Muito se estudou sobre a escravidão, suas causas e consequências. No entanto, pouco se sabe da importância do escravo como ser participante do contraditório processo de lutas e reajustes que caracterizou o sistema escravista. É como se o escravo não tivesse existido, não tivesse sido sujeito ativo e coletivo do sistema, ou seja, teria sido mero objeto passivo a observar a história... Mas longe de serem uma mancha isolada no processo histórico, as lutas dos escravos, sobretudo as quilombolas, exerceram uma fundamental importância na estrutura social e política do país.
Clóvis Steiger de Assis Moura, better known as Clóvis Moura, was a sociologist, journalist, historian, and writer. In the book Clay of Memory, Clóvis Moura talks about his childhood in the countryside, the Rio Parnaíba and myths of Piaui's folklore, such as the legend of the Cuia de Cabeça. He was influenced by Marxism, having developed the Sociology of Black Praxis. Clovis Moura questioned Gilberto Freyre's view of black passivity in Brazil, highlighting the quilombos' resistance to slavery. In his research he dealt with the slave rebellion and the formation of the quilombos. Drawing on Marx's theory, he analyzed the class struggle in the slave system. For Clovis Moura, Brazilian slave society was subdivided into two antagonistic classes: slaveholders (ruling class) and slaves (dominated class). Slaves produced material goods and wealth while slaveholders owned property and the means of production. After abolition, slaves, despite having produced the riches that underpinned the Brazilian economy, were not entitled to property.
He militated for the Brazilian Communist Party and, in 1962, in the split of the party, migrated to PCdoB. It stood out for its pioneering militancy in the Brazilian black movement. Collaborated with articles for newspapers from Bahia and São Paulo.
Publicado pela primeira vez em 1981 período da ditadura militar. Segundo Moura, os que descreveram a história da escravidão omitiam o protagonismo do negro escravizado no movimento pela liberdade. Omitiam o quão violento foram os escravizadores.
A escravidão negra não foi uma mera categoria econômica substituída pelo proletariado. Foi uma instituição perversa onde seres humanos era transformados em coisas, comercializados e tratados com crueldade inimaginável. Nunca houve passividade do escravo e benevolência dos senhores. A legislação validava a violência repressora investida contra os negros, foi criado milícias, a figura do capitão do mato e construído um arsenal de instrumentos de tortura.
O movimento quilombola, não foi um fenômeno esporádico. Tem importância histórica e social. Palmares chegou a ter 20 mil habitantes, o Quilombo de Campo Grande/MG cerca de 10 mil ou mais. Recebiam os negros que resistiam ao sistema escravista, os oprimidos da sociedade como fugitivos do serviço militar, criminosos, indígenas, mestiços, negros marginalizados. Os quilombolas realizaram de insurreições negras urbanas como o Levante Negro de 1756 em MG a grande insurreição negra dos Malês em 1835 em Salvador.
Se organizavam como uma verdadeira República. Tinham governo, religião, propriedade, família e sistema econômico. Se articulavam com riqueza social e um sistema solidário de cooperação. Havia abundância de frutas, criavam galinhas e porcos e no sistema escravocrata estavam submetidos a privação de alimento, castigos físicos e trabalho exaustivo.
A força policial fazia verdadeiras carnificinas. Interrogavam, matavam, torturavam. A meta era dizimar os líderes e destruir a estrutura dos quilombos Zumbi, Joao Mulungu, Ganga-Zumba, Preto Cosme e vários outros lideraram movimento anti escravista.
Os esforços, as revoluções e a resistência dos negros desde o século XVII ficou a sombra do movimento abolicionista que é tardio, do século XIX, contudo levaram os créditos pela abolição. Abolicionistas eram contra a escravidão, mas não contra o racismo. Descreviam os negros como bárbaros selvagens, incapazes de tomar decisões sobre o próprio destino. Na cara de pau, excluíram o negro como agente histórico de sua liberdade e ainda exploravam o trabalho dos quilombolas em proveito próprio.
Quilombos são polos de resistência que de várias formas e níveis de importância se levantaram contra a escravidão. Clovis Moura ficou me devendo falar mais sobre as mulheres nessas revoluções. Leitura recomendada.