Desejos, pulsões, medos e uma boa dose de absurdo encontram-se na mistura dos quatro mundos insólitos presentes nesta coletânea de contos protagonizados por mulheres tentando, embora falhando no caminho, buscar uma solução para seus problemas. Histórias do tamanho de pílulas, que podem causar sonhos com monstros gigantes destruindo cidades, curar o aparecimento repentino de crianças com nome de princesa Disney, ou nos fazer de repente perceber de que substância é feita a nossa solidão.
“Em Neuroses a varejo temos apenas vislumbres, estilhaços de quatro vivências distintas, de quatro mulheres, de quatro patologias (não estou certo se podemos chamar sempre assim as situações às quais são submetidas), de quatro processos de reconhecimento e compreensão.” — Bruno Matangrano, escritor, professor, tradutor e pesquisador de literatura fantástica brasileira.
Aline Valek é escritora e ilustradora. Mineira-brasiliense, vive em São Paulo, mas é do Cerrado. Formada em Comunicação Social, escreve para a internet há mais de uma década e publica de forma independente desde a adolescência. Além de newsletter, zines e livros, também conta histórias em seu podcast Bobagens Imperdíveis. É autora dos independentes Hipersonia Crônica (2013), Pequenas Tiranias (2015), Bobagens Imperdíveis para ler numa manhã de sábado (2018) e Bobagens Imperdíveis para atravessar o isolamento (2020). É autora do romance As águas-vivas não sabem de si, publicado pela Rocco em 2016.
Aline Valek traz 4 contos que poderiam muito bem ser lidos como crônicas capazes de lidar com um mundo que se tornou absurdo.
O prefácio do Bruno Matangrano fala de como a obra da Aline Valek possui temas que conversam entre si, sejam nos contos de "Neuroses a Varejo" ou nos romances "As águas vivas não sabem de si" e "Cidades afundam em dias normais". Isolamento é uma palavra que me vem em mente fácil aqui, embora não necessariamente acompanhada de tristeza ou melancolia.
1. Em Desaparecida, uma mulher percebe estar desaparecendo aos poucos, pedaço por pedaço. Por conta disso, fica obcecada por histórias de desaparecimentos famosos, seja de pessoas, aviões, navios, e também pelo sumiço do pai quando era pequena, história que sua mãe nunca explicou de fato. Enquanto tenta entender sua nova condição, a protagonista precisa decidir se desaparecer seria tão ruim assim. (Me identifiquei demais com esse).
Um trechinho pra dar o tom: "Aconteceu outras vezes: estava em casa, ou no trânsito, ou no escritório quando ficava até mais tarde. Desapareciam pedaços do seu corpo ou sentia-se de repente rala, como se tivessem colocado água demais no café."
2. Após uma excruciante dor de cabeça, uma mulher nota que uma criança de poucos anos de idade apareceu no banco de trás do seu carro. Ao ir no médico entender o que aconteceu, o diagnóstico é claro: Gravidite Encefálica. Agora a mulher precisará aprender a lidar com a nova presença em sua vida. Ou se livrar dela de vez. É um conto curto e meio fofo.
3. Imagine poder tomar pílulas que induzem a sonhos específicos: Erótico, apocalipse zumbi, espionagem na segunda guerra, terror nas profundezas... E ainda assim sonhar sempre com a faculdade. Pois é, a protagonista também está boladona e disposta a tentar entender o motivo de estar presa ao passado. Esse conto tem uma combinação de cinismo com nonsense muito bem dosada, e um final que deixaria Freud de cabelo em pé.
4. Pra fechar, um conto onde ter o nome sujo por conta de dívida te faz feder pesadamente a bosta cada vez que alguém fala ou escreve seu nome. É muito absurdo e muito engraçado. Me pareceu algo como um texto do Veríssimo de uma realidade paralela onde planetas irradiam LSD em vez de calor. Eu não esperava me divertir tanto com um lance tão escatológico, mas ficou pau a pau com o primeiro para mim como favoritos.
Ah, e você nunca mais ouvirá a frase "quer fazer um cartão da loja tal?" da mesma maneira.
Leitura leve e deliciosa, no melhor estilo Aline Valek (amo muito). As histórias são ótimas! Cada conto propõe realidades diferentes e bem imaginadas, palcos perfeitos para amplificar algumas das (tantas) neuras que a gente carrega pela vida.
Não é surpresa pra ninguém que eu gosto da escrita da Aline Valek, até tatuagem de água-viva eu tenho (é, Clarice, essa não foi pra você). Já tagarelei pros conhecidos sobre romance, podcast, crônica, até curso e ilustração, mas venho pedir paciência, porque agora preciso de mais algumas palavrinhas. Eu preciso comentar esse livro, esses contos malucos que me cativaram tanto. Gosto bem dessa literatura que abre o alçapão debaixo dos pés, que te faz soltar aquele arquejo, olhar pra parede e mandar mensagem desesperada para aquele amigo que entende suas nóias literárias: “você precisa ler esse livro.” Neuroses a Varejo é assim. As quatro narrativas que compõem o livro te atingem todas de maneiras muito diferentes; se a primeira é um soco no estômago, a última é um vivo tapa nas costas, daqueles que dão um susto, mas te deixam sorrindo um pouco nervoso no final. Ler Aline Valek é sempre um refresco, introspectiva que eu sou. Entrar um pouquinho nessa cabeça que entende o prazer de desaparecer à luz do dia, mas que sabe colocar em palavras o que eu nem mesmo sei que sinto, é sempre um prazer.
“Com uma voz muito serena, a mediadora explicou que, através desta prática, estariam abraçando a realidade de que todos ali fediam igual e que, para se livrar do cheiro, o primeiro passo era reconhecer o cheiro; da mesma forma que, para sair de uma situação, era preciso primeiro reconhecer a situação.”
Simplesmente incrível! Sempre quis ler algumas das obras da Aline Valek, e começar por “Neuroses a varejo”, além de ser completamente improvável (uma vez que eu não tinha ideia da existência dessa obra), foi uma ótima surpresa. Nessa coletânea, Valek discute acerca da solidão, sobre passado, sobre dores de cabeça que escondemos de nós mesmos e sobre aceitar que todos nós temos nossos lados mal cheirosos.
As histórias que mais mexeram comigo foram a primeira, “Desaparecida”, e a última, “Nome sujo”, tanto por conta de suas metáforas incríveis, quanto pela maneira que a autora conduziu os contos: complexos, mas leves; grandiosos, mas sem serem cansativos.
Deixo aqui alguns trechos que me fizeram refletir bastante:
• Descobriu que desaparecer tinha um gosto peculiar, e refletiu sobre isso na descida de volta à vila, enquanto aos poucos seus braços voltavam a ganhar consistência. “Você pode começar a gostar disso”, Murilo confessou. “Desaparecer vicia.
• Mas a sensação de dissolver, ela entendeu, era mais do que perder suas partes, mas ganhar uma nova dimensão; sentir-se um pouco madeira e um pouco poeira e ser as pedras e também a água que batia nelas e tornar-se o ar e sentir o som dos pássaros atravessando sua matéria e estender-se pela estrada de terra e relaxar a ponto de ser apenas um dedo sem corpo largado numa mesa e uma bolha de consciência dispersa no espaço fazendo amor com a luz e com as frequências sonoras.
• “‘Em vez de calar o seu inconsciente, você poderia ouvi-lo’”.
Há séculos mantenho meu Kindle desconectado do Wi-Fi para garantir que terminaria a leitura. Acho que assinei umas 5, 6x o Kindle Unlimited desde o começo da pandemia, naquelas promoções baratinhas, sem ler nada no final das contas. Nas últimas vezes só cheguei a baixar esse e, devido a mil motivos pra não conseguir ler, nem ele tinha lido. Pois bem, finalmente terminei e gostei. Já não preciso temer que acidentalmente meu aparelho se conecte à internet e troque esse livro por uma carta dizendo que “o livro foi devolvido automaticamente porque sua assinatura expirou”.
Não lembro tanto dos dois primeiros contos, que li meses atrás, mas o terceiro me deu calafrios me lembrando da crise de ansiedade que me deu andar pelos corredores do prédio da Faculdade de Direito. E me lembrou Watchmen, a série., no finzinho. Gostei.
Uma delícia de leitura que eu li de uma vez só! Comecei com um certo receio com a primeira parte que dizia que seria um livro sobre doenças - numa época dessas nããão - mas, logo percebi que teria algo mais para ser descoberto neste breve livro de quatro contos sobre mulheres, solidão e autodescoberta. Adoro a forma como a Aline revela sutilmente algumas características dos personagens que não são tão importantes para a história em si, mas que compõe personagens únicos e muito interessantes. Em "gravidite encefálica" me lembrei vagamente de alguma coisa de Cortázar com coelhos... Enfim, me fez refletir e até dar umas boas risadas. É uma leitura leve e altamente recomendada.
Aline Valek tem o dom de pegar situações cotidianas e elevá-las para um grau do absurdo. Nesse livro, ela apresenta quatro mulheres com diferentes níveis de solidão, lidando com problemas do presente ou passado. Tem muitos elementos do nosso mundo elevados ao surreal, o que me fez imaginar várias vezes qual seria a minha atitude se estivesse naquela situação. Alguns contos são divertidos, outros muito tristes. Mas não tem como não sair reflexiva sobre as circunstâncias da nossa sociedade depois de ler os textos da Aline.
Eu gosto muito da escrita e dos textos da Aline Valek. As ideias desses contos são muito originais. Gostei da premissa dos quatros contos publicados nesta coletânea. São contemplativos, engraçados, intrigantes e em certa medida tristes. Vale a pena a leitura.
A escrita da Aline Valek é muito gostosa! Os inusitados contos, por mais que abordem doenças irreais, tocam em questões bem cotidianas - sobre solidão, autoaceitação, encontros e desencontros, memória e superação do passado... Curtinho e divertido.
li entre uma vida pequena e gostei muito da escrita, amo contos, os dois ultimos foram os meus favoritos!! achei muito curiosa a escrita da aline, foi minha primeira vez lendo ela
Ai, muita maluquice. É bem escrito, adoro a newsletter da Aline, mas aqui não embarquei em nada, não foi pra mim. Ainda empacou todo meu fluxo de leitura de início de ano.
SIMPLESMENTE GENIAL. fiquei me chocando com a genialidade de cada história e como possuem premissas simples. A escritora sabe conduzir bem os absurdos e eu simplesmente gostei dms!
"A questão é: o passado não some enquanto você não tiver coragem de encará-lo de frente."
Este livro tem quatro contos, cada um tem um toque diferente de realismo mágico e eu achei as sacadas dela muito interessantes. São mulheres lidando com a solidão, tentando resolver seus problemas, suas protagonistas são tão reais que eu sempre acho que vou tropeçar nelas andando na rua. Não vou contar muito porque acho legal ir sacando as coisas aos poucos, então minha dica aqui é: não leia a sinopse, se jogue, se divirta e se pegue pensando "o que que essa mulher tem na cabeça, gente?", hehe.
Desaparecida: Priscila tenta entender por que está desaparecendo. Tem uma atmosfera etérea ao lidar com a solidão, achei bonito.
Gravidite Encefálica: É engraçado como ela cria a doença e como a Liliana passa por ela. Tudo muito cômico e fofo.
O que sonham as pílulas: Leona tem um problema com seus sonhos, o desfecho é absurdo e totalmente satisfatório.
Nome sujo: Núbia com o nome sujo é o meu preferido, achei tão legal a sacada dela que não vou dizer nada, só leia e se divirta :)