#nestórias
A cor apropriada dos vestidos das mães é o preto, ou quando muito, o cinzento ou o castanho. Vestem-se de roupas informes, uma vez que ninguém, a começar pelas costureiras, poderá pensar que uma mãe tenha corpo de mulher. Os seus anos são um mistério sem importância, uma vez que, sem dúvida, a sua única idade é a velhice. Esta velhice informe tem olhos santos, que choram não por si própria, mas pelos filhos.
-O Xaile Andaluz
Assim que vi a foto de Elsa Morante na badana deste livro, simpatizei com ela. Surge com dois belos gatos, um ao colo e outro no ombro, à frente de uma estante onde não parece haver lugar nem para mais um livro, como acho que deve ser. Foi, por isso, algo frustrante não ter gostado muito dos primeiros contos de “O Xaile Andaluz”. A escrita de Elsa Morante é de uma riqueza linguística irrepreensível, perfeita na descrição de ambientes, dos mais sumptuosos aos mais miseráveis, mas “O Ladrão das Luzes, “O Homem dos Óculos” e “Rua do Anjo” têm uma componente onírica e paranormal que não permitem o desfecho que valorizo em contos. Felizmente, a partir de “A Avó”, a histórias começaram a tornar-se mais realistas e encontrei várias que me satisfizeram bastante, sobretudo “O Jogo Secreto” e “O Primo Venanzio”, que possuem um pendor gótico que as elevam acima das outras.
Curiosamente, os meus contos preferidos são considerados obras menores, de início de carreira ou escritas à pressa para publicações semanais, por necessidade económica da autora, mas acho-os superiores ao que é considerado a obra da maturidade, contemporânea de “A Ilha de Arturo” e que dá título a esta colectânea, “O Xaile Andaluz”, que apesar de muitíssimo bem escrita não me causou tanto impacto como os contos mencionados anteriormente.
É sem dúvida na criação das suas personagens singulares que Elsa Morante brilha, tanto no retrato físico...
O primo Venanzio era muito pequeno, e tão magro que as suas omoplatas emergiam como duas pequenas asas trincadas, e todo o seu corpo, sob a pele frágil como casca de cebola, deixava ver as articulações miniaturais e os ossículos trémulos. Tinha o cabelo preto anelado, mas sempre tão coberto de poeira que parecia grisalho, e olhos pretos e escancarados, cheios de melancolia; os seus movimentos eram sempre nervosos e precipitados, como de um láparo de lebre em fuga à luz da Lua.
-O Primo Venanzio
...como no psicológico.
A razão pela qual donna Amalia não engordava demasiado era que, no seu íntimo, continuava a arder, sem se apagar, esse fervor que uma mulher comum pode conhecer quando menina – mas que, depois, na juventude, se refreia, para declinar na idade adulta. Os sentimentos, os pensamentos de donna Amalia estavam sempre em movimento, sempre acesos. (...) O segredo do carácter de donna Amalia estava todo no seguinte: que ela, ao contrário das pessoas comuns, nunca adoptava, perante os aspectos (ainda que mais habituais) da vida, esse hábito de que nascem a indiferença e o tédio.
-Donna Amalia
Darei, sem dúvida, prioridade aos romances de Elsa Morante para continuar a usufruir desta escrita tão rica.
A marquesa, ocupada pelas suas funções de ecónoma, não vigiava excessivamente nem a educação nem a instrução dos filhos. Bastava-lhe que estivessem calados e não se mexessem. Giovanni teve assim ocasião de ler estranhos livros desencantados aqui e ali, nos quais se agitavam personagens com trajos nunca vistos. (...) Eram seres que falavam uma linguagem alada, que sabia atravessar cumes e precipícios, doce no amor, feroz na ira.
-O Jogo Secreto