Ao longo de quase um ano, a jornalista portuguesa Isabel Lucas percorreu territórios brasileiros, conheceu seus habitantes, estabeleceu diálogo com escritores e livros, dos mais canônicos aos contemporâneos. Em 12 ensaios-reportagens, buscou elucidar um pouco do país continental, sem se apegar a certezas prévias, pois as dúvidas são sempre mais valiosas. Agora publicado em livro, Viagem ao país do futuro é esse percurso de questionamentos e autoquestionamentos. A própria Isabel afirma: “Continuo com poucas respostas. Sei apenas fazer mais algumas perguntas”.
Isabel Lucas tem formação em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa. Jornalista e crítica literária, escreve regularmente no jornal Público e colabora com várias publicações, sobretudo nas áreas de cultura e viagens. Ao longo dos últimos cinco anos, tem vivido entre Lisboa e Nova Iorque. É autora do livro Conversas com Vicente Jorge Silva (Temas e Debates, 2013). Viagem ao sonho americano resulta de um périplo pela América, a partir da sua literatura, vertido em reportagens publicadas ao longo de um ano no jornal Público.
Não consigo ler livros que generosamente se debruçam sobre outros livros, sem sentir o remorso de não usar o tempo para ler directamente os ditos. Mas há certos deles que me põem num virote. Assim com Kundera, que me pôs à procura de Os Sonâmbulos por este deserto editorial onde nunca nada está à mão: são sempre três volumes e desses o alfarrabista nunca tem mais que dois. Como a recente Vallejo, que conhece bem o poder aditivo das listas e me pôs em remordimentos dolorosos com os antigos por ler (ali me aguarda, vinda de um leilão da internet, a Oração da Coroa, que seguramente vai mudar a minha vida). Certos efeitos são rápidos e inesperados (Tom Jones?) outros mais tardios, como há pouco tempo, quando dei por mim a cotejar a leitura que fazia do Jane Eyre com as opiniões de James Wood. Assim com este Viagem ao País do Futuro, que mistura entrevista literária, relato de viagem, diário, pesquisa sociológica e depoimentos vários à volta de um centro formado por um clássico da literatura brasileira. Reunião de textos jornalísticos, integra métodos diferentes, interessantes de modo diferente para leitores diferentes. Eu arrimei-me a ele como a um guia, quer para visitar autores que já conhecia e faziam parte (Nassar, Rosa) ou não (Trevisan) do meu panteão, quer para me inteirar de vultos com que inexplicavelmente nunca me cruzara, como Graciliano Ramos e Euclides da Cunha (esse peculiaríssimo Os Sertões, que me deixou embasbacado). Utilíssimo para o leitor confundido que sou, este itinerário brilha, sobretudo, nas entrevistas, e tem o seu máximo na visita a Nassar, que finta eficazmente o enorme elefante na sala (a obra) enquanto se diverte a trocar fatias de bolo e comentário político com uma jornalista em transe tanto com a intensidade da obra como com a do café servido. Curitiba é um passeio dentro do invisível Trevisan e os textos sobre escritores mortos são sobretudo o farejar da geografia, à procura do mistério autoral. No meio, Isabel Lucas fala com pessoas, produz um retrato social do Brasil de Bolsonaro, interessante mas por vezes demasiado entrecortado pelas vozes dos académicos. A mim, sinceramente, dava-me jeito ter de vez em quando um livro assim.
Incrível o olhar da jornalista portuguesa sobre obras clássicas brasileiras. Raramente dou chances a livros que falam de outros livros, mas este foi uma exceção realmente inspiradora, que faz querer mergulhar mais fundo em tantas obras-primas do nosso país.
Estou lendo esse livro desde janeiro. Eu leio mesmo devagar, gosto de tirar um tempo pra deixar o pensamento decantar dentro da minha cabeça e passo semanas revivendo as palavras, costurando os pensamentos e fazendo isso virar conversa de bar na primeira oportunidade. Com esse livro não foi diferente.
Sinceramente que ideia fantástica conhecer um lugar por seus livros. Eu estudo espaço, falo o tempo inteiro sobre futuro, identidade, e se eu não estou planejando uma viagem, estou com a cara enfiada em um livro.
Isabel me fez ver o Brasil com outros olhos. Me senti de viagem junto com ela, alguns capítulos cansativos, outros muito empolgantes. Revisitei clássicos que rejeitei na adolescência na época das aulas de literatura e que agora entraram pra lista e continuei sem resposta alguma sobre como definir nossa identidade nacional.
Mas tudo bem, tenho gostado de não ter tantas respostas mas ter experimentado fazer boas perguntas.