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A charca

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Língua Morta n.º 123

Capa a partir de pintura de Max Ernst.

122 pages

Published August 1, 2021

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Manuel Bivar

4 books8 followers

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5 stars
56 (47%)
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3 (2%)
1 star
2 (1%)
Displaying 1 - 18 of 18 reviews
Profile Image for Vítor Leal.
125 reviews25 followers
February 25, 2022
4.5

"São muito poucas as histórias felizes de homossexuais que se afirmam enquanto tal e conseguem continuar a viver no campo. O campo é o lugar de fuga, e a cidade o seu destino natural, o seu habitat"

https://www.youtube.com/watch?v=di-Kc...
(Manuel Bivar conversa com António Guerreiro e Diogo Vaz Pinto)
Profile Image for André Gamito.
15 reviews1 follower
May 19, 2024
Um livro que para mim muda tudo e que precisava de dizer aquilo que tem de ser dito. Em primeiro lugar, um livro fora de convenções, urgente, cheio de fôlego, intensidade, que rompe este véu dentro daquilo que é chamada a 'literatura', que ainda se escreve de certa forma sem se saber bem porquê, talvez porque a fórmula é segura, para nos dar uma abanão necessário acerca do mundo. Quando as críticas a este livro se focam na forma e nas estruturas narrativas, sabemos com que tipo de público estamos a lidar. Aliás, Manuel Bivar deve saber quem eles são, e este livro pode ser exatamente contra eles. Os acomodados, os que tudo sabem, os que exigem a sua ideia ao ato dos outros.

Há denúncias urgentes, há mudanças urgentes, e a urgência é para mim o ponto fundamental deste livro. A personagem quase que nos agarra pelo colarinho para gritar e dizer o que está errado, e a forma de escrita do livro parece-me essencial porque não está para perder tempo com literatices, descrições alongadas, demoras a que se davam os luxuosos escritores nas épocas do luxo e quando os livros eram escritos apenas para a classe que sabia ler. Aqui há uma estetização, é evidente, mas serve para amplificar a mensagem e a experiência da personagem. Num mundo altamente fragmentado, as deambulações não parecem descabidas. Não há razão para ordem naquela cabeça desordeira, isto não é uma tese formal, e ainda assim tudo se junta através de um fio condutor que deixa bem claro o que se pensa ali. Todas as ideias são argumentos que chegam à mesma conclusão e que fundamentam o sentimento de quem fala.

A máxima "show, don't tell" parece de facto, agora, um luxo. É preciso chamar os bois pelos nomes e incentivar à ação ou pelo menos começar o diálogo, e esta personagem tem dentro dele os problemas que temos tendência a ignorar nesta sociedade de técnicos sedentários, de entretenimento, de computadores, de podridão, de consumo, da perda do contacto com a terra, da inabilidade das mãos e do corpo, da burocracia castrante. Aquela "bicha rural" fez o que muitos já fazem hoje: fugir para o mato e revoltar-se contra a metrópole devoradora, nem que seja para sentir o que é atuar no mundo, sentir-se parte do território. As ruas não são das pessoas, são de turistas, ubers, gente amorfa e com pressa. A cultura é uma simulação de um ideal, tal como a escrita. Este livro mostra os grilhões mentais a que estamos presos em todos os aspetos.

Depois de ler este livro e reconhecer esta urgência, é-me agora difícil ler livros ociosos. Digo ociosos porque exigem do leitor um luxo de atenção à irrelevância em tempos com tanto para fazer, e este livro é de ação, não cheira a escritório, acorda o indivíduo para a radicalidade de uma distopia já em andamento mas que ninguém vê porque ninguém sai de casa, e quem o faz restringe-se à sua ilha pessoal ou a espaços altamente controlados e civilizados. Já quis escrever um livro assim porque vi parte desta realidade do abandono do interior, dos rios que são fios de lama, da seca extrema, da questões agrícolas, e surgiu um livro que dizia tudo isso e muito mais. Impactou-me brutalmente.

Não sendo a favor do sistema de rating, dou cinco estrelas pelo impacto que teve em mim e para tentar impulsionar a leitura de alguma maneira. Merece ainda releitura.
Profile Image for Diana.
45 reviews15 followers
April 2, 2022
O brando rumor do nascer do mundo.
Profile Image for Paulo.
53 reviews1 follower
February 7, 2026
Apocalipse necessário, numa prosa inovadora e de fôlego que nos interpela e incomoda, com humor e ironia.
A descrição de D. Sebastiao é disso exemplo, desafiando o mito e uma certa portugalidade bafienta.
Os burocratas, as universidades, as redes sociais e a apatia generalizada, sem que se consiga olhar os lírios do campo, ou o dia ser limpo noutra feliz alusão a Sophia.
Nós, no nosso tempo, à espera do apocalipse.
Boa surpresa.
Profile Image for José Pereira.
440 reviews31 followers
January 16, 2024
Não é mau livro, mas onde falha, falha confrangedoramente.
A prosa tem um bom ritmo, e a obra é percorrida por um sentimento palpável - uma raiva viva e entusiasmante - que agarra o leitor, e que não é fácil de pôr por escrito. Encontra-se ainda, aqui e ali, belas e sui generis descrições do mundo natural.
Há, no entanto, muito com que embirrar. A falta de conteúdo narrativo parece mais uma desistência do que efeito deliberado. O que o substitui - um fio de consciência excessivamente gasoso e geral - não é populado por ideias particularmente perspicazes ou originais; especialmente quando o narrador se dedica ao comentário social (básico, básico). Tudo isto é piorada pelo gastérrimo tom crítico, impolidamente sardónico que este adota na maior parte to tempo.
Profile Image for Carlos Natálio.
Author 5 books42 followers
September 30, 2026
Um pouco aquém, sobretudo por sentirmos um certo deslumbre na terraplanagem dos lugares comuns da ecologia dos últimos anos. Processo que sinto tem um pouco menos a ver com a dita charca e mais com uma vontade de mostrar o gráfico e o grotesco como estilo cru, uma certa expectativa de chocar o leitor que se esperaria mais ou menos acomodado e ingénuo. Como comentário contemporâneo é muitas vezes certeiro, por exemplo quando nos fala das obsessões com os ecrãs, os incels, a domesticação e o afastamento da natureza.
Profile Image for Paulo Bugalho.
Author 2 books74 followers
June 21, 2023
Podemos pender mais ou menos para o Apocalipse e em alguns a escolha terá mais a ver com o feitio, ou o humor com que acordaram, do que com a avaliação dos factos. Demasiada lucidez cega e, para quem se queira defender da vida, haverá sempre a constatação de que, até agora, as coisas têm continuado. As visões do fim, as canções de decadência, persistem ao longo dos séculos, e isso prova a persistência do resto, apesar de tudo. Olhando o clima, não faltarão dados para nos alimentar o medo, quer levemos a palavra clima no sentido literal quer a perspectivemos na amplitude maior do seu sentido. As coisas não parecem correr pelo melhor. Embora não falte gente a vir lançar avisos mais directos, é verdade que a literatura se habituou a pegar no caos e a transformá-lo em algo imaginário, lançado no futuro, ou num tempo ou espaço alternativos, alimentando a ficção com fuel metafórico - é terreno de onde se tiraram bons livros, seguramente. Já o autor deste parece ter optado (parece-nos que com sucesso) por uma via menos etérea e decido apresentar a distopia agora. Esta narrativa de um homem que foge para o campo e se interna na montanha, disposto a ripostar ao caos urbano com a reconstrução florestal e os gestos mínimos para ressuscitar um ponto de água, um ecossistema circunscrito que salve a espécie (a tal charca do título, que charca será apenas e no fim um pobre lamaçal) só não tem laivos de mito porque não consegue, precisamente, ressuscitar o paraíso, e vem encontrar na natureza a mesma morte que no interior das ruas, a mesma invasão, o mesmo apodrecimento, a mesma queda. O fio da narrativa não conterá muito mais do que isto mas serve para cortar a retórica que haveria em apresentar uma visão apenas ensaística de semelhante catástrofe. A rememoração de sevícias passadas à custa da homossexualidade do protagonista (quer quando pretende mostrá-la, à sexualidade, quer nos momentos em que a sonega, recorrendo a tentativas ascéticas), os passos dados na burocracia da restauração ambiental, os discursos técnicos sobre fauna, flora e respectivos parasitas, ou de revisão histórica (a análise gay do mito sebastianista, por exemplo), ou sobre a piromania como consequência natural da repressão económica, são pretextos para a exposição de um problema, e o problema, aparte hipérboles que talvez coubessem num romance de ficção científica (muito poucas, se lermos bem) é o presente. O presente contém, não o podemos negar, quase tudo o que Bívar lá coloca, mesmo que a ele lhe caiba, como autor (era o que mais faltava) dar-lhe a forma que pretende. Podemos sempre, consoante nos calhar o dia, apresentar argumentos contra estas feridas, mas não podemos negar a agilidade dos truques com que ele as apresenta. E a literatura é para isso que serve: não para sublinhar o que pensamos, mas para nos convencer de outras coisas.
Profile Image for Pedro Gomes.
Author 2 books19 followers
August 13, 2023
Com uma prosa exuberante, bem ligada e verbalmente prolixa, Manuel Bivar oferece-nos uma narrativa à primeira vista um pouco desconexa, em que não descortinamos imediatamente o sentido na colecção de episódios que mapeam um universo estranho. A sua natureza insólita é uma virtude; sendo que Bivar é completamente desabrido e impudente, não se coibindo por nada. É talvez estranho que haja menos vozes como esta, que falam do presente com uma aparência distópica, descrevendo-o como lugar pós-apocalíptico que efectivamente é. Nota-se que Bivar corre por fora, não tropeçando na tradição literária estabelecida, olhando-a com mera curiosidade.

Este livro não é sobre a contemplação, mas sobre a imersão. Não é sobre o conhecimento do todo, mas sobre a obscuridade das partes. Sobre a irrelevância da extinção, a permanente imanência da transformação. Há prenúncios do fim ou de um recomeço. A espécie sobrevive essencialmente em cativeiro.
Profile Image for Pedro João.
45 reviews2 followers
April 9, 2025
pútrido, primitivo, revoltante e irredimível – e por isso tão saboroso e tesudo e decadente. graças a deus que é breve, porque às vezes também já não há pachorra para mais cinismo PrOvOcAdOr e às vezes é só um bocado Pierre Guyotat de trazer por casa. mas eu precisava de raiva homossexual escrita em português, é verdade
"Ele não respeitava o casal de bichas a quem os aldeões tinham ateado fogo à casa simplesmente porque eram paneleiros, como todos os dias faziam questão de lhes chamar. Ele tinha vergonha delas, por antes de se terem ido embora, não terem puxado fogo à aldeia inteira, ao lar, à junta de freguesia, à mercearia, e à creche."
Profile Image for Washington Ricardo.
4 reviews
September 21, 2025
A narrativa, os conceitos apresentados e a perspectiva que o livro nos apresenta é forte e inventiva, mas ali, do meio para fim, a discrição e a fusão da bicha e do tudo com a natureza (que é a grande força do livro) dá lugar a um fluxo de consciência e a um comentário social chatos e batidos.

Recomendo muito a leitura. Na balança final vale a pena e certamente enriquecerá o repertório de quem o lê.
19 reviews5 followers
January 13, 2026
Um livro que põe o dedo na ferida e chama a atenção para a urgência da mudança, mas não faz sugestões.
A escrita crua ajuda a passar a mensagem da urgência. Há partes que achei excessivamente explícitas e repetitivas.
Profile Image for Joana.
159 reviews1 follower
August 3, 2026
“O que salva e previne a desgraça não é o conhecimento mas a dúvida.”
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