Poucas figuras públicas foram mais brasileiras do que a arquiteta italiana Lina Bo Bardi. Chegando ao Brasil logo após a Segunda Guerra, ela se afeiçoou à cultura brasileira de tal maneira que se tornou uma de suas principais intérpretes, capaz de uma leitura das tradições locais ao mesmo tempo rigorosa e abrangente. Crítico de arquitetura e ensaísta de mão-cheia, Francesco Perrotta-Bosch examina a trajetória dessa artista brilhante à luz da seguinte questã como uma estrangeira foi capaz de enxergar tanto de um país que não era o seu, a ponto de traduzi-lo para os próprios brasileiros?Para Lina Bo Bardi, tudo poderia ser projetado, da arquitetura às páginas de revistas, de instituições culturais aos cardápios, dos acontecimentos às recordações. Tudo ela quis decidir — até mesmo seu país. Lina tinha horror à oficialidade e aos ritos sociais da vida burguesa. Foi comunista, teve papel importante no combate ao regime militar, mas era também a senhora de uma majestosa casa modernista no Morumbi e esposa de Pietro Maria Bardi, o todo-poderoso escolhido por Assis Chateaubriand para criar e gerir o Museu de Arte de São Paulo. Com base em pesquisa extensa, minucioso levantamento de fontes inéditas, calcado em dezenas de entrevistas, bibliografia brasileira e italiana, mas sobretudo narrado com leveza e numa estrutura temporal engenhosa, este livro leva ao limite as possibilidades do gênero biográfico. Como a obra de Lina, é denso, alegre e sedutor.
Me pareceu que a linguagem usada pelo autor é bastante coloquial em determinadas partes do livro o que quebra o ritmo de leitura de uma maneira ruim pois o aspecto é muito parecido com uma revista de fofocas ou tablóides. A expressão ‘ Lina fez a egípcia’ para a elite paulistana não soa bem para uma biografia. Devo estar ficando mais chata com o tempo, provavelmente. Mas ler a história de Lina, uma mulher inspiradora cuja história tem uma potência dilacerante, como se lesse um blog foi um tanto frustrante. Benjamin Moser ficou ainda mais elegante com suas biografias de Lispector e Sontag.
A função da curadoria artística é organizar as obras de modo a captar e entender melhor a humanidade como um todo, expondo sua expressão e história, sua função e necessidade. Essa ideia defendida pelo casal Bardi resume muito bem a construção da biografia de Lina Bo Bardi de Francesco Perrotta-Bosch. A fuga da cronologia e a opção por agrupamentos estratégicos levam a uma compreensão muito rica de uma das mais importantes arquitetas que existiu.
Confesso que comecei com um pouco de receio, pois a apresentação de uma personagem feminina é sempre um trabalho delicado. Entretanto, o receio foi logo abandonado e eu fui envolvida pelo livro.
É impossível encontrar um adjetivo que consiga exprimir o quanto a figura de Lina é apaixonante. Sua inteligência se mostra em diversas áreas, transformando sua biografia em um retrato muito diverso do Brasil do século XX, perpassando os ramos político, arquitetônico, teatral e cinematográfico.
Após algumas centenas de páginas me sinto mais próxima de Lina e de tudo que ela representa. Além disso, há uma sutileza nos lapsos que são deixados, de modo que o leitor é instigado a buscar preenchê-los.
Termino a leitura com um pouco de esperança, com uma nova idealização e uma nova perspectiva do que tanto a arquitetura, quanto a arte ou a sociedade podem ser.
É uma bela biografia se Lina que, às vezes, peca pelo deslumbramento com a arquiteta em vez de observá-la de maneira crítica. O formato não-cronológico também é bastante interessante, mas acaba reservando as últimas das 450 páginas a anedotas e eventos secundários que acabam cansando o leitor.
Leitura muito interessante e bem documentada sobre um dos personagens mais fascinantes da história do Brasil e da Itália. O autor soube captar muito bem as várias fases da arquiteta, valorizando, em sua narrativa, as várias Linas e a relação da mesma com as cidades da sua vida, de Roma e Milão, na Itália, até São Paulo e Salvador, no Brasil. Gostaria de destacar a escolha do autor sobre adotar uma ordem não cronológica dos fatos, escolha que, de início, achei esquisita mas que depois aprendi a apreciar pelo fato de ser baseado justamente em uma das declarações da própria Lina sobre a não lineariedade do tempo. Pelo que percebi, o livro segue uma "ordem temática" , i.e., os capítulos seguem uma ordem por tema (quando um capítulo fala de um tema da vida da arquiteta, os próximos capítulos vão falar disso até que o tema se esgote. Identifiquei essa divisão temática com as partes sobre o MASP, sobre o Solar do Unhão, sobre o seu percurso na acadêmia, sobre a casa de vidro etc…). A única ressalva que eu tenho sobre o livro é que, por vezes, ele acaba sendo repetitivo, contando a mesma história várias vezes.