Poetisa do amor e do erotismo, Maria Teresa Horta sofreu em Novembro de 2019 o imenso desgosto da morte do seu marido, amor de uma vida, Luís de Barros. Este livro é uma homenagem a esse amor. Intenso, catártico, apaixonante.
Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros was a Portuguese feminist poet, journalist and activist. She is one of the authors of the book Novas Cartas Portuguesas (New Portuguese Letters), together with Maria Isabel Barreno and Maria Velho da Costa. The authors, known as the "Three Marias," were arrested, jailed and prosecuted under Portuguese censorship laws in 1972, during the last years of the Estado Novo dictatorship. The book and their trial inspired protests in Portugal and attracted international attention from European and American women's liberation groups in the years leading up to the Carnation Revolution.
Maria Teresa Horta perdeu, recentemente, o seu companheiro de vida.
Este seu último livro de poesia é uma bela homenagem a esse amor, a esse homem. Uma homenagem onde a perda, a ausência, o luto marcam igualmente presença.
Para os amantes do discurso poético este volume é uma pequena maravilha de sentimento.
Poesia não é um género que predomine nas minhas leituras. Ainda assim, decidida a ler mais poesia em 2024, escolhi um livro de um autora cuja ação política admiro. Que bonito e devastador amar desta maneira!
Deixo o meu poema preferido numa das primeiras páginas:
“O abismo dos teus olhos tinham o tom da tua turvação
de uma sombra ensimesmada de inquietação sem cura
entre a vertigem e a queda entre a perda e a fissura”
[2022]: Já sabem que não gosto de escrever sobre a poesia que leio porque me sinto incapaz de fazer justiça a algo que não domino, mas, porra, a paixão que se sente neste Paixão!
À minha vida faltava estética. Eu não sabia qual a melhor forma de a encontrar, até que olhei para a poesia e percebi que era aí. Pode ser tão simple, um pequeno poema de cinco linhas e o mundo torna-se melhor, o ar mais respirável, o céu mais azul. A vida ganha outro sabor. Ao olhar na prateleira da loja e ver um livro denominado Paixão eu não tinha escolha senão trazê-lo comigo. Paixão é uma elegia ao amor da vida de Maria Teresa Horta, o seu marido, que morreu em 2019. Em forma de homenagem, a poeta deixa-nos viajar com ela pela sua paixão, pelo desejo que nutriu por um homem que a amou bem e, por fim, pela solidão que fica quando os que mais amamos nos deixam.
Acordo “Espero-te atordoada desavinda com o sonho sem logo entender a falha
“O que fazer da paixão quando o silêncio é mais fundo
que o bater do coração?”
ROSA INDIZÍVEL
“Quando o desejo é tanto que nada parece impossível // Tu dizes-me sussurrando: — Oh, minha rosa indizível!”
INCÊNDIO
“Limito-me a sentir-te simplesmente // A beber o teu cheiro cheia de sede // A tomar-te nos meus braços neste incêndio // Deixando-me afundar de tanto querer-te”
CRUELDADES
“Sou da condição do voo vivo no gume da faca // na própria ferida da ferida se o poema desacata // E se as palavras invento visto-as com os punhais e os espinhos do pensamento // Evito silvas e frestas as crueldades fatais retiro o selo do lacre // Misturo o muito e o mais”
TANTO NADA
“Tanta saudade assustada tanta dor que não perdoa // Tanta paixão desmanchada assim doendo o que doa // Tanta vertigem de nada tanto nada que magoa”
RIGOR
“De ti sei a raiz do sentimento o lugar do rigor rasgando a alma // Entre aquilo que és e não o sendo no turvado olhar jamais se acalma // Percorro solitária o meu invento e se à razão eu sempre cedo e tudo arrisco // Ao destino retiro o ferro da paixão mas da fogueira do corpo não desisto”
PRESSA ENREDADA
“Deixa amor que eu te queira com uma pressa enredada // de paixão e de desejo tecidos com os meus beijos e o teu sussurro de lava // A tua pele, o teu cheiro onde sempre furtivo o meu sonho se aninhava // Deixa amor que te deseje nesta pressa enredada”
JOGO
“Quando me despes o corpo ganho a sombra // dos teus dedos // Da tua boca o meu vício // da minha boca o incêndio // Quando sedenta me dispo com os teus lábios me visto”
Rasurei a palavra “amor” do verso “amor errante” e, por cima, escrevi “paixão”. Esperava encontrar poemas sobre um amor saudável e belo, sobre a paixão que envolve e sustém a relação entre duas pessoas. No entanto, rapidamente me apercebi dos pequenos detalhes que, de forma subtil, iam denunciando a toxicidade desse amor, e fui teletransportada para experiências passadas menos felizes de “amor [com o] narciso”.
A escrita de Maria Teresa Horta é deliciosa, empática, elegante e, acima de tudo, profundamente inteligente na forma como encadeia verso a verso, imagem e sensação. A estrutura é coesa e, para quem, como eu, já atravessou uma experiência semelhante, torna-se evidente que este é o fluxo natural dos acontecimentos: da paixão à solidão, da solidão ao luto.
Se houvesse ainda mais um capítulo, acredito que a autora teria acrescentado que, depois do luto, chega o “até ser não”: o momento de ser plenamente ela própria, livre, no não definitivo a essa paixão.
Este livro lê-se quase num sopro, contudo, é de uma humanidade e sensibilidade comoventes, uma vez que orbitamos pela saudade, pela solidão, pele nervosismo, pelo desejo, pelo que nutrimos pelo outro, pela antecipação, pela felicidade pura, pela presença que se mantém, mesmo que haja uma morte para chorar. E em nenhum momento esconde a vulnerabilidade dos seus sentimentos. Na lista de poemas favoritos, tenho de destacar Paixão, Vulnerável, Saudade, Desnorte e O Teu Cheiro.
Paixão é uma ode ao que não se esquece, por mais que o coração esteja ferido, porque há memórias que não pretendemos perder. Regressarei a estes versos que unificam.
Muitos poemas românticos bem bonitos. A última parte é mais emocionante porque ela fala da solidão, saudade, luto... Primeiro livro que eu li dessa brilhante autora portuguesa, e pretendo ler outros.