Nesta reunião de textos ― mistura de memórias, ensaios, anotações e crônicas ―, uma das mentes mais brilhantes de sua geração entremeia literatura, poesia, filosofia e política para refletir sobre si mesmo, mas também sobre as transformações do mundo ao seu redor.
Entre fevereiro de 2014 e maio de 2017, Victor Heringer assinou setenta textos para o site da Revista Pessoa. Na coluna “Milímetros”, o escritor registrou um pouco de tudo: o cotidiano, as referências literárias, a infância no Rio de Janeiro, a mudança para São Paulo, as novas e as velhas amizades, os sebos, as viagens, a política, o noticiário e um Brasil em franca ebulição.
Vida desinteressante traz uma prosa situada entre memórias, ensaios, anotações e crônicas ― ou anticrônicas, como aponta Carlos Henrique Schroeder, que assina a organização e a apresentação deste volume. São pensamentos luminosos de um escritor inquieto, que absorvia, a quente, as transformações de um mundo trepidante e de um país às vésperas do colapso.
As reflexões oscilam entre a ironia mordaz e a ternura funda, sem nunca deixar de lado o estilo irresistível, perspicaz e de rara sensibilidade, que remete a Machado de Assis, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Lydia Davis, Carlos Drummond de Andrade e Hilda Hilst.
Victor Doblas Heringer (Rio de Janeiro, 27 de março de 1988 – Rio de Janeiro, 7 de março de 2018) foi um escritor brasileiro. Recebeu o Prêmio Jabuti em 2013, pelo romance Glória, e foi finalista do Prêmio Oceanos 2017, por O Amor dos Homens Avulsos.
Toda vez que eu termino um do Heringer eu fico um pouco mais triste. Esse daí em especial, já que é o livro mais próximo do escritor. Essa proximidade cotidiana mesmo, que se faz nas coisas pequenas que permeiam as semanas e se arrastam por elas como sua própria matéria.
Para além desse cotidiano pessoal, o livro trata desse cotidiano geral muito próprio dessas nossas últimas gerações. O fim do governo Dilma, a intensificação da internet como ferramenta de massa, crises de refugiados e outras realidades que vivemos todos em comunhão nos anos de 2014-2017, quando eu, adolescente que era, me sentia confuso e incapaz de me situar dentro disso tudo. Bom saber que não era só eu que me sentia sem sítio, e que até alguém como o Victor se sentia perdido.
E em meio ao sentimento de estar perdido, o que resta é construir esses nossos castelos no ar. Mas de fato, o que Victor Heringer construiu se assemelha mais a uma igrejinha do a um castelo. Sem pompa e sem adornos, mas que permanece a proteger e confortar todos nós que continuámos nômades no tempo e no espaço.
Neste volume de crónicas Heringer consegue, em seus textos curtos, transmitir emoções complexas e provocar reflexões intensas, fazendo com que os leitores se identificassem com suas observações.
Grata por me fazer ver o documentário do Herzog e por ouvir Travadinha, por me encantar com a redefinição de ironia, por me apresentar à saudação lacrimosa, por me acolher profundamente com a história do sebo de Friburgo, o mesmo que eu também ia. Que sejamos sempre os bobos que acham as coisas bonitas.
“É necessário, ainda outra vez, escutar a bruta e oca poesia dos leilões de gado para descobrir como não ser gado” - sobre Werner Herzog e seu incrível documentário sobre leiloeiros de gado na Pensilvânia e a última poesia possível do capitalismo.
“Para atingir o mais profundo da verdade, é necessário inventá-la”.
“A prova de um inteligência de primeira ordem é a capacidade de sustentar duas ideias opostas ao mesmo tempo e ainda conseguir funcionar”.
“O caráter artístico dionisíaco não se mostrar na alternância de lucidez e embriaguez, mas sim em sua conjugação”.
“Só o fim nos une. Foi sempre contra o fim que cantamos, escrevemos, pintamos? Foi sempre contra a morte que erguemos arranha-céus e inventamos o trem. Contra o apocalipse, nossas ilhas utópicas. Contra a morte, nossas árvores genealógicas. Mas as árvores estão com os dias cortados e as ilhas, caras. Acabou a ciranda das revoluções e contrarrevoluções. A morte do indivíduo acabou. Acabaremos juntos. Agora todos sabem como se sentia Augusto dos Anjos. O tempo já não é uma linha reta. A história deixou de ter futuro linear. Adeus, seta envenenada do Progresso: tiro n'água. Este é tempo líquido, tempo enchente, tempo tudo”.
que descoberta linda para o fim de 2022 victor heringer foi um dos melhores escritores da geração da qual fez parte - com um texto interessante, poético bonito, consegue destrinchar as angústias e alegrias de viver nesse início de século XXI, nessa vida desinteressante interessantíssima as crônicas reunidas nesse livro cobrem aspectos diversos do estar vivo por agora e ter sentimentos conflitantes em relação ao mundo, às cidades, ao ser jovem, à arte, a tudo. (quero agora ir aos romances de victor e provavelmente me apaixonar mais ainda)
Já tinha lido e gostado bastante dos romances do Victor Heringer, mas não sabia muito o que esperar dessa coletânea de crônicas. Seria só um lançamento para surfar no hype que surgiu após a morte do autor? Terminando o livro, no entanto, vejo que não. É um baita livro, que merecia mesmo ser publicado, principalmente pelo recorte temporal que ele cobre, de 2014 a 2017.
Pela lente do Victor, relembramos um pouco daquele período bizarro que o Brasil viveu, mas não por uma descrição dos eventos marcantes, e sim pela descrição do cotidiano. Um exemplo cômico disso é a crônica "Ascensão e queda da coxinha de frango", e de como, no auge de 2015, "...ficou difícil comer coxinha em total impunidade. Será um ato político?". Ou em "Assando um bolo enquanto cai a República", em que ele comenta o hábito que adquiriu de se pegar pensando "E se a República estiver caindo agora? O que direi aos meus amigos? Que quando caiu a República eu estava traduzindo um trecho de Suetônio? Com sono no escritório? ... Aparando as unhas com um cortador de R$2,99?".
Além dessas, com teor mais político, também tem algumas que aumentam nossa intimidade com o autor, como as crônicas que ele faz para família, amigos, ou para comentar impressões pessoais dele sobre o mundo. Uma das que mais gostei foi a "O paulistano não existe", porque reconheci nela minha própria experiência mudando para a cidade. "Na Pauliceia, a identidade é mais desvairada e democrática: aqui sou carioca, mas também sou alemão, latino-americano...Até brasileiro eu acabei sendo em São Paulo".
É uma pena que o Victor tenha deixado esse mundo tão cedo, porque acabo esse livro com a vontade de que ele se estendesse até os dias de hoje.
Victor Heringer continua sendo um dos escritores contemporâneos com os quais eu mais me conecto no sentimento e no modo de perceber/entender o mundo. Lê-lo em suas crônicas nesta obra infelizmente póstuma só reforça essa certeza. Tenho um amor tranquilo pelas palavras dele e um ódio profundo por ele ter ido embora cedo demais.