Vencedor do Prêmio Kindle de Literatura (2021) e Prêmio Jacarandá (2022)
Uma história de amor e ódio, violência e redenção. Ambientada em Fortaleza, A filha primitiva traz luz e sombra para uma geração de avó, mãe e filha – unidas pela dor e pelo abandono, separadas pela fé, pelo ceticismo e pelos segredos que guardam. Uma avó negra que esconde quem é o pai da filha. Uma mãe branca que escreve para preencher as lacunas de sua vida e rejeita a maternidade. Uma filha que recebe a raiva de mãe para filha e já nasce sentindo a dor de ser mulher. Uma ficção imersa numa crueza de linguagem e calcada no real que transforma uma história de ancestralidade em grande literatura.
Depoimentos de escritoras sobre o
Vanessa Passos é uma autora que não tem medo do mergulho no enigma das coisas, seu olhar atento tudo capta, os mais mínimos detalhes. E o resultado é este primeiro romance, um livro que retrata a complexa reação mãe e filha, o desamparo, o amor e o ódio que se misturam, as vozes e os silêncios que herdamos. A dor e a beleza. Um livro forte e urgente. Uma autora que chega com a maturidade de quem sabe a que veio. (Carola Saavedra)
O romance de Vanessa Passos é trepidante. No seu livro, só os homens têm nome, os namorados e o pai, eles não são indigentes como a avó, a mãe e a filha; um recurso incrível que mostra já a violência pela escolha das palavras. A costura tão bem feita entre orfandade e escrita, violência e miséria, a luta social. O romance está redondo, pronto. Adorei a fluidez, a violência nas palavras, a urgência. Um livro para ganhar o mundo! (Andrea Del Fuego)
No seu romance, a autora trata de um dos temas mais ricos e mais complexos na literatura sem qualquer receio e reserva. A relação com a maternidade, a crueza e os desgastes cotidianos desse convívio são elementos que dão corpo a essa narrativa corajosa. Uma bela história para ser conhecida. (Nara Vidal)
A Filha primitiva tem uma crueza rara nos dias atuais. São frases incisivas que não buscam agradar ou amenizar os fatos para o leitor. Não há concessão, a leitura pede entrega e coragem. E nos recompensa com uma história inesquecível, com personagens honestas, reais e imperfeitas. É um livro sobre maternidade, abandono, amor incondicional. É a vida acontecendo em cada página, com estilo, sensibilidade e beleza. (Marcela Dantés)
li numa sentada. foi a 1 hora e meia mais intensa desse ano! livro cru, rude e q aperta nas feridas abertas da sociedade em q a gente vive. o livro eͪ sobre muitas coisas, mas principalmente sobre maternidade
apesar d achar q ele deveria ser mais longo, eu ameiameiamei! uma obra prima!!!
Não tinha mais cordão umbilical, a menina não mamava mais. Era a raiva agora que passava pra ela, de mãe pra filha. Não foi o parto, não; não foi a contração, não; não foi dar o peito, não; foi a raiva que me tornou mãe.
“A Filha Primitiva” é mais um daqueles livros necessários sobre a maternidade fora dos estereótipos que vêm comprovar que as relações entre mães e filhos se desenrolam em vários tons de cinzento, muitas vezes sem verdadeira culpa de nenhuma das partes, ambas reféns das circunstâncias. A epígrafe de Eliane Brum, a quem este tema também não é estranho, não poderia definir melhor esta dinâmica: “Como é possível odiar e amar ao mesmo tempo? [...] um amor que odeia ou um ódio que ama.” A introduzir e a concluir esta curta obra, temos as palavras de Giovana Madalosso e de Natalia Timerman, respectivamente, que me deixam pouco mais a acrescentar, a não ser a minha experiência pessoal de leitura, que começou com uma profunda irritação com a narradora, uma jovem que é filha e mãe, e terminou com uma sensação de apaziguamento devido à resolução do seu conflito que era, essencialmente, interno.
Minha mãe é uma daquelas personagens que a gente odeia e, ainda assim, não consegue deixar de acompanhar. À primeira vista, uma pessoa simples, negra, analfabeta, trabalhava em casa de família, sem muitosanseios e pretensões. (…) Olhando assim dava até pra sentir pena dela, mas na literatura e na vida nada é o que parece.
Neste seu romance de estreia vencedor do Prémio Jacarandá em 2022, Vanessa Passos resume logo na primeira página a revolta da protagonista.
Eu não via a hora de voltar pra Guaiúba, aquela cidadezinha no meio do mato, pra dar aula de literatura. Podia ter escolhido dar aula em Fortaleza, mas queria ficar o mais distante das duas, da minha mãe e da menina, ir pra um lugar onde ninguém me conhecesse e eu pudesse ser aquilo que eu inventasse, feito personagem de mim mesma, sem criança, escrevendo sempre que quisesse e sabendo quem era o meu pai.
Mãe solteira que engravidou enquanto terminava o curso universitário, o verdadeiro desejo da mãe, a jovem vê-se a braços com uma recém-nascida e uma mãe já incapaz de trabalhar que se refugia na religião, para exasperação da filha que só tem um desejo: que ela lhe revele a identidade do pai. Confrontada com silêncio e subterfúgios, a protagonista usa como arma de arremesso a filha recém-nascida, com a qual não consegue estabelecer qualquer laço, oscilando entre o desejo de a dar para adopção e que ela deixe simplesmente de existir.
Um nome não é nada. Não é endereço, telefone, não diz como e onde encontrar. Deus castiga e viu o que você fez com a menina, ela me disse, em vez de bom dia. Não senti um pingo de culpa. Talvez a menina tenha nascido pra eu poder chantageá-la, a minha adorada mãe. Não é ela mesma quem diz que toda vida na terra tem um propósito? Vinte e três anos depois, eu arranco o maldito nome. Achei que ficaria mais feliz. Um personagem só ganha vida, só se materializa com o nome. Por isso nunca chamei a menina pelo nome. Talvez ela não vingue. Fui tentar escrever o romance, não saiu uma palavrinha. Tentar escrever sobre o meu pai, pior ainda. Talvez Deus se vingue mesmo ou talvez, só talvez, praga de mãe pegue.
Não é fácil aceitar esta posição da filha, que fere por estar ferida, sobretudo quando uma leitora com mais experiência de vida teme conhecer o segredo da mãe, mas é um caminho tortuoso pelo qual a autora nos conduz com uma crueza compreensível porque é contextualizada.
A Emma quis jogar a filha na parede pra morrer. Nossa, que cruel, professora! Quem faria isso com uma criança inocente?, a menina que sentava na primeira fileira perguntou. Qualquer pessoa, qualquer mãe. Você ainda não sabe nem entende o peso que é viver, menina. Treze mulheres morrem por dia no país. A maioria é morta em casa e muitas delas por armas de fogo dos próprios companheiros, que a Justiça solta, alegando que apenas defenderam sua honra. Na realidade, não é com Emma Bovary que você deve se preocupar. Andem, abram os cadernos e escrevam uma redação sobre a violência contra a mulher no Brasil. Procurem dados, fotos, vídeos, documentários, vocês têm que acordar de uma vez por todas e perceber o mundo em que estão vivendo.
Se prepare para uma história realista, cruel, sangrenta e com base nas relações familiares que muita das vezes estão escondidas por secredos e mistérios que rodam as nossas vidas.
No decorrer desse livro vemos como as pessoas são mudadas pelo meio, em meio ao ódio, violência, a obrigação de se tormar mãe e vivenciar uma nova realidade. Nesse livro vemos como as relações são importantes, uma sobra que segue o caminho de gerações, as quais são unidas pela dor, o abandono e a escuridão que as cerca.
Uma mãe que nega a revelar a paternidade para a filha, uma mãe que tenta preencher as lacunas que foram deixadas e rejeita a maternidade a todo custo. Uma filha que será recebida com raiva e ódio, já sentindo o peso por ser mulher em um mundo machista e estereotipado.
Um livro que mostra uma realidade cruel, uma busca por suas origens e a história de vidas que são marcadas por mudanças.
Três gerações de mulheres estão ligadas por laços familiares, histórias de dor, ódio e conflitos. A avó rejeita completamente seu passado, esconde da filha qualquer informação de seu passado. A filha é uma mãe que não quer ser mãe, luta para cuidar de sua bebê, a contragosto. Pelos olhos dessa mulher, mãe e filha, acompanhamos o drama dessa família, que por tempo demais escondeu o passado, é hora da verdade vir a tona. No quesito técnico este livro nos traz uma prosa madura, se vale de um certo nível de experimentalismo na linguagem, sobretudo na forma como decide conduzir seus diálogos, deixando o texto falar por si só, sem travessão, sem aspas, o contexto é construído de forma tão perfeita que é possível perceber toda entonação e intensidade de cada fala e de cada narração. O texto corre como uma confissão, uma pessoa magoada, um passado dolorido, traumático, uma vida de merda, de cada palavra no texto escorre rancor e ódio. Em nível emocional, o que este livro fez foi me jogar no chão e tirar qualquer força ou vontade de levantar. As palavras podem fazer a gente sentir muitas coisas, mas é quando cortam que elas são melhores. Poucas vezes terminei uma leitura tão arrasado, e o mais incrível é que o final subverte as expectativas de uma tragédia clássica, preferindo apostar no singelo, no agridoce. O problema é que depois de um livro inteiro recebendo chute nas costelas, um final agridoce não é o suficiente pra fazer a gente levantar do chão. A filha primitiva é um acerto de contas entre mães e filhas, mas é também o acerto de contas entre qualquer pessoa e seus familiares. Não acerta as contas com o resto do mundo, porque esse sim não tem final agridoce pra ninguém. Isso aqui é coisa de leitura obrigatória.
"E você, menina, vê se esquece dessa história de pai. Ele também deve ter esquecido que você existe. Senão, tava aqui."
Escrita crua, potente. Que escancara e esfrega na cara do leitor as dores e as vivências tão dramáticas que as personagens experienciam. É possível se relacionar com ambas, a mãe e a filha, de diversas maneiras. Dá pra enxergar nelas nós, as nossas próprias mães, avós, tias. De alguma forma, essa história me lembrar dos livros de Elena Ferrante. A dor e a dor de ser mulher. A dor e a dor de ser mulher pobre, mulher preta, mulher expropriada até a última gotinha de sanidade e ainda assim, mulher que continua resistindo. Um belo nocaute literário.
[3ª leitura do desafio: troquei tempo de tela por tempo de leitura]
A filha primitiva é um livro super bem escrito. A narrativa é extremamente pesada ao abordar maternidade compulsória e abusos nas vidas das mulheres protagonistas sem nome. Há momentos que para mim a personagem principal que narra o livro age como uma psicopata. Talvez as ausências e o passado tenham feito dela assim. Enfim, apesar de ser um livro bem escrito e com uma história no mínimo instigante, a autora peca por criar uma narrativa extremamente breve. Mesmo com a densidade que exala o livro acaba não sendo tão marcante. É um livro que, no meu ponto se vista, não chegou no seu potencial.
"A gente vai parindo devagarzinho, letra por letra, que se não saem ficam encruadas dentro fazendo mal, ferindo a gente feito felpa que entra no dedo. Tem que tirar com agulha, espremer o pus. Dói parir palavras. Dói mais ainda viver com elas dentro."
Que livro sensacional!! Em poucas páginas é possível sentir tudo: agonia, tristeza, empatia, raiva, emoção e desconforto. Três gerações ligadas pelo sangue mas afastadas pela falta de comunicação. Três histórias que poderiam facilmente descrever a realidade de tantas mulheres pelo mundo.
"A ausência de nome, aliás, designa todas as mulheres do livro, como se a sina de uma fosse de fato a das outras. De certa forma, é."
Não me lembro de ter lido nada tão cru sobre a maternidade e senti o impacto sobre isso. O livro é direto, potente. Embora tenha muita maldade nas ações da narradora, é possível sentir também a sua dor, o peso da falta de se ter uma história, de ter a sua própria verdade e em como isso impacta tudo ao redor da vida dela. Uma vida moldada pela mãe, que só quis dar o melhor que podia. O futuro que ela mesma não teve a chance de conquistar. E no fim das contas, tudo o que ela mais queria era escrever, colocar pra fora tudo aquilo que sufocava.
Achei o final em si muito emocionante e terminei de ler chorando. Senti que no fim, a narradora, ao conhecer a história da mãe, conseguiu sentir a dor que ela também passou, o peso de ser mulher em um mundo tão cruel. E ainda assim, a dificuldade de dar afeto em uma relação que foi construída e moldada pela raiva e pela distância. A identificação com histórias reais próximas à mim aqui foi imediata.
É revigorante ler um livro brasileiro cru, em carne viva e sem medo da possibilidade de um horror objetivo e cotidiano. Mais do que tudo, me interessou a linguagem de Vanessa Passos que habilmente evita clichês poéticos, com as constantes sinestesias e metáforas tão onipresentes em nossa literatura e que, particularmente, têm me cansado esses tempos. É o peso de se escrever no mesmo país de gigantes como Clarice e Guimarães Rosa, nossas palavras muitas vezes se perdem em suas sombras e esquecemos que esse também é o país de Graciliano Ramos e que, às vezes, a objetividade dura da qual nossa língua também é capaz, pode ser a forma mais eficaz de se contar uma história igualmente dura. Filha primitiva é um retrato tríplice, as três personagens centrais são ao mesmo tempo uma, sem nome e sem passado, desenrolando os fios de seus destinos amargos. A história é sobre maternidades, porém não em aspectos idealizados ou alegres, essas são desagradáveis, cruéis, sofridas. Os afagos são raros, os escarros constantes e ainda assim, inteiramente relevantes num país que ainda luta para reconhecer suas desigualdades.
Acho que esse livro foi menos sobre maternidade e mais sobre identidade. Foi mais explorado quem ela é e a necessidade de saber mais sobre sua origem, a relação com a sua mãe e a relação com os homens da sua vida (os únicos nomeados). Não vi tanto a relação com a menina ou a relação da mãe com ela. Mas foi uma história legal, para se refletir.
gostei muito mesmo! queria muito que ele fosse um pouquinho maior porque acho que daria pra aprofundar ainda mais as relações com a maternidade das personagens. o livro prende muito e a escrita é linda demais (e a narração da audible está maravilhosa, traz muita personalidade pro livro) <3
Avó, mãe e filha. Três mulheres unidas - ou talvez desunidas, afastadas - pela dor e pelo abandono. As dores são enormes, transbordam o papel. A narradora é a mulher do meio, é filha da mãe e é mãe da filha, a menina sem nome. Sem nome estão todas as mulheres da trama, aliás, o que ajuda a caracterizar bem o abandono e a invisibilidade a que estão submetidas. Apenas os homens têm direto a um nome nessa história que Vanessa Passos escreveu de uma maneira crua e arrebatadora. Quem lê sabe que personagem boa é aquela de quem a gente consegue sentir amor e ódio, ter empatia e raiva. Tá aí um exemplo perfeito pra isso: a narradora busca a identidade do pai desconhecido, ao mesmo tempo que cria sua filha sem pai; ela xinga a mãe, ela destrata a filha - e embora a gente veja a crueldade dessas ações, a gente sente as dores dessa mulher. O que justifica nossos sentimentos? O que nos move na vida? “A filha primitiva” é uma história sensacional que, se você ainda não conhece, deve muito conhecer. Não é à toa que tanta gente indica o livro. Mais ainda, é merecidíssimo ter levado o Prêmio Kindle de 2021. Leiam e me contem!
Poucos são os livros que apresentam a maternidade por uma perspectiva tão dilacerante. A maternidade do nó da garganta e do desejo de aniquilação. Que nasce da raiva e passa de geração em geração, seguindo o fluxo da própria violência que a circunda. A maternidade que a sociedade teima em esconder, em camuflar com discursos belos, em esvaziar de tudo o que pulsa em sua natureza. Vanessa Passos escancara suas dores e, para que elas não encontrem morada em qualquer um, mas sim se multiplique em todos nós, não dá nome às suas personagens. Sua protagonista nasce da ruína da maternidade e encontra na literatura mais do que um refúgio. Ela é cúmplice e ao mesmo tempo um "outro" capaz compreendê-la como nenhum outro. Três mulheres ligadas pela biologia, mas também pela raiva que as molda como criaturas nessa sociedade que as oprime, de formas bem diferentes, mas igualmente ameaçadora. "A filha primitiva" merece uma leitura atenta. Merece que o leitor se deixe atravessar pelo seu discurso potente, que carrega tantas vozes. "A filha primitiva" é uma leitura essencial, um livro impossível de deixar de lado, que convida para um mergulho intenso.
É uma escrita ansiosa acompanhada de uma leitura também agoniada. São personagens sem nomes. Se todo livro seria um livro de memórias, esse aqui são tão coletivas quanto podem ser.
"Minha mãe é uma daquelas personagens que a gente odeia e, ainda assim, não consegue deixar de acompanhar. À primeira vista, uma pessoa simples, negra, analfabeta, trabalhava em casa de família, sem muitos anseios e pretensões. Morava há mais de vinte anos no Conjunto Palmeiras e cozinhava como ninguém. Olhando assim dava até pra sentir pena dela, mas na literatura e na vida nada é o que parece. Essa mesma mulher que chamo de mãe me escondia a vida toda a minha origem."
É uma história curta, mas que te pega de jeito e tem momentos pesados. Uma filha tentando entender a mãe e descobrir sua origem, resgatar um passado que a mãe teima em esconder. Um retrato bruto da maternidade, da pobreza, de servir os outros, de ser abusada, de ser mulher num país machista. A mãe se apega à religião e à neta e sonha em ver a filha ser doutora, enquanto a filha tenta escrever e conciliar o trabalho de professora, o mestrado, a maternidade e essa inquietude de não saber de onde vem. Ela narra com uma honestidade quase cruel e por isso é uma narrativa tão instigante, seus traumas são visíveis e doem na gente. São personagens sem nome vivendo vidas comuns. Mulheres deprimidas, exaustas, que poderiam ser uma conhecida, uma vizinha, uma colega de trabalho. Poderiam ser qualquer uma de nós.
acho que nem a boa escrita e o tema (amo livro sobre trauma geracional & maternidade não romantizada) me fizeram ter apegado à história. os personagens são bastante complexos e a principal tem uma personalidade um tanto quanto ácida e amarga e que te faz ter raiva; e eu entendi o porquê, mas acho que por ser muito breve você não tem nem a chance de criar um vínculo com ela. é tudo muito triste, três vidas muito trágicas e três gerações marcadas por traumas muito parecidos, mas eu senti que foi tudo jogado de uma forma muito rasa, tipo “é isso aqui bastante triste e tá ótimo”. no final, não curti tanto.
Acho que perdi o bonde desse livro, não sei. A combinação 1) mulheres protagonistas; 2) ancestralidade; 3) violência de gênero; 4) maternidade; 5) religião; 6) história ambientada no Nordeste é quase uma receita para capturar minha atenção, mas o livro não me fisgou.
O enredo e as personagens padeceram de algo que as tornasse únicas. Senti que estava lendo sobre arquétipos, que os personagens representavam arquétipos no aspecto mais geral que poderiam ter.
Sim, o livro é premiado, tem um prefácio escrito por Natália Timerman. Mas não ressoou aqui.
Um livro tão curtinho e com tanta coisa dentro. Tão curto e tão brutal. Tomei tanto soco na boca do estômago que vou precisar de um tempo para me recuperar. Impossível ler sem não ficar mexida. Favoritado, agora vou ali no canto chorar.
Um livro sobre maternidade e linguagem, se é que esses temos podem ser separados. A história de 3 gerações de mulheres não nomeadas se repete, mas sempre de maneira diferente. A crueza da escrita de Vanessa Passos é impressionante. Bom livro!
A filha primitiva, vencedora do Prêmio Kindle 2021, é um livro em formato de verdadeiro "soco no estômago". A obra não busca ser agradável ou embelezar a realidade, mas sim escancarar feridas abertas da nossa sociedade.
A leitura é extremamente relevante, pois traz reflexões profundas sobre recortes sociais, raciais, maternidade e diferentes perspectivas de vida. A narrativa não se preocupa em ser "bela", mas sim em ser verdadeira, mostrando com dureza e sensibilidade situações que muitas vezes são silenciadas.
Apesar de ser curto, não é uma obra que conseguimos facilmente terminar em um único dia ou em poucas horas. Seu conteúdo é denso, forte, impactante, e muitas vezes exige pausas para respirar e assimilar o que foi lido.
No centro da narrativa estão avó, mãe e filha... Três gerações unidas e, ao mesmo tempo, marcadas pela dor do abandono. É nesse entrelaçar de experiências que a obra ganha ainda mais profundidade, revelando como feridas do passado ecoam no presente e moldam o futuro.
O impacto da obra está justamente em nos obrigar a encarar de frente essas realidades, aquelas que preferimos ignorar, mas que moldam a vida de tantas pessoas. É um livro que incomoda, que cutuca e que transforma, deixando marcas muito além da última página.
• SPOILERS | Quotes, Notes & Highlights •
"E você, menina, vê se esquece dessa história de pai. Ele também deve ter esquecido que você existe. Senão, tava aqui."
"A gente vai parindo devagarzinho, letra por letra, que se não saem ficam encruadas dentro fazendo mal, ferindo a gente feito felpa que entra no dedo. Tem que tirar com agulha, espremer o pus. Dói parir palavras. Dói mais ainda viver com elas dentro."
"A ausência de nome, aliás, designa todas as mulheres do livro, como se a sina de uma fosse de fato a das outras. De certa forma, é."
"Minha mãe é uma daquelas personagens que a gente odeia e, ainda assim, não consegue deixar de acompanhar. À primeira vista, uma pessoa simples, negra, analfabeta, trabalhava em casa de família, sem muitos anseios e pretensões. Morava há mais de vinte anos no Conjunto Palmeiras e cozinhava como ninguém. Olhando assim dava até pra sentir pena dela, mas na literatura e na vida nada é o que parece. Essa mesma mulher que chamo de mãe me escondia a vida toda a minha origem."
"(...) todo mundo tem que se apegar a alguma coisa pra continuar vivendo."
"Chorei sozinha, constatando que a minha vida era um inventário de perdas"
"Logo percebemos que, às vezes, ter uma história também é um privilégio de classe e gênero."
"Um nome não é nada. Não é endereço, telefone, não diz como e onde encontrar a pessoa."