3,5*
Versão portuguesa: "Os Últimos e os Primeiros", edições Ambar, 2002, tradução de António Pescada
Eu não tenho nenhuma esperança, Aleksei Ivánovitch. É preciso fazer tudo; por isso eu o faço.
Nina Berbérova não é Irène Némirovsky, mas ocupa um lugar importante no meu cantinho reservado à literatura de russos expatriados, e não resisto a trazer as obras dela que a defunta Ambar publicou com tanto desvelo, sempre que as encontro em alfarrabistas. Berbérova tem uma escrita bonita e um dom para expor a alma das personagens.
Quem alguma vez esteve ali, quem alguma vez viu esses bairros guardará para sempre no seu coração, nem que seja em segredo, a recordação de uma ofensa e de uma dor sem igual no mundo. E que, nos anos da sua maturidade, da luta e da consciência, passe na memória de Iliá Gorbatóv, o trespasse com a sua ponta aguçada, a recordação dessa manhã de Setembro; e na velhice, quando aparecerem outras recordações, as recordações de uma vida vivida com dificuldades e paixões, e queiram apagar o sonho desse passeio, que não consigam apagá-lo!
“Os últimos e os primeiros” é uma novela um pouco confusa que começa in media res e que é protagonizada por Vera Kiríllovna e a sua família, Vássia, Marianna e Iliá Stepánovitch, filho do primeiro casamento de Gorbátov, o qual permaneceu em Moscovo quando Vera se divorciou dele e decidiu vir para França nos anos 20, como muitos compatriotas seus. Levando uma vida confortável mas trabalhosa como lavradores na Provença, é intenção de Iliá deslocar-se a Paris para chamar tantos refugiados russos quanto possível para trabalharem no campo, numa exploração bem-sucedida de espargos.
Olhem para ele [Iliá], este primeiro dos primeiros – pensava ele. – O primeiro que se afastou do nosso tempo para um outro a que nós não temos acesso. O primeiro daqueles que vivem de outro modo, de um modo diferente daquele que nós vivemos em tempos. Acabou em nós, com eles começa. E entre nós há uma brecha de duas épocas. Se eles são melhores ou piores do que nós, outros julgarão… O tempo estilhaçou-se e ninguém conseguiu perceber o instante em que tudo isso aconteceu, e nós ficámos aqui, neste lado do fosso, eles lá do outro lado.
Iliá simboliza a nova geração, sendo um dos primeiros a optar por uma nova vida no país de acolhimento, enquanto Aleksei Ivánovitch Cháibin, ex-amante da sua madrasta, representa os últimos, aqueles que ainda estão presos ao passado e sem rumo no presente.
Naquele amplo quarto de uma casa camponesa, Cháibin sentiu por um instante essa emoção única, doce e indizível que nos domina ao ficar a sós com a mulher que em tempos amámos louca e apaixonadamente e com a qual nada poderá nunca repetir-se. Cháibin sabia muito acerca de si mesmo, pode-se mesmo dizer que, como homem daquela geração, ele sabia quase tudo acerca de si mesmo. Podia, como muitos deles, ser um pouco a sombra de si próprios.