Há uns anos encontrei numa colectânea que reunia vários autores, o poema "E por Vezes" de David Mourão-Ferreira. Despertou-me a curiosidade pelo autor e, passados tantos anos, ainda é um dos meus poemas preferidos entre centenas que já me me passaram pelas mãos. Desta Obra poética podia destacar dezenas, alguns foram ficando nos updates, mas são tantos e tão bonitos que o melhor é lerem o livro.
Para fechar, teria que ser com chave d'ouro.
E por Vezes
"E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se evolam tantos anos"
Estou apaixonada pelos versos de David Mourão Ferreira! Que alegria conhecê-lo aqui no goodreads através de comentários/resenhas de outros leitores.
TERNURA Desvio dos teus ombros o lençol, que é feito de ternura amarrotada, da frescura que vem depois do sol, quando depois do sol não vem mais nada… Olho a roupa no chão: que tempestade! Há restos de ternura pelo meio, como vultos perdidos na cidade onde uma tempestade sobreveio… Começas a vestir-te, lentamente, e é ternura também que vou vestindo, para enfrentar lá fora aquela gente que da nossa ternura anda sorrindo… Mas ninguém sonha a pressa com que nós a despimos assim que estamos sós!
ILHA Deitada és um ilha E raramente surgem ilhas no mar tão alongadas com tão prometedoras enseadas um só bosque no meio florescente promontórios a pique e de repente na luz de duas gémeas madrugadas o fulgor das colinas acordadas o pasmo da planície adolescente Deitada és uma ilha Que percorro descobrindo-lhe as zonas mais sombrias Mas nem sabes se grito por socorro ou se te mostro só que me inebrias Amiga amor amante amada eu morro da vida que me dás todos os dias
E POR VEZES E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se evolam tantos anos
No alto da colina apenas a coluna E a manhã decapita as cabeças da hidra Mas vão todas gritando ao cair uma a uma A dúvida ou a vida A dúvida ou a vida
Se regressas ao ponto onde estava a coluna vês somente no chão as cabeças da hidra E decifras agora ao vê-las uma a uma que a dúvida é a vida A dúvida é a vida
ECO DA ANTERIOR
Que dúvida Que dívida Que dádiva Que duvidávida afinal a vida