Eis aqui, em suas mãos, o volume 4 do Multiverso Pulp. As narrativas que você vai encontrar o levarão para mundos fantásticos. Neles você vai conhecer a história das filhas do Vento e do Fogo, de uma princesa e seus companheiros buscando a cura para um feitiço terrível, a guerra entre os Beluiu e os Sauruds, um misterioso evento em um mosteiro, a busca de um artefato mágico por uma pogan, a saga de uma menina em um jogo de videogame, uma fantasia sombria protagonizada por amazonas, uma aventureira caçando um monstro feito de monstros, a luta de um eremita pela própria vida contra um dragão e as peripécias de ladrões na cidade fantástica de Gigamir. Folheie as páginas do nosso livro e divirta-se!
1 - "O Sumiço do Mensageiro" (de Juliana Vicente) Avaliação: 3 estrelas
ocadas a fazer parte de uma missão para encontrar o Mensageiro e evitar que outras nações se aproveitem da fraqueza momentânea para realizar um saque e uma conquista.
O universo que a autora criou é fascinante. Ela conseguiu inserir elementos do folclore brasileiro em uma narrativa tipicamente inspirada na maneira de Tolkien de contar uma história. Mesmo a jornada em si segue esse mesmo tropo e é feito de uma maneira divertida. Só que ao mesmo tempo em que temos um universo bem delineado, temos muitas coisas acontecendo simultaneamente. Os problemas das duas amantes, o sumiço do Mensageiro, a preocupação com uma guerra, a jornada. São temas demais para uma história com poucas páginas. Fora as explicações e caracterizações de dúzias de raças diferentes. É tanta informação que o leitor frequentemente se perde e precisa voltar e começar de novo. Essa é uma narrativa que poderia ter sido bem delineada em uma história com 100 ou 150 páginas. Daria tempo para a autora colocar tudo no papel e ainda desenvolver adequadamente os personagens que ela criou. Da maneira como está, tudo parece atropelado e estranho, quase como se fosse um desfile de ideias e semi-humanos por toda a parte.
Não me entendam mal! A história é boa. Só que ela está comprimida de uma maneira que não consegue respirar. Vale a leitura pela curiosidade e por ver como é fácil adaptar o nosso folclore (que é rico demais) em uma narrativa clássica de fantasia.
4 - "Desenho com saco de letras" (de Simone Saueressig) Avaliação: 5 estrelas
Depois de um longo dia de trabalho, um monge vai finalmente poder descansar. Suas costas doem depois de copiar um livro que está demandando muita concentração. Mas, para seu desespero, seu aprendiz bate em sua porta tarde da noite alegando ter esquecido o documento que ele estava trabalhando em sua sala de estudos. Depois de muito resmungar, xingar seu aprendiz e pedir perdão a Deus pelos xingamentos, ele segue em direção ao local. Mas, estranhos fenômenos parecem estar acontecendo na sala de trabalho no escuro da noite. Fenômenos que farão o monge questionar sua própria fé e temer por sua vida e sanidade.
Uma bela história que me fez remeter imediatamente a um mestre da escrita como Umberto Eco e seu famoso O Nome da Rosa. Simone tem uma habilidade incrível de nos ambientar no local onde a história se passa. O que comentei acima sobre conseguir fazer longas descrições e ao mesmo tempo manter a atenção do leitor, cá está o exemplo disso. As descrições servem para familiarizar o leitor ao contexto onde se passa a narrativa. Qual é a importância de descrever as condições de construção do scriptorium? Simples, serve à narrativa contada por Simone e entrega um grau de tensão e desconfiança. Ao descrever os pormenores do cotidiano dos monges e as pequenas picuinhas ocorridas com eles, a autora fornece vida ao local. Gostamos de ver o nosso protagonista resmungão, o discípulo medroso, o abade com seus melindres e o monge ambicioso.
Essa é uma narrativa de mistério onde o elemento de fantasia se sobrepõe ao mundo real. O fantástico toma faces do maravilhoso como proposto por estudiosos da Idade Média. Serve para realizar milagres, nem sempre compreendidos pelos seres humanos. Simone brinca com a incredulidade do protagonista, que possui uma mente metódica e critica seu aprendiz por deduzir noções que beiram à heresia. Mas, à medida em que ele começa a investigar os segredos que se escondem no scriptorium, ele mesmo se questiona sobre onde se situa seu coração. Gostei demais da história e a virada narrativa no final, quando tudo vai para o espaço, surpreende e tira aquele sorriso maroto de nossas faces.
5 - "Meninas podem, sim" (de Kátia Regina Souza) Avaliação: 4 estrelas
Lilian está indo para a casa de João. Para ela, mais um dia desagradável e chato. Ela tenta argumentar que não quer ir para lá, mas é vencida por seus pais teimosos que não a entendem. A verdade é que João é um garoto egoísta que não a deixa jogar videogame e tocar em nada em seu quarto. E os pais do garoto não fazem nada a respeito, achando o comportamento normal. Quando ela chega lá, acontece justamente isso. O pai do menino, um desenvolvedor de jogos, a manda ir brincar na garagem onde existe uma série de coisas lá que talvez possam distraí-la. Lilian prefere ficar na garagem do que passar mais um minuto perto do moleque chato. Depois de muito procurar entre as tralhas na garagem, Lilian começa a ouvir uma estranha voz que a direciona até um estranho aparelho com um tipo de cartucho que deve ser encaixado em um buraco. Quando ela faz isso, Lilian desperta em outro mundo onde as pessoas parecem ser feitas de pixels, gráficos antigos de jogos de videogame. Aliás, ela mesma tem esse formato. E todos a estão chamando de herói. E agora?
Baita narrativa divertida escrita pela Kátia. Ela conseguiu escrever um conto cuja história é bem simples de entender e é uma crítica direta a uma sociedade machista. A autora brinca com os tropos típicos dos jogos de RPG de videogame como as missões sem nexo, o sistema de luta, os monstros cujas motivações são erradas. É curioso, mas dentro de todo esse pano de fundo existe uma história sobre empoderamento feminino. Nesse mundo não existem heroínas; elas são enxergadas até como ameaças. Isto espelha a maneira como as meninas eram enxergadas (e ainda são) dentro do universo geek: como seres estranhos que parecem não pertencer a esse domínio. A autora brinca também com os convencionismos do gênero como não entender o lado dos monstros e nos coloca diante de uma realidade em que estes são benéficos a uma sociedade que se via vítima da exploração de um rei abusivo.
Os diálogos são dinâmicos e carregados de ironia. O leitor devora o conto rapidamente. Me fez lembrar bons filmes de comédia em que os diálogos são jogos entre os personagens e o leitor se sente participativo deles. O final é aberto no sentido de que é o início de uma jornada e te traz uma sensação satisfatória de conclusão. Menciono o final aqui por causa da situação que se passa no conto seguinte. Aqui temos um final que convida os leitores a imaginarem o que vai se suceder com as personagens e a personagem da Tiana brinca justamente com isso. A Kátia está de parabéns por um conto muito diferente do que a gente esperaria encontrar. E serviu também como uma ótima crítica.
7 - "A vingança do desmorto" (de Veronica S. Freitas) Avaliação: 3 estrelas
Durante de uma caçada de uma tribo de amazonas guerreiras, elas capturam três prisioneiros que tentavam invadir suas imediações. Um deles revela ser um vampiro, um homem chamado Yan. Ao invés de matá-lo no ato, elas decidem levá-lo como prisioneiro, mas Selene, filha da chefe da comunidade, o toma para si, alegando que ele será de grande utilidade nas minas de ferro das amazonas. O comportamento extremamente dócil e submisso do prisioneiro não escapa ao olhar das guerreiras, mas os dias que passam sem incidentes acabam fazendo-as baixar a guarda. Em uma determinada noite, em que as amazonas saem para procriar com outros homens (parte de seu ritual para manter a comunidade sempre forte), as coisas podem tomar um rumo para pior. Isso porque o prisioneiro parece ter um plano para si.
Essa é uma combinação curiosa de temas: amazonas guerreiras e vampiros. A autora conseguiu fazer estes dois temas funcionarem até que bem. Se trata de uma narrativa que inverte a noção de prisioneiro e carcereiro. É óbvio que pelo título da história a gente desconfie de alguma coisa em relação a Yan. Fora que seu comportamento submisso também não combina com a natureza primal de um vampiro. Vemos um embate de vontades entre o vampiro e a amazona. Tudo segue dessa maneira de tentarmos adivinhar o que o prisioneiro está planejando. Só que não precisava Selene ser alguém tão especial. Só o fato de ela ser a filha da chefe já a colocava em outro patamar. Ela sequer precisava ser a pessoa diferente da vila. Claro que sempre é necessário individualizar personagens, mas a percepção que eu tive é que a autora deu quase um ar do tropo do escolhido para ela. E não era preciso; algumas características a mais a tornariam uma personagem naturalmente interessante. Porém, o conto é bem legal e gostei das reviravoltas no final.
8 - "Monstro feito de monstros" (de Mariana Bortoletti) Avaliação: 4 estrelas
Depois de muito tempo sem encher sua algibeira com as doces moedas, Briniam decide pegar uma perigosa missão: matar uma mantícora que está aterrorizando o vilarejo de Daerah. Como caçadora de recompensas, ela sempre costumava fazer esses trabalhos ao lado de seu irmão Jihad. Só que uma aventura que deu errado, marcou o rosto e a amizade entre os dois irmãos para sempre. Desde então, Briniam nunca mais foi a mesma. Para essa missão, ela sabe que precisará do irmão. É o tipo de aventura que exige duas pessoas que pensam diferente. Ela entra em contato com seu irmão, mas a recepção não é das melhores. Será que eles voltarão a trabalhar juntos? E a mantícora... como derrotá-la?
Essa é uma boa e simples aventura escrita por Mariana Bortoletti e em sua simplicidade se esconde detalhes fascinantes. Primeiramente em como ela conseguiu passar a visão do mundo dela de uma forma simples para o leitor. Não há complicadores; o leitor pega rápido o que está acontecendo e como os personagens se encaixam. A narrativa vai se focar mais em Briniam e Jihad e a partir daí trabalhar a sua relação. Há uma boa divisão entre início, desenvolvimento e conclusão e o final parece aberto, mas não é. É redondinho e encerrado. Os personagens tem suas características psicológicas e emocionais bem trabalhadas e o leitor desenvolve uma empatia por eles. A gente torce para que Briniam consiga ajustar as coisas com o irmão e mais tarde que ela consiga escapar com vida de uma perigosa missão.
Alguns leitores vão argumentar que a história não tem necessariamente um final e eu vou discordar. A narrativa não é sobre a missão de caça à mantícora, mas sobre a relação entre os irmãos. A ideia da autora é mostrar uma história intimista entre dois irmãos que, por conta de uma situação trágica, deixaram de se falar. E ao longo da narrativa essa amizade e companheirismo entre os dois vai se remendando aos poucos. Problemas entre irmãos acontecem e isso faz parte da vida. Pode ser que a gente deixe de falar por algum tempo até. Mas, o amor entre eles vai existir, não importa a circunstância. Se a aventura vai dar certo ou não, se a mantícora vai ser morta ou não... não importa. Se ao final a relação entre os dois estiver consertada, a aventura vai ter dado um bom resultado.
10 - "O olho de Tulging" (de Duda Falcão) Avaliação: 5 estrelas
Dois gigantes e uma yosei são contratados por um homem-javali para matar o irmão dele, um cara que, segundo ele, é um traidor e ele quer sua cabeça pregada na parede. Só que Rann, um dos gigantes decide fazer uma paradinha para encher a cara antes da missão. Após sair quase em um estupor alcóolico, ele decide parar em um lugar para dar uma tragada em um bom fumo. Bem... acho que essa missão não vai dar muito certo. Será?
Vejam com a sinopse é simples. Não tem nada demais ali. E a história é muito, mas muito boa. Apesar de eu ter gostado muito do conto da Simone, para mim, esta história do Duda é a melhor da coletânea pelo domínio que o autor tem da narrativa curta. E isso porque não é nem uma das histórias mais carregadas do autor, sendo que o objetivo é mais escrever uma narrativa leve e despojada com um grupo de personagens aprontando todas. Outro detalhe é que, apesar da simplicidade da história, existe uma construção de mundo complexa com raças semi-humanas sendo descritas a contento, com algumas conhecidas e outras desconhecidas. Existe até uma exploração da cidade durante a noite, mostrando os vários lados que a formam: desde a taverna eclética, às sombrias ruas e ao boticário com um estranho guardião. E se o leitor ficar apenas na leitura superficial, tudo bem, ele vai se divertir e curtir uma boa história. Mas, se prestar mais atenção, vai perceber detalhes que, conhecendo o autor como eu conheço, serão explorados em outras histórias. Ou não. E tudo bem. Porque a narrativa é fechadinha e deixa um gancho bem sutil para outras aventuras.
É impossível não associar a história a um bom filme de comédia com bêbados fazendo trapalhadas como Um Morto muito Louco ou Se Beber, Não Case. Algumas situações são tão bizarras que é impossível não dar uma boa gargalhada enquanto lê. Os três são completamente sem noção, além de serem bandidos. Estão aliados por agora, mas isso não impede que um roube do outro. Não há uma temática filosófica envolvida, sendo uma grande e divertida aventura. Minha recomendação é: leiam.