Nicolas, um jovem psiquiatra francês, é convidado para trabalhar na Suíça logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Junto da esposa Anna, ele se muda para um pequeno vilarejo, próximo ao hospital psiquiátrico onde vai trabalhar. O lugar, conhecido por seus métodos humanizados de tratamento, recebe internos de toda a Europa.
Resistindo a prescrever tratamentos como o eletrochoque, Nicolas conversa com seus pacientes até que algo seja descoberto – tanto no inconsciente do doente quanto no do próprio médico. Assim, diversas feridas de guerra vêm à tona, em um jogo delicado que mistura confiança e loucura.
Tendo como pano de fundo o contexto de desenvolvimento das primeiras drogas contra a depressão e outras doenças psíquicas, Antônio Xerxenesky constrói um romance tocante sobre os traumas, o passado e a possibilidade de ser feliz apesar do sofrimento.
"Uma tristeza infinita dá ao leitor de Antônio Xerxenesky a impressão de que ele vinha se preparando desde sempre para escrever este romance. Depois de incursões por diversos gêneros narrativos, ele nos brinda com sua obra mais densa e angustiante, um romance de ideias gelado e cristalino como os alpes suíços que o emolduram, no qual um jovem psiquiatra confronta os demônios da culpa histórica e busca conciliar seu materialismo com uma espiritualidade que avança como um espectro surgido da floresta. Saímos do livro com a sensação de que a tristeza é, na verdade quase infinita. No embate entre o caos da vida e o intelecto, surgem, no fim das contas, as centelhas da transcendência e do afeto." – Daniel Galera
"Quando a razão científica não consegue aplacar as dúvidas, o que resta a um psiquiatra cético e sensível, tratando pacientes logo após a Segunda Guerra Mundial? A melancolia deste livro atinge também o leitor que, tantos anos e tanta farmacologia depois, ainda não tem as respostas. Um romance que nos coloca em estado de iminência: da fé, do amor e do autoconhecimento." – Noemi Jaffe
Antônio Xerxenesky nasceu em 1984, em Porto Alegre, e radicou-se em São Paulo. Escritor e tradutor, é autor, dentre outros, dos romances "Uma tristeza infinita" (2021), "As perguntas" (2017) e "F" (2014, finalista do Prêmio São Paulo e primeira seleção do Prix Médicis Étranger). Sua obra foi traduzida para francês, italiano e espanhol. Xerxenesky foi escritor residente do International Writing Program, na Universidade de Iowa (Estados Unidos), em 2015, e da Fondation Jan Michalski, em Montricher (Suíça), em 2017.
"A imensa maioria da população apoiou Hitler e todos seus correligionários. Claro, ninguém o elegeu para invadir a Polônia do dia para a noite. Mas todos os seus eleitores sabiam muito bem das posturas racistas e antissemitas de Hitler, afinal, ele nunca tentou escondê-las. Pelo contrário, foi alçado ao poder proclamando seu racismo em qualquer cervejaria. Os alemães não apenas aceitavam isso, como adoravam aquele discurso".
Sou sempre suspeito para falar - o Xerxenesky tem sido ao longo dos anos um autor que me inspira e um amigo que me incentiva - mas posso afirmar, sem culpa, que é o melhor livro dele. Xerxenesky faz de um enredo sobre o efeito no trabalho de um psicólogo em um sanatório suiço causado pela descoberta dos antipsicóticos nos anos 50, um diálogo com o momento social e político em que nos encontramos, e sobre o dia seguinte, o pós-trauma, os dilemas éticos em ter que conviver com quem apoiou a barbárie.
1. Melhor livro do Xerxenesky. Não é mero marketing quando dizem que todos os seus livros anteriores o trouxeram até esse.
2. O romance se passa em 1953, na rabeira do fim da Segunda Guerra Mundial, enquanto o mundo decidia o que fazer com seus cacos e com o imenso vazio deixado pela constatação de que alguém com os ideais sombrios de Hitler tenha recebido tamanho apoio da população e de empresas e alcançado imensa popularidade... E isso num país como a Alemanha. (Não, ele não era super inteligente e carismático como acostumou-se dizer para amenizar a culpa dos apoiadores).
3. O que fazer no "dia seguinte" à guerra? Como encontrar uma pessoa na fila da padaria, seu antigo vizinho, cliente, sabendo que ela havia apoiado o nazismo e tratá-la com neutralidade? Sim, esse é um livro que dialoga muito com o Brasil atual e que lança algumas questões para o Brasil pós-Bolsonaro (que eu torço para existir a partir de 2022, no máximo).
4. Mas o livro não é somente sobre isso. Na verdade, o livro me parece ser sobre o vazio, sobre a "tristeza infinita". O protagonista é um psiquiatra que é contra tratamentos abusivos como o eletrochoque e vai trabalhar com pacientes nesse pequeno vilarejo suíço acreditando que conversar com eles (terapia!) possa ajudar na melhora.
5. Todos os pacientes tangenciam de alguma forma o dano causado pela guerra na psiquê coletiva. Mesmo que de forma a mascarar outros problemas. Culpa parece ser um elemento fundamental por boa parte do romance, até que a ausência de culpa assume. Nicolas, o psiquiatra, acredita poder entender em parte esse vazio e oferecer algum tipo de melhora para devolver os pacientes a uma vida em sociedade.
6. Com o desenrolar da trama, percebemos que Nicolas também tem o seu próprio vazio para lidar, uma melancolia (depressão era chamada de melancolia até então) cujas origens são explicadas no decorrer da trama. A vida pessoal de Nicolas dá uma dimensão complexa ao personagem e ajuda a equilibrar seus momentos com os pacientes. Sua esposa Anna, que de início está lá só para tabelar com ele, vai ganhando certa profundidade também. Ela oferece um olhar de fora da psicanálise.
7. Existe um flerte sutil com o sobrenatural para ajudar na quebra de pertencimento, nessa sensação de um mal maior e de difícil explicação cercando alguém de um jeito claustrofóbico.
8. O mais legal pra mim, porém, foi o jeito como o Xerxenesky consegue concatenar ideias de várias áreas distintas - física, artes plásticas, psicanálise - em torno do seu estudo do tema. Há vazio entre os átomos, há vazio no conhecimento a respeito da mente humana, há um vazio, uma distância, na experiência de fruição diante de obras abstratas. E por aí vai. E tudo se encaixa, tudo tem um motivo. Realmente muito bom.
9. Vale lembrar que Einstein e Freud nasceram de família judaica e que suas teorias estavam revolucionando o mundo à época. Como logo a indústria farmacêutica também o faria. Mais um ponto de coesão.
10. Resumindo: - Responsabilidade e culpa pós Segunda Guerra Mundial. - Resultado do interesse do autor por epidemia de saúde mental. - Bom para pensar a ascensão fascista no Brasil e o que faremos com seu lastro. - Assim como os testes de Rorschach, abre para os leitores possibilidades de diferentes interpretações.
11. Se você é fã de psicanálise ou simplesmente de boa literatura, cai dentro, porque é um livraço.
Qual é afinal o limite do que consideramos loucura? O que podemos fazer e quais os seus limites na busca da cura para a doença mental? Devemos ajudar os que fizeram o mal?
António Xerxenesky explora neste seu romance os traumas penosos da II Guerra Mundial, escrevendo um drama psicológico no meio das ruinas (físicas, mentais e sociais) com que o pós-guerra teve que lidar.
Com uma intensidade em crescendo, em que os diálogos bem construídos são o instrumento base da narrativa, o autor prende o leitor numa teia melancólica em que as descrições do território helvético são um dos insturmentos. Referências diversas em relação as ciências "psi" (Freud, Jung, mas também Frankl), à cultura do centro da Europa (Robert Walser, é uma personagem a meio do livro) adensam o romance e tornam o mesmo numa interessante leitura.
Um dos debates mais prementes do livro está relacionado com os limites e as mudanças da terapêutica na saúde mental, em especial com a intensa crítica a praticas como eletrochoques ou a lobotomia. Mas é tambem um livros em que se fala da descoberta fulgurante de uma nova geração de medicação antipsicotica, e do desenvolvimento e implementação da psicanálise e dos vários tipos de psicoterapia.
"Uma tristeza infinita" é um livro tocante sobre a saúde mental e a necessidade que cada um de nós tem de se (re)conhecer. Xerxenesky problematiza esse olhar sobre o que é ser humano. E presenteia-nos com uma tensa história que, por um lado, envolve uma relação e um amor ternurento e cheio de entrega; por outro, o crescente desencontro do protagonista com a sua profissão.
Foi, por estas razões, uma maravilhosa leitura este livro. Agora esperemos que seja editado em Portugal. O meu exemplar foi comprado na Livraria da Travessa de Lisboa.
O melhor do autor que li até agora. Até parece que os dois anteriores serviram como preparação para este (a parte mais ensaística de “F”, o sobrenatural em “As Perguntas”). Pelo menos uns três tapas muito bem dados recebi na leitura. Lembrou, tematicamente, dois outros contemporâneos brasileiros que eu gostei na época (mas cujas ressalvas só aumentaram com o tempo) e EMPALIDECERAM DE VEZ quando comparados com este livro. É esquisito dizer que estou feliz pela leitura, especialmente me sentindo triste pra burro, mas tem que ter uma acepção de “feliz” que descreva bem o gozo estético e literário após a leitura de um livro dos BONS, né? É isso, repetindo (e deixando claro que li tudo dele, inclusive “Entre”): o melhor do autor, Antonio em seu auge. *emoji de aplauso*
3.5. Newly arrived to a small Swiss village at the foot of the Alps, Nicholas, a psychiatrist, and his wife, Anna, a scientific journalist, managed to make it through WWII physically unscathed, but not without lasting damage to Nicholas’s psyche and their marriage. It’s now 1953 and while working at the village sanatorium, Nicholas employs talking therapy with patients who witnessed the horrors of the war in one way or another. As his own melancholia begins to worsen, Nicholas debates with his colleagues and his wife the benefits of newly discovered antipsychotics vs. talking therapy, a deterministic universe vs. one related to chance, and religion vs. science.
I started out loving this, it’s very readable and the prose flowed smoothly. But then, if this is possible, it became almost *too* readable, requiring little effort from the reader. Adding to this feeling was the anachronistic dialogue and the way the characters talked about these ideas and opinions, particularly around WW2 and fascism, that we’re meant to believe are from 70+ years ago. They were wholly modern and out of place, becoming heavy handed wink, wink, nudge, nudge’s from the author, not the characters, about the way history repeats itself with the rise of fascism across the world and in the author’s home country. It lacked a subtlety and sophistication, as if he didn’t trust the reader to be able to draw these parallels on their own.
A mixed bag, but I’d love to read more from this author as there was writing here that I really enjoyed.
We're all so sad, so terribly sad, and we're immersed in this infinite sadness, a cosmic sadness, the size of the universe or of the empty space inside an atom, and he thought that at least he was in Switzerland now, he was in a neutral country, a country immune to history, and that now he was free, now history no longer pursued him, Switzerland was ahistoric, temporal, isolated, armour-plated, and he couldn't see how naive he still was, how utterly, stupidly naive.
An Infinite Sadness (2025) is Daniel Hahn's translation of Uma tristeza infinita (2021) by Antônio Xerxenesky.
The novel is set in the early 1950s in a small village in the Swiss alps, home of a sanitorium that currently mainly treats those with mental illnesses triggered by the recent world war. The novel is centered on Nicholas, a doctor at the clinic. From a Jewish background he successfully hid this during the war, which he spent in the Vichy France. His wife Anna, a translator, finds a role in Geneva working with a nuclear research institution.
The novel explores, through Nicholas's practice, the stories of those impacted by the conflict and the emerging understanding and practice of treating their conditions - chlorpromazine becomes available as the story evolves. But it also becomes clear that Nicholas is suffering from what would be labelled then as melancholia, and has his own traumas.
He looked at his wife and thought, this is reality, the world is not inside my brain, she exists, she is another person, I feel the gravel crumbling beneath my feet, the world exists, I am here, and historic sadness exists, the deep sadness of those who have seen the horror just inches away, of those who have learned that their neighbour might be their torturer, and I am here and I know all the rational reasons to be horribly sad, and I need to find something irrational to cling on to, I need to find the dark matter in the universe that is dragging at the celestial bodies, and I am here, even if I don't know the reason, even if I don't know for how long, even if I might die tomorrow and everything will stop existing, and my body will be cremated or buried and I will go back to being a part of indifferent nature.
Anna's role also enables the couple - and the novel - to explore the relative sciences of psychology and nuclear physics, and their artistic interests also bring in the work of artists such as Pollock and Barnett Newman.
This is a book that tends to spell things out, rather than leave the reader to infer what author/historical figure/painting is referred to - which makes for an easier read but for me a diminshed experience. As an example, a visiting doctor tells Nicholas: Over in Herisau, the new doctor said, he'd supervised a patient who had been a writer up until he was hospitalised, a peaceful sort of fellow with sad eyes who was given to long walks.. If it isn’t already obvious who that writer/patient is then the next paragraph refers to their tiny handwriting, illegible to anyone but himself, so that he might tell an entire story on a rectangle of eight centimetres by four - it doesn't really seem necessary to confirm a few pages later that it is indeed Robert Walser, although this does allow Nicholas and his wife to read and discuss Geschwister Tanner. Or in another case there is reference to “He, the Serbian boy who went down in history, was 19 years old”- again no need to tell us some lines later who that is.
I came to this book with perhaps too high expectations - that the author had written on Thomas Bernhard one reason (https://blogdoims.com.br/thomas-bernh...) although the novel is closer in style and tone to his "gloomy disciple" (per Adam Ehrlich Sachs) Sebald, but, as noted above, without his subtle erudition. It also feels a little off - and the author does acknowledge this in an afterword - to comment on Switzerland (and Swiss neutrality) having spent only limited time there on a writer's residency.
So a 'not quite what I'd hoped for' reluctant 3 stars.
Alguns acontecimentos do livro não fecham, parecem soltos demais. Para uma narrativa que se propõe a ser coerente e com muitos dados científicos e históricos há peças que näo se encaixam e outras soltas, perdidas. Eu até achei que tudo poderia ser um delírio do protagonista. Mas não, é só uma história mal contada.
É um livro interessante sobre a psiquiatria depois da segunda guerra, a descoberta de antidepressivos e como a melancolia do paciente pode se abater sobre o médico.
Fazia tempo que eu não sentia que um livro me fazia companhia. E a companhia melancólica de Nicolas não era exatamente o que eu gostaria, mas foi o que eu tive. Que encruzilhada angustiante e maravilhosa de política, fascismo, medicina e ciências.
Sério. Um livro com uma história bem contada, sem truques, aem mirabolâncias, sem metáforas exaustivas. Uma história, um dilema e a tristeza, a ferida do holocausto, a ferida de termos como humanidade aceitado o nazismo e como se lida com isso.
Eu não conhecia esse autor, mas lendo a sinopse achei interessante a premissa - fora que o título me chamou atenção, porque eu já gosto de um drama. O livro tem um narrador em terceira pessoa que conta a história de Nicolas, um psicanalista que trabalha numa vila afastada na Suíça, numa clínica psiquiátrica famosa por não empregar métodos invasivos em seus pacientes, a grande maioria traumatizados pela segunda guerra mundial. O plano de fundo dos anos 50 é interessante, porque traz elementos iniciais da psicanálise, da guerra, da ética médica e de religião. Além disso, o próprio Nicolas se percebe entrando num estado de melancolia característico de seus pacientes, o que gera muitos conflitos internos, impactos no seu relacionamento e no rendimento clínico. Mas, no geral, o livro é devagar. Achei que tem muitas provocações interessantes, mas não há um desfecho, uma conclusão. Gostei de matar a saudade de discussões psicanalíticas, mas além disso, esperava mais.
Newly arrived to a Swiss village at the foothills of the Alps in 1953, Nicholas, a psychiatrist, and his wife, Anna, a scientific journalist, have made it through the Second World War physically unscathed, but the mental toll the war has taken is much greater. Working at the village sanatorium, Nicholas employs talking therapy with patients who witnessed the horrors of the war in one way or another, but his own melancholia begins to deteriorate.
Though this may seem complex material on the surface, psychiatry and philosophical debates on the use of antipsychotics, and on religion versus science, it absolutely isn’t. It’s brilliantly written and a pleasure to read from start to finish.
Though only similar in the most tenuous of ways, it reminds of the excellent American short drama series, Shrinking.
Cheguei ao livro um tanto curioso pra saber como ele ia ser. Tristeza Infinita era um livro que diziam ser muito diferente daquilo que o Xerxenesky já tinha escrito. Vi até um amigo dizendo que não tinha gostado porque parecia com um livro Sebald: bom, bem recebido pela “crítica”, mas, em último caso, chato. Mas tenho que dizer que gostei muito. Senti qualquer coisa menos tédio enquanto lia (e garanto a qualquer leitor dos outros livros do Xerxenesky que – principalmente a segunda metade – ainda tem um pé e tanto no terror), ao mesmo tempo que a estrutura um pouco mais difusa – a contracapa fala de um romance de ideias - consegue criar um universo de detalhes, de pequenas histórias que poderiam ser por si só contos ou até mesmo outros romances. Por exemplo, a história que ocupa apenas um parágrafo em que ao chegar em seu apartamento em Vichy, Nicolas se depara com a porta de um vizinho aberta, revelando que o lugar havia sido remexido por inteiro mas ninguém mais estava lá. O próprio romance pergunta diretamente ao leitor neste momento: "O que você faz diante de uma cena dessas? O que Nicolas fez?".
Mas talvez a associação entre o Tristeza Infinita e o Sebald feita por esse meu amigo não seja por um ritmo do texto, mas pelo tema e pela localização da história. Talvez tenha a ver também com a fotografia preta e branca reproduzida no fim do livro; talvez o tema dessa Europa traumatizada pela guerra e pelo fascismo seja um ponto que aproximou os dois. Ou até mesmo o papel central que o ato de caminhar, de andar às vezes meio sem rumo, tem nos dois autores. Mas pra mim, o que marca essa associação – com um sinal positivo – é essa sensação de que há todo um mundo de papel sendo construído de frase em frase. Sinto que Tristeza Infinita é um daqueles livros que daqui a um tempo vou pensar nos personagens com certa saudade. Não só as personagens, mas o próprio cenário (talvez ajudado pela fotografia no fim do livro) é muito mais real na minha mente do que alguns lugares em que estive.
Esta vida própria do livro, eu consigo sentir tanto no Nicolas, o psiquiatra freudiano angustiado que nos acompanha pela maioria do romance, mas talvez principalmente nas várias personagens de internados do hospital que volta e meia assumem a voz narrativa. O modo de narrar de cada uma delas reflete a história que os levou ao hospital e os sintomas que acabaram por desenvolver, até mesmo a recusa em se comunicar de um dos internados é muito bem explorada. Só no caso da Anna, esposa de Nicolas que ao longo da história começa a trabalhar como uma jornalista no CERN e desenvolve uma paixão pela física e pela astronomia, pensei que o arco dela ao longo da história poderia ser mais desenvolvido, embora a distância que vai se formando no casal seja um dos motivos da angústia de Nicolas.
Fico pensando nessa decisão de ambientar o livro em 1951, na Suíça do pós segunda guerra. Não consigo deixar de pensar que há muito de Brasil 2020 e 2021 na forma como as memórias traumáticas das personagens são narradas, e na maneira como elas se lembram da vida sob o fascismo. Me vem à mente agora aquilo que há de culpa em Nicolas, que “sobrevivera à França ocupada com silêncio e descrição”.
No entanto, acho que o motivo definitivo do livro se passar onde se passa, gira em torno de uma certa sensação de estranhamento em relação aos medicamentos psiquiátricos que, nesse momento e nessa localização começavam a surgir e a se tornar cada vez mais centrais nos tratamentos psíquicos. O exemplo do RP-4560, o líquido transparente e quase sem nome que surge na narrativa quase como um susto e que, tal como uma poção mágica, promete mudar a forma como são tratados os pacientes dos hospitais psiquiátricos.
Há um jogo interessante de refletir sobre a maneira como vemos o mundo dos tratamentos psiquiátricos e como enxergamos a própria tristeza hoje. Ao situar o romance em um mundo em que a clorpromazina, os remédios antipsicóticos ou até mesmo os antidepressivos (“antimelancólicos, ou os antidepressivos, não faço ideia de como o chamariam”) não fazem parte do cotidiano, há quase um desejo de imaginar como tudo poderia ser de outra forma. Algo que ressoa bastante com aquilo que Mark Fischer vinha falando sobre a depressão, sobre o mundo e sobre o realismo capitalista.
Recomendo para todos aqueles que já olharam no espelho e começaram a medir a tristeza no rosto, sem nunca conseguir saber muito bem em que momento alguém se torna “oficialmente melancólica”.
P.S: Fiquei sabendo pela live de lançamento que o livro teve vários cortes durante o processo de edição. Quero Tristeza Infinita REDUX – Xerxenesky’s cut. O livro tem 251 páginas, mas se tivesse 500 continuaria feliz.
Apenas como uma nota final: contei para minha namorada psicanalista sobre o enredo do livro e a única reação dela foi ficar em choque com ideia da personagem principal não fazer terapia. Talvez este seja uma daquelas histórias que poderia se encaixar no meme/tirinha: “e se tal personagem fizesse terapia?”
"...o mundo existe, eu estou aqui, e existe a tristeza histórica, a tristeza profunda de quem viu o horror a menos de um palmo de distância, de quem descobriu que o vizinho pode ser o torturador, e estou aqui e conheço todos os motivos racionais para ser horrivelmente triste, e preciso encontrar algo irracional a que me agarrar, preciso encontrar a matéria escura no universo que arrasta os corpos celestes, e eu estou aqui, embora não saiba o motivo, embora não saiba por quanto tempinho, embora eu possa morrer amanhã e tudo deixará de existir, e meu corpo será cremado ou enterrado e eu voltarei a ser parte da natureza indiferente."
É engraçado ler uma obra de autor que você conhece pessoalmente, alguém que já tomou um café com você e que já escreveu sobre seu próprio trabalho. É engraçado também encontrar semelhanças gritantes com o personagem principal dessa obra além do primeiro nome.
Antônio, caso você leia minha humilde review... saiba que to ansioso pra um próximo cafézinho.
excelente! resolvi ler porque o Antônio está sendo meu (ótimo) professor num curso de teoria crítica. o livro também é um livro meio professoral, no melhor sentido: apresenta e explica diversas ideias e teorias de uma maneira natural, incorporando-as ao tecido do romance. adorei as referências ao Heschel, e toda discussão de razão x religião e busca por sentido sempre vai me puxar completamente.
Cinco estrelas merecidas demais. Uma obra de ficção tão realista, que em alguns momentos senti que estava lendo história real, de pessoas reais. Belas passagens e citações, e a abordagem dos grandes males do mundo: ansiedade, depressão e melancolia. Que atinge a todos indistintamente de classe social, cor, sexo, preferências, etc. A certeza de que carregamos conosco um pouco de tudo, mesmo que sem sintomas externos. Faz muito bem ler algo bem fundamentado e não técnico sobre esses assuntos. Gostei muito do livro e do texto, prende pelo interesse, e cria "ansiedade" enorme... Recomendo muito.
4.5 Gostei bastante desse livro. Tive que ler e reler algumas partes pra refletir e acompanhar o que o personagem estava pensando e experienciando. A historia é bem filosofica e traz muita coisa relevante pra esse momento atual. Acabei o livro e fiquei com pouco da tristeza infinita e das duvidas do Nicolas.
Uma história de 1951 - e não sobre os anos 1950, uma diferença fundamental - acompanha Nicolas por um ano. Sua prática psiquiátrica, seu casamento com Anna, seus pacientes, seus colegas. O que o leitor não tem acesso é a Nicolas, a *sua* pessoa. Talvez por isso a historia tenha um tom de narrativa policial, uma atmosfera não de suspense propriamente dita, mas um ritmo de investigação. E investiga o passado imediato das personagens, da Suíça, e também pondera muitas vezes sobre o futuro.
Não sei se é propriamente um romance de ideias. Sendo judia, alguns fragmentos contados apenas como fragmentos estão morando na minha mente. E sempre com muita elegancia, um ritmo gostoso e com momentos bem dosados de fatos e peso. Portbou, Walser, Pollock, Kurosawa. No fim o que fica não são as andanças meio Thomas Mann, que se propõe a respostas. É a execução do sonho de qualquer aficcionada por literatura porque põe seus escritores favoritos no divã, no exame da própria ficção; é a execução da penitencia de todo judeu ateu porque se converte de todo coração; é a execução de de um livro delicado de uma tonelada que não perde a graça. É só um bom romance.
Recomendo muito a leitura. E dois dias pra deixar tudo se assentar depois.
Um jovem psiquiatra francês trabalha em um manicômio em uma pequena vila suíça. Mora com sua mulher. Não tem filhos e aparentemente não podem tê-los. Ao longo do livro ele tem que lidar com a descrença na possibilidade de cura e em si mesmo, seja como profissional, seja como ser humano. A melancolia que tanto tenta curar nos outros, também vê em si mesmo. Quando Anna, a esposa, vai trabalhar em centro de estudos da Física, as questões das relações tensas entre uma ciência dura e a psicanálise – seria uma ciência? – se apresentam. Isso se mostra quando um remédio promissor para o tratamento da esquizofrenia aparece. Ao mesmo tempo, ele tem que lidar com pacientes, alguns dos quais talvez nunca se vejam livres dos seus tormentos. Interessante ver um escritor brasileiro escrevendo sobre algo ambientado em um lugar tão pouco brasileiro, seja no tempo, seja no espaço. De modo geral gostei, mesmo que em alguns momentos algumas coisas soem como leves derrapadas. Me soou estranho quando um médico francês dos anos 1950 diz algo como vamos nessa ou quando uma paciente americana – provavelmente de origem proletária – fala do eurocentrismo. Ele tem pleno domínio da estória e até mesmo o final é coerente com a busca de si mesmo que nunca tenha fim. A respeito disso ele faz uma bela metáfora. Há dois caminhos na vila. Um é tranquilo e por onde todos vão. O outro é apenas uma trilha que o doutor arrisca conhecer: “a cada dia ele avançava mais para dentro da floresta, mas o medo de se perder nunca ia embora, por mais que conhecesse cada vez melhor o terreno”. Não é isso a própria experiência humana de conhecer a si mesmo?
me chamou muita atenção as reflexões quanto a ascensão do nazifascismo na europa. não foi apenas hitler, ou goebbels ou qualquer outro político, líder ou apoiador nazista que levou hitler ao poder, mas um povo inteiro, que, como diz um dos personagens do livro, "precisa lidar com uma culpa estarrecedora. Que eles viram os campos de extermínio e sabem, agora, que apoiaram isso. Sabem a extensão do seu equívoco.". há um certo ressentimento, que pra mim, faz-se extremamente necessário. nenhum líder eleito é eleito sem o povo, e mais do que isso, nenhum líder é mantido no poder, sem o apoio - ou a omissão - também do povo. contudo, a reflexão cabe em outros períodos de outros lugares, mas não se trata de conceber o povo enquanto bode expiatório, mas de podermos examinar nossa culpa, nos reconhecermos como culpados e aprender com isso. me reservo uma certa ignorância aqui, pois não sou historiador e muito menos cientista social.
a obra, no entanto, é cautelosa ao afirmar que "nem todos somos diretamente culpados, mas somos todos responsáveis". é preciso, claro, reconhecer essa culpa e a tragédia em si, mas, em contrapartida, não é preciso perdoar. especialmente quando se trata de tragédias da magnitude da segunda guerra mundial.
talvez o esquecimento seja um componente necessário para o andamento de uma nação, mas talvez o perdão não seja.
adorei esse livro. escrita simples porém poética, cheia de poças interessantes em que o leitor possa mergulhar; em varios momentos parei a leitura para procurar a referencia citada e acho que isso engrandeceu a experiencia e a habilidade descritiva do autor. achei simplesmente genial a ideia que o autor tenta passar, sobre sempre haverem motivos para tristeza, a tristeza é constante, latente e cabe a nós nos agarrar em algo que consiga desviar nossa atenção; sobre as ironias do destino e, consequentemente, os aprendizados que o destino pode convocar: somos todos culpados, alguns responsaveis, mas todos culpados e a culpa é inescapável, inexoravel, alguns convivem melhor com ela, outros não. uma leitura delicada com bastante ternura. o fato de o livro tratar sobre psicanálise foi com certeza um dos motivos do meu interesse pela leitura, que não decepcionou.
It took me a long time to finish this one, not because I didn't like or thought it wasn't good, but because after a few chapters I found myself in a reading slump. Great novel about psychoanalysis, science, the role of religion in humanity, and the long lasting effects of the horrors of wars. I liked Nicolas characters, although I felt annoyed at his demeanor sometimes. I guess that's why it was good: even though he's a psychiatrist, he's just as human as any other person who questions the reasons why we exist. Definitely recommend!