Uma investigação dos caminhos que a direita percorreu para conquistar o espaço que tem hoje. Em menos de dez anos, a nova direita brasileira saiu de pequenas comunidades nas redes sociais para conquistar o poder. Estudantes, empresários e simpatizantes do liberalismo se aliaram a religiosos, militares e políticos em torno de uma estratégia de choque que desorientou os adversários e resultou na eleição de Jair Bolsonaro.
A pesquisadora Camila Rocha mergulhou no universo particular da nova direita para investigar as raízes desse êxito, com foco na atuação dos "think tanks" pioneiros do pensamento liberal no país. Baseado em entrevistas com representantes das diversas tendências do movimento, a obra analisa as ideias e personagens da onda que sacudiu a política e a sociedade.
Muita gente vai ser afastado do livro por causa do título, mas vale muito a pena. Só faltou explicar a influência dos evangélicos na formatação dessa nova direita.
Não. Este não é um manifesto anticomunista em favor da nova direita brasileira como o título pode eventualmente sugerir. É, na verdade, um “mergulho etnográfico” no amálgama ideológico do ultraliberalismo-conservador de que o bolsonarismo é mero epifenômeno, e não causa ou força motriz, como demonstrará a autora desta tese de doutorado em Ciência Política, agora editada em livro.
Ao levar cabo sua pesquisa, Camila Rocha desvela que a ascensão das ideias e o triunfo eleitoral da nova direita constituem um fenômeno mais orgânico e longevo do que deixam entrever as interpretações mais apressadas ― especialmente aquelas operadas pelas esquerdas ― segundo as quais vivenciamos uma “onda” circunstancial sem origem ou direção definidas, o que nos levaria a equivocada e inevitavelmente prognosticar a aproximação de seu fim.
De fato, as manifestações de 2013, a crise do lulismo, o processo de impeachment e a mobilização política do discurso anticorrupção atuam como elementos catalisadores do processo de desrecalcamento de uma direita até então envergonhada de sua identificação moral com valores propalados pela ditadura militar. Como catalisadores, incidem sobre a velocidade de um processo já em curso, mas são incapazes de lhe conferir lastro e garantir o êxito confirmado pela eleição/nomeação de Witzels, Bolsonaros, Zemas, Guedes, Zambellis, Salles e tantos outros.
De pouco valeria a “fortuna” se não houvesse “virtù”, diagnosticaria Maquiavel. Camila Rocha se ocupa, então, em não apenas reconhecer a “virtù” de um grupo que até bem pouco tempo atrás era visto como formado meramente por zelotas enfraquecidos dos governos militares (porém sem o mesmo potencial disruptivo daqueles a quem prestam tributo), mas também em compreender como se operou a construção de tal “virtù” em um processo de pelo menos quatro décadas, quando encontraremos os primeiros germes do Instituto Liberal, primeiro “think tank” dedicado a fazer ecoar o ideário pró-mercado no Brasil, inaugurado em 1983.
Aqui, já somos capazes de entender porque poucas análises foram capazes de antever o resultado das eleições de 2018: as instâncias de representação da direita estudada pela autora passam ao largo do que se entende como “esfera política tradicional”, cujos principais atores e, por conseguinte, unidades analíticas são os partidos políticos. À direita, as organizações responsáveis por repercutir a liberalização da economia são “think tanks” como o próprio Instituto Liberal e o Mises Brasil, dentre tantos outros, que, via de regra, são mantidos material e intelectualmente por empresários e acadêmicos que buscam não apenas formar ideólogos e ampliar suas possibilidades de influência ante a sociedade civil, como sobretudo assegurar alguma ingerência do que Milton Santos chamaria de “política das empresas” sobre o Estado.
Isso será particularmente visível, dirá a autora, no contexto da Constituinte, quando essas instâncias de representação do que viria a compor o que se entende como “nova direita” ― em intensa interlocução com o PFL ― advogam em favor de uma saída neoliberal nos moldes da trindade Pinochet/ Reagan/ Thatcher, em detrimento das políticas desenvolvimentistas que marcaram a política nacional do século XX e dos gastos estatais os quais asseguram a consolidação dos direitos sociais que darão os contornos da “Constituição Cidadã”. Não é um acaso que, mais tarde, quando ganham fôlego e consolidam suas proposições especialmente a partir de 2016, caracterizem-se essencialmente pela tentativa de romper com o pacto democrático de 1988.
Fato é que neste interlúdio que separa os dois marcos temporais, Rocha logra mapear as vicissitudes dos “think tanks” e seus ecos na sociedade civil, o que envolve uma retração estimulada por reformas de orientação neoliberal, como as privatizações promovidas pelo governo FHC, que deixariam entrever a vitória do ideário neoliberal, e uma existência quase sub-reptícia de sua operação, quando tem início o diálogo com figuras como Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé e Ricardo Sales. Este encolhimento, simultâneo a avanços elementares em termos de direitos humanos ― dentre os quais, importantes conquistas na demarcação de terras indígenas e quilombolas, a aprovação da Lei Maria da Penha, a legislação que criminaliza a homofobia e a instauração da Comissão Nacional da Verdade ― potencializa o discurso que postula a existência de uma “hegemonia cultural da esquerda” no Brasil, o qual, a um só tempo, impediria a ascensão da direita no debate público e despontaria como o elemento capaz de amalgamar e organizar este secto que, em última instância, almeja aniquilar a pretensa “hegemonia”, de que a Constituição seria heurística. Movidos, então, por ressentimento, colonizam a internet e formam as arenas discursivas da nova direita.
O resto da história, vocês conhecem… Mas vale ler cada página deste livro para navegar pelos meandros da atuação das direitas brasileiras e, quem sabe?, municiarmo-nos para a guerra cultural de que o bolsonarismo se alimenta.
Este livro de Camila Rocha explica a ascensão do liberalismo e das novas direitas no Brasil, em um sistema que a autora batizou de ultraliberalismo-conservador. Rsultado de sua tese de doutorado, que foi bastante celebrada e premiada, este livro não tem, como falam alguns de seus detratores uma linguagem de difícil entendimento, muito antes pelo contrário. Camila Rocha traz primeiro, uma genealogoa da direita no Brasil após a redemocratização, os seus flertes com o ultraliberalismo e, por fim sua associação e subsequente tentativa de desassociação com o mesmo movimento. Rocha não usa os termos direita radical, extrema direita, direita alternativa ou alt-right para denominar o fenômeno que surgiu no Brasil com mais força a partir de 2011, mas prefere o uso do temo novas direitas, que pode abrigar todos esses espectros deste sistema de ideias, crenças e modo de reger o Estado. Um livro ótimo que nos ajuda a nos situar e entender como o Brasil se tornou tão reacionário ao longo dos anos, com entrevistas com quem esteve por dentro deste novo jogo político que se estabelece, além de outros grandes insights que a autoria providencia. Recomendo!
Recorte primoroso de toda a trajetória da extrema direita brasileira. Muito bom entender o fenomeno do bolsonarismo como algo muito maior do que se vivenciou a partir do Impeachment da Dilma.
Interessante história dos últimos anos do Brasil, mas... acadêmico *demais*, especialmente no começo. Melhora lá pela página 70, quando deixa de parecer uma tese de doutorado.
O livro Menos Marx, Mais Mises, de Camila Rocha, é uma investigação dos caminhos que a direita brasileira percorreu para conquistar o espaço político que tem na atualidade. A autora, que transformou sua tese de doutorado neste livro, analisa as origens, as ideias, as estratégias e os atores desse movimento que, na época de publicação do livro, em 2021, havia culminado com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.
A pesquisa de Camila Rocha se baseia no acesso privilegiado que ela teve ao Instituto Liberal, fundado em 1983, que é um dos principais centros de difusão do liberalismo no Brasil. A autora entrevistou pessoas importantes na história da direita brasileira e teve livre acesso à documentação do Instituto.
O título do livro faz referência ao slogan "Menos Marx, mais Mises", que sintetiza a adesão do que ela chama de “nova direita” ao liberalismo econômico inspirado em Ludwig von Mises, um dos principais expoentes da Escola Austríaca de economia. Mises fez uma defesa radical do mercado, da propriedade privada, da livre iniciativa e da redução do Estado, contrapondo-se à ideia de Estado de bem-estar social, que se tornou quase hegemônica após a Segunda Guerra Mundial.
O livro começa com uma genealogia dos principais pensadores da direita no pós-guerra e traça o histórico do liberalismo no Brasil desde os anos 70. A autora mostra como a direita brasileira é multifacetada e teve que se articular para formar uma coalizão heterogênea e contraditória, mas eficaz, na disputa pelo poder. Rocha detalha como, a partir de 2006, grupos influenciados pela Escola Austríaca e descontentes com o governo petista começaram a formar uma “nova direita” no país, usando, principalmente, a finada rede social Orkut como plataforma de divulgação e mobilização. O livro também analisa a ascensão de Jair Bolsonaro, entre os anos de 2014 e 2015, e sua relação com o movimente da nova direita, embora conclua que o bolsonarismo é um fenômeno político distinto.
Menos Marx, Mais Mises é um livro essencial para quem quer entender as transformações políticas e ideológicas que ocorreram no Brasil nos últimos anos. Sua boa recepção tanto entre grupos de esquerda e progressistas quanto por pessoas associadas à nova direita mostra que a pesquisa séria ainda é capaz de reverberar entre os diversos espectros políticos do Brasil.
Muito interessante para compreender o cenário político atual do Brasil.
Fui apresentado a informações das quais nunca tinha ouvido falar, me foram esclarecidos conceitos que, embora eu já tivesse lido em outros lugares, sempre estiveram um pouco confusos em minha cabeça e me surpreendi com a influência que muitos nomes, hoje famosos, têm há anos na formação dessa vertente.
É importante destacar que a maior parte das informações são apresentadas muito mais como relatos do que de forma opinativa mas, de qualquer modo, nem creio na possibilidade de qualquer informação ser repassada de forma 100% livre de vieses.
Por fim, gostei da escrita da autora, de modo que a leitura fluiu muito bem.
Livro interessante para entender o surgimento e crescimento da extrema-direita no Brasil, seu trabalho de formiguinha para ser difundida, primeiramente entre a elite econômica, depois entre a elite intelectual e, por fim, entre a população em geral. Descreve seu papel por trás de grandes acontecimentos do país nos últimos anos, culminando com sua aliança ao atual Presidente da República. Nos ajuda a entender uma mudança na sociedade brasileira que não é tão abrupta quanto eu, pelo menos, imaginava e um movimento que plantou suas bases para permanecer entre nós por muito tempo.
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Fundamental para entender a política brasileira das últimas décadas. Traz algumas lições importantes sobre a ascensão da direita no Brasil: - Não é homogênea - Passou décadas em formação - Fez muito trabalho de base
É sobretudo uma arqueologia sobre o movimento político da nova direita, e comprova alguns argumentos aplicados pelo professor Idelber Avelar quando este afirma que a ascensão da direita está conectada ao escamoteamento de conflitos na política brasileira.
Good history of the Brazilian new right, based on first hand sources, like papers, letters and interviews of key right wing activists and organisations. Its shows the conditions that created this heterogenious movement that is constituted of pro free market capitalism conservatives, reactionaries and liberals. Its key finding is that the movement was created organically and not so much a creation of big corporations
o título a princípio pode passar ao desavisado uma outra mensagem, mas essa tese é uma das melhores que já li, tendo em vista a profundidade que ela adentra na formação da Nova Direita no Brasil.