdade, mas também não posso dizer que me tenha provocado grande emoção. Fui lendo, enquanto me perguntava “mas isto é um thriller onde?”. Lá está, é já no final que existe uma situação de perigo. Em todo o livro é preciso chegar à página quatrocentos e tal para termos a nossa subcomissária numa situação em que é outra pessoa, e não a própria, a causar o perigo. Talvez seja esse o único momento na história em que sentimos esse perigo, em que há alguma emoção, a heroína da história está a ser ameaçada, como é que isto vai terminar? Em quinhentas e poucas páginas, só haver um momento de real perigo e esse momento ser a menos de cem páginas do final, não, não chamaria a este livro um thriller.
Depois também não apreciei muito o facto de aparecerem umas descrições a atirar para o poéticas misturadas com diálogos a atirar para o filosóficos, por sua vez misturados com linguagem bastante ordinária. Se calhar bastava misturar, talvez, os diálogos filosóficos com as ordinarices e já ficava melhor, não sei.
Ou talvez João Tordo não seja o melhor autor para escrever este género, dada a sua tendência de explorar as vidas e sentimentos (as angústias) das suas personagens. O homem escreve bem, é certo, deve ter feito um trabalho de pesquisa brutal, para conseguir escrever esta história mas, para mim, este livro ficou aquém das expectativas. Como já aconteceu com outros livros dele.
O que me consola é que haverá mais livros de João Tordo. De que irei gostar com toda a certeza. Provavelmente será o próximo.