Poder ser vulnerável, para muitos, é um privilégio.
Explorar os seus próprios sentimentos e, principalmente, o que considera uma fraqueza não é uma tarefa fácil e, às vezes, quando se cresce ouvindo que é preciso ser forte e duas vezes melhor é ainda mais complicado.
Essa é a realidade da Malía. Ela ouviu, em todas as fases da sua vida, as frases clichês, baseadas em estereótipos raciais, que a fizeram se transformar em uma pessoa que não se permitia ser vulnerável. Uma boa parte sua vê isso como uma forma de permitir que outras pessoas afetem sua vida, pelo seu histórico isso seria destruidor.
No entanto, em quatro meios distintos, narrados pro meio de quatro contos, explorar a sua vulnerabilidade é a única opção para seguir em frente. Querendo ou não isso sempre muda a sua vida.
Malía é uma garota negra e gorda que foi ensinada desde a infância que precisava ser forte para não se deixar machucar e se esforçar para ser sempre duas vezes melhor do que as outras pessoas em tudo que fizesse. Embora fosse uma forma de sua família prepará-la para o mundo racista que tentaria sempre inferiorizá-la, essa "meta" gerou consequências para sua autoestima e sua forma de lidar com relacionamentos, estudos e trabalho. E nos quatro contos que fazem parte de "Vulnerável", percebemos isso em diferentes momentos da vida dela. Primeiro na escola, onde Malía se esforça para não ser notada, porque quando isso acontece, é sempre para ser ridicularizada por sua aparência. A primeira rejeição amorosa, aos quatorze anos, é um golpe forte para ela. Mais tarde, quando o preterimento novamente a atinge - dessa vez, em em relacionamento no qual Malía queria evitar se envolver emocionalmente - a dor também é intensa. Quando Malía tenta estudar para o vestibular, e então se permite gostar de alguém e deixar que essa pessoa se aproxime dela, é uma descoberta linda. E, quando Malía já está no fim da universidade, é a pressão pela excelência que vêm lhe trazer sofrimento, mas Malía descobre que ela pode ser combatida com o apoio das pessoas que a amam. Nessas quatro histórias - que juntas, formam uma só através de seus recortes - Dayane Borges trabalha muito bem os efeitos da forma como pessoas negras são vistas: a garota que só serve para ser amiga; a última opção; o motivo de vergonha para quem sente afeto por ela; o caso escondido; a aluna que surpreende por fazer bons trabalhos acadêmicos. Mas através de experiências em parte dolorosas, em parte libertadoras, Malía descobre a importância de se deixar ser vulnerável; se permitir sentir afeto; aceitar uma tentativa mal-sucedida para, no futuro, tentar outra vez; falar sobre sua assexualidade e tentar se identificar dentro desse espectro; admitir o cansaço, o medo, a fragilidade e se deixar ajudar ou amparar. Os momentos em que Malía permite que as pessoas ao redor partilhem de seus sentimentos são alguns dos mais bonitos da história, e eu amei ver o desenvolvimento dela em relação a isso com o passar do tempo. Esse foi segundo livro da Dayane Borges que eu li, e gostei muito de perceber a concisão e a precisão dela para descrever os sentimentos dessa personagem, escolhendo sempre as melhores palavras. Com certeza vou querer ler mais histórias dela.
Doce, sensível e muito tocante. A escrita da Day coloca a gente pra sentir as coisas, como se ela estivesse escrevendo com o coração. Vulnerável foi a primeira leitura que eu fiz da Day e com certeza quero ler mais coisas dela!