Quando Camões viu Dinamene ser levada pelas ondas – e na direção oposta – a bolsa com Os Lusiadas sumindo na tempestade, teve menos de um segundo para decidir se deveria saltar atrás da obra ou, mergulhando para o outro lado, socorrer a mulher amada. Uma pergunta desarranjou suas certezas — quanto valia o Poema diante do Amor? —, mas não dessa forma, em palavras, já que não havia tempo a perder. Tomou impulso no cordame do convés e pulou os braços esticados para alcançar a jovem que se debatia em desespero. Caiu na água de mau jeito, mas agarrou o corpo de Dinamene, primeiro pela cintura, depois pelo pescoço e enfim pelos cabelos, puxando-a para longe da embarcação que se despedaçava e submergia. Ainda deu uma braçada à procura do manuscrito, gesto inútil em meio aos destroços que se espalhavam com o naufrágio.
— Estou aqui — dizia, sôfrego. — Estou ao seu lado.