"Eu, porém, caminhava sem nada ver em meio às ruínas. Eu tinha minhas ruínas, eu tinha meus mortos, e eles me esmagavam (...) A única coisa que me resta são eles, essa imagem pavorosa, essas duas belas crianças infladas pela água, desfiguradas, que ainda conservam em seus rostos lívidos o heroísmo de sua ternura. Olho para eles e choro."
Que surpresa fantástica foi iniciar Émile Zola esse ano! A primeira história desta obra, "A morte de Oliver Bécaille", já havia sido muito boa, com reflexões que tragam o leitor para a mente do personagem, entre seu desespero sobre a morte e o horror da sua não-existência após o minuto final, em contraste com a súplica pela sua chegada, ao se deparar com uma situação da qual será quase impossível escapar.
"Nantas", a segunda história, por outro lado, apesar de oferecer uma leitura fluida e um personagem que é quase uma contraparte de seu antecessor no que diz respeito à maneira como encara a morte, não me foi tão tentadora. Os capítulos transcorreram sem nenhum empecilho, sendo lidos de uma vez só, mas, apesar dessa facilidade, não houve nada de tocante, não me despertou nenhuma emoção além do normal. O final foi, até mesmo, um tanto decepcionante.
Agora, ao meu ver, o grande presente que existe nesta obra é sua última história, "A inundação". Onírica na maneira como os fatos se desenrolam, ela é paradoxalmente real. Durante todo o tempo, fiquei me perguntando se é daquela maneira que as pessoas vítimas de desastres naturais, principalmente nas proporções da inundação descrita nesta história, se sentem ao olharem ao redor e se depararem com a iminência daquela destruição, com a vida de todos por um fio: sem o mínimo de controle, sem a menor escapatória, sem saber se existirá, após tudo isso, uma verdadeira salvação. O final é de partir o coração em mil pedaços.