Percebi que tinha gostado muito de Blecaute quando me peguei seguindo as ordens do livro. Sim, ordens. Faltando apenas 10 páginas para o final, após a maior reviravolta em um livro repleto de reviravoltas, Rubens Paiva pede ao leitor para esperar. Esperar? Esperar por quê? Diabo! Quero ler! Dito isso, esperei, esperei 30 minutos buscando algo a fazer, empurrando com a barriga o sentimento de que realmente queria ver o final do livro. Ao contrário dos personagens, eu aprendi a lição e em algum momento, decidi escutar a voz de quem havia me contado uma linda história, então esperei. 30 minutos inteiros. longos.
Valeu a pena? Sei lá, não sei como seria ler logo depois, talvez o choque fosse algo mais impactante do que a congruência, mas ela serviu de algo. Quando Rindu, o covarde, que havia decidido (no apocalipse, por sinal) que tinha medo demais de moto para andar, estava andando de moto, bateu em mim que havia se passado anos. Seu filho havia nascido, quebrou a promessa para Martina, algo que nunca fez com Mário, acho que ficou claro quem ele amava mais. Mário, Martina e Rindu, que bagunça esse trio de românticos. Os três são idênticos e opostos, ficando cada um em alguma posição que o outro já esteve, os três apaixonados um com o outro, mas nenhum deles sabendo falar sobre isso, é muito complicado, afinal.
O maior problema do livro é talvez o motivo por ter esperado, congruência. Senti falta dessa congruência o livro todo. É um livro curto, porém, rapidamente se desinteressa por algo e segue em frente com outra coisa, o que talvez seja proposital, sendo a forma de escape dos três jovens adultos em um mundo já parado. Mesmo assim, mesmo proposital, mesmo demonstrando uma congruência temática valiosa, o livro ainda é muito veloz para mim. Personagens vão e vem, mudam de ideia e voltam atrás apenas para mudar de novo, fazem algo por 3 páginas e de repente não a fazem mais... é difícil ter um senso de permanência dentre as 200 páginas, acredito que isso não é necessariamente algo negativo, mas nesse caso, sinto que perdemos certas nuances no meio de tanto movimento.
Infelizmente, acredito que isso é uma reflexão do trabalho de um jovem escritor que havia apenas a alguns anos, nem pensado em escrever algo. Teve o sucesso de "Feliz ano velho" jogado em seu colo e então percebeu que o público talvez achasse algum valor nas suas palavras. Para um escritor tão ousado a ponto de quebrar a 4a parede pedindo ao leitor para descansar por 30 minutos para ter um epílogo com mais ênfase, Rubens Paiva parece até assustado com a possibilidade de entediar o leitor. Nada do livro se estende, quando Paiva quer retornar a algo, segue em frente e depois retorna, é muito estranho, mas ousado. Essa movimentação serve como uma justaposição ao mundo estático, que de estático não há nada, a partir de certo ponto.
"Blecaute" é estranho, estranho bom, mas estranho. Acho que se Rubens Paiva tivesse ainda mais confiança (O que parece loucura de dizer considerando o livro que li), 'Blecaute' poderia ser uma obra de arte de exploração de personagem e exploração temática. Mas o medo de entediar o leitor bagunça esses 3 jovens de tal maneira com que os temas acabam também se perdendo no meio da narrativa, vamos de reflexões filosóficas, a sexo, a identidade queer (não explorada ou aprofundada) de Mário e Rindu, a paternidade a violência a cenas de ação a um 'road trip' (sem brincadeira), tudo seguindo página após página. É uma bagunça, mas é impossível parar de ler após começar, o que fez a ordem do artista ser ainda mais dolorosa...