Morreste-me, texto que deu a conhecer o jovem escritor José Luís Peixoto, é uma obra intensa, avassaladora e comovente: é o relato da morte do pai mas, sobretudo, o relato do luto, e ao mesmo tempo uma homenagem, uma memória redentora.
Toda o livro é um diálogo com o pai e a sua ausência, apelando tanto aos motivos da recordação como da necessidade de sobreviver à perda.
Foi durante esse doloroso luto, mergulhado em sofrimento mas, também, transportado por uma melancolia salvadora, que José Luís Peixoto escreveu um livro que se tornou referência para leitores em todo o mundo que, partilhando ou não a sua experiência, se reconhecem numa obra intensa, poderosa, cheia de ternura e compaixão.
Raramente a literatura portuguesa produziu um livro tão partilhado."
Este livro tem 60 páginas. 60 páginas que são uma montanha russa de emoções. É um livro poderoso e precioso.
Quem já sentiu uma perda significativa na vida, quem já perdeu alguém que lhe era muito querido vai identificar-se perfeitamente com esta preciosidade. A quem isto felizmente ainda não aconteceu, vai prepará-lo para isso e um dia vai lembrar-se da leitura deste livro quando passar por essa experiência que nos marca, penso eu, para sempre...
É um livro para chorar do início ao fim. Este livro dói. É doloroso de se ler. José Luís Peixoto fala-nos afinal, da morte do pai. Não é uma leitura fácil. Tive que o interromper algumas vezes para respirar fundo.
O autor experienciou das perdas que mais nos doem e transpôs esse sentimento na perfeição. Ouviu-se a ele próprio, ouviu-nos, chorou e chorou connosco e, mais tarde criou este presente para nós.
Cheguei onde sei que estás, onde ficas, ficaste; onde estás, sob uma campânula de tempo cristalizado, tempo que não passa, mármore. Tem o teu nome, pai. (...) Escrito para sempre como as nuvens, como as coisas que não morrem.
Este foi o primeiro livro que José Luís Peixoto publicou. O domínio da língua não é tão perfeito como em obras posteriores, mas a essência está lá, bem como a sensibilidade. Desafio qualquer um a chegar ao fim sem, pelo menos, um aperto na garganta.
Um breve, mas profundo e poético relato sobre o luto. Sobre uma tentativa de luto. O luto pela perda de um pai, vítima da doença.
Uma conversa entre o filho e o seu pai “impossivelmente morto”. Uma conversa que recorda os últimos momentos de vida em casa, no hospital, falando também do presente, no regresso a uma “terra cruel”.
Uma profunda entrega ao luto, um intenso mergulho na dor, na dor da ausência, na vulnerabilidade de quem perde um pilar, a angústia de quem perde quem se ama. A vulnerabilidade de quem se sente impotente em ajudar. O querer e não poder é doloroso.
José Luís Peixoto, neste livro, nestas 60 páginas, reflete (e faz-nos refletir) sobre o amor, a vida, a perda. Um livro sobre a transição para a vida adulta. Um livro tristemente bonito. Faz-nos refletir que o amor perdura. O amor perpetuar-se-á alicerçado nas lembranças dos momentos de convívio. Uma eternização da figura do seu pai. A sua casa embora vazia, está repleta da sua presença, dos seus objetos, da sua memória.
Um pequeno livro, com uma forte carga emocional, extremamente intenso e tenso, escrito com pesar, sensibilidade e sofrimento. Um livro que no fundo é uma despedida, uma complexa despedida. As despedidas nunca são fáceis. Este livro não é fácil. Li-o com um constante aperto no coração. Não há como ganhar imunidade a este tipo de dor.
“Morreste-me”...Numa palavra, o resumo de toda uma dor. Li este livro tão avassalador e intenso num jardim. Felizmente estava de óculos escuros, porque chorei da primeira à última página. Nunca estamos preparados para a morte de um pai, de uma mãe e muito menos para a morte de um filho. Perdi o meu pai de forma abrupta e ao ler este livro revivi toda a dor, que ainda não consegui resolver dentro de mim. Pai morreste-me, morreste-nos, sem qualquer aviso, sem me dares tempo de te abraçar, de me despedir de ti… “Vou. Parto para o que sobra de ti e tudo são resquícios do que foste. Parto de ti, viajo nos teus caminhos, corro e perco-me e desencontro-me no enredo de ti, nasço, morro parto de ti, viajo no escuro que deixaste e chego, chego finalmente a ti. Pai”
Os ciprestes falavam lamentos acumulados. Os ciprestes levantam-se negros de ti.
In many Mediterranean countries, the cypress are symbols of mourning. When I stand in front of those tall trees, I always get a chill.
José Luis Peixoto lost his father to cancer and this short book is a beautiful homage to him. It was his first book and a few years later, he won the José Saramago prize for Nenhum Olhar (which I have also read).
It starts with a return to his father’s place in rural Portugal. As he calls it, this cruel land. The sun, the sky, the land, the sea. The house. The bed where as a kid, he would jump on it to wake his father and start the day. Memories. The past and all that it has left. Now shadows.
Sou fã incondicional do José Luís Peixoto, e este livro foi um daqueles murros no estômago... Encontrei-o numa livraria uns anos depois de ter sido publicado e, por coincidência, após o meu pai ter morrido e também de cancro... Foram muitas as lágrimas que me acompanharam na leitura, por tão real que tudo aparece descrito. Uma bela e triste prova de amor.
21.12.2016 Voltei a estar na casa em que vivi boa parte da minha vida com os meus pais, para aqui, agora apenas com a minha mãe, passar boa parte das minhas férias de Natal. Há 13 anos também não parecia Natal tal como agora, em que acordamos já vai o sol bem alto e as temperaturas nos baralham. Há 13 anos foi o último Natal em que estivemos todos juntos, éramos também cinco e havia já bem visível o fantasma do cancro a pairar pela casa. E tal como em "Morreste-me" mentíamos todos os dias: "vais ficar bom pai, vais ver". Sabíamos que não, mas mentíamos, a ele e a nós próprios. Mentimos muito e sofremos muito, sempre em silêncio, quase como se pronunciar a palavra cancro fosse proibido ou acelerasse o processo que o levaria de nós. Ontem, no meu quarto azul onde durmo, ainda e sempre, tão profundamente como se estivesse protegida de todos os males do mundo, procurei nas minhas estantes esta obra e de um só fôlego voltei a lê-la. Há tanto de comum com a nossa estória que me deixa sempre de lágrima a rolar pela face... A sensação que o José Luís também escreveu por mim, por nós, é imensa. Por tudo aquilo que nunca fomos capazes de dizer, por todos os sentimentos que nos ficaram para sempre enrolados num nó na garganta, estou grata a este escritor da minha geração que nos sabe envolver e nos sabe mostrar tão bem que amar os outros (e principalmente aos nossos pais) não deve ser guardado apenas para nós. Há 13 anos também era Dezembro mas parecia Outono.
Se não leram esta obra, procurem e leiam. Pode muito bem ser uma boa forma de lavar a vossa alma... Uma lindíssima ode ao amor que nos une a quem nos criou e que um dia - assim de repente - teve de nos deixar... para sempre.
Reli. Mantenho a minha opinião. Queria muito ter gostado deste livro, não me tocou nem um pouco. ----------------------------------- Queria muito ter gostado deste livro. Por múltiplas razões: por aquilo que certamente representa para quem o escreveu; por reconhecer que está bem escrito; por ser um relato deveras interessante, até do ponto de vista psicológico; e, por fim, por ser de uma das maiores vozes do espectro literário nacional contemporâneo. Mas não gostei. Não significou muito para mim. O relato, de sessenta páginas, onde a realidade se mescla com a ficção, é de um narrador desesperado pelo embate desconcertante da morte, crua mas insistentemente poetizada pelo mesmo narrador, do seu pai. Há excesso, no meu entender, de poetização daquilo que, aqui, se queria - ou pelo menos, eu queria - cru. E nu. E duro. E avassalador. O livro fica-se, sempre pelo meio-termo. Pelo mais-ou-menos. O que não se coaduna com uma perda de tamanha importância. Se existe desespero, não existe a verbalização - que só está à altura dos grandes autores - das grandes emoções que semelhante perda representa. Não há a transposição para palavras de tudo aquilo que apenas se entrevê através do relato. Entrevê-se, ao longe, e sem concretização, a angústia suprema. A sensação de impotência. O desespero colossal. Sem concretização, repito. Daí não ter estado sequer perto de me emocionar com o que foi escrito. Esta é uma das primeiras obras de José Luís Peixoto. Acredito que o poder narrativo do autor tenha melhorado. Se isso não acontecer, não é um autor que me arrebate.
Um pequeno (grande) livro sobre luto e perda, transformado num belo poema de amor e saudade.
"Descansa, pai, dorme pequenino, que levo o teu nome e as tuas certezas e os teus sonhos no espaço dos meus. Descansa, não vou deixar que te aconteça mal. Não se aflija, pai. Sou forte nesta terra nos meus pés. Sou capaz e vou trabalhar e vou trazer aqui o mundo que foi nosso. (...) Sem ti e sempre contigo. A tua voz a dizer orienta-te, rapaz. Não se apoquente, pai. Eu oriento-me. Pai, não se preocupe comigo. Eu oriento-me."
“Pousei-te as mãos nos ombros fracos. Toda a força te esmorecera nos braços, na pele ainda pele viva. E menti-te. Disse aquilo em que não acreditava. Ao olhar amarelo, ofegante, disse que tudo serias e seríamos de novo. E menti-te. Disse vamos voltar para casa,pai;”
Quando iniciei esta leitura já sabia o que ia encontrar: rasgos de dor, de saudade e as recordações que a perda de um pai nos faz carregar. Trata-se de um relato pessoal mas não singular, pois é tão igual aos relatos que tantos de nós teríamos para contar.
Li este livro numa viagem de avião e chorei! Chorei muito, do início ao fim do livro! Esta história tão pessoal e, no entanto, tão igual à minha deixou-me de rastos, virada do avesso, destruída. Foi como se raspassem uma ferida que já estava quase sarada e se abrisse de novo, fazendo sair toda a dor. Demasiado bem escrito!
Este livro "deu cabo de mim". Penso que é assim que melhor explico. Ao longo do livro José Luís Peixoto conta-nos a história da morte do pai. Mais do que isso: conta-nos o que ficou. Neste caso o que ficou é algo maior do que aquilo que existia: o vazio maior do que a presença, a dor chacina a alegria dos momentos passados, os sítios têm sempre algo a dizer.
Este livro é como uma carta, que também pode ser um testemunho, é a prova indelével do que se passa a carregar depois da perda de um pai.
Aqui é tudo contado sem freios ou filtros, talvez por isso atinja a parte mais macia do coração. Este é também um livro difícil. Não há pausas para descansar da dor, não há remédio que atenue a força dos pensamentos. Talvez se a memória não existisse fosse possível continuar a viver livremente. Depois da morte as ruas falam.
Li este livro num sítio público e não consegui evitar chorar (muitas vezes). É pesado. Vale a pena pelo retrato fiel da ausência. No final fica aquele arrepio por as palavras escolhidas serem as certas.
É escusado pensar que repetir a leitura deste livro, uma e outra vez, possa causar alguma espécie de imunidade à dor e ao desespero aqui presentes. Dói tanto como da primeira vez. Quando a morte teima em passar à nossa beira e a levar consigo pedaços de nós, deixando em troca buracos vazios, de saudade, fazer esta leitura é como que uma catarse. Não conheço nenhum autor com esta capacidade de nos desbravar o íntimo e acordar em nós todos os medos e angustias e espelhá-los nas suas palavras. E de forma tão bonita. Como me disse há pouco tempo um outro fã de Peixoto - é pura "agonia literária".
Papá: Este é o livro que eu gostaria de ter escrito. De morrer! Sobre perder um pai... Doloroso! A ler sempre de lágrima no olho :( Doença.Morte.Luto. Saudade.Vazio. Recordações...Agonia e desespero! De falecer... Sobre sentimentos puros e verdadeiros! Sangue,carne e coração! Muito intimo. Triste porque vai tão longe. Com carinho. Que dói e que mata. Pedaço de nós que vai... Ficam buracos vazios cheios de saudade. Uma catarse! Medos e angustias traduzidos em palavras E de forma tão bonita.Sublime!
Segunda leitura deste livro que, pela simplicidade e beleza, mas também pela identificação e sinceridade, me leva sempre às lágrimas. Leio-o invariavelmente em voz alta, como faço com a restante poesia, mesmo que seja incluído entre a prosa do autor. E voltarei a lê-lo muitas outras vezes, no futuro, quando quiser pensar naqueles que amo e já não posso tocar.
«(...) quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir.» p. 9
“Como eu, esperavam; não a morte, que nós, seres incautos, fechamos-lhe sempre os olhos na esperança pálida de que, se não a virmos, ela não nos verá. Esperavam.” - José Luís Peixoto
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“E pensei não poderiam os homens mor- rer como morrem os dias? Assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer natural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.” - José Luís Peixoto
"Onde estás, pai, que me deixaste só a gritar onde estás? Na angústia, preciso de te ouvir, preciso que me estendas a mão. E nunca mais nunca mais. Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei."
“E tu, ormai senza passato, perduto in lui e a partire da lui eri dolore e parole, pioggia e notte. Tu impossibilmente morto. Padre. Solo pioggia. Solo notte. E non c’è giustizia nell’insistenza di questo mattino, non c’è giustizia nell’artificio di questa primavera, in quest’esile luce. L’aria si finge respirabile, la terra acquitrinosa si finge infinita nell’asfissia di questo luogo piccolo e murato. E questo luogo che era il mondo, ora, vuoto cavo vuole essere ancora il mondo. E, in realtà, tutto si mantiene sospeso. Tutto vuole e tenta di essere uguale.”
Un libro di poche pagine: il racconto struggente, da parte del figlio, sulla morte del padre. Breve, intenso, commovente. È scritto benissimo.
“E tu, ormai senza passato, perduto in lui e a partire da lui eri dolore e parole, pioggia e notte. Tu impossibilmente morto. Padre. Solo pioggia. Solo notte.”
“E questo luogo che era il mondo, ora, vuoto cavo vuole essere ancora il mondo. E, in realtà, tutto si mantiene sospeso. Tutto vuole e tenta di essere uguale.”
Um livro fantástico cheio de sentimento. Lê-se muito bem e rápido. Uma ode ao amor de um filho por um pai. Um luto e a falta que fica para sempre no nosso coração. Sou cada vez mais fã do José Luís Peixoto
Andei a evitar este livro algum tempo porque sabia que ia mexer muito comigo. Comecei a chorar na página 4 e só parei no fim. Poderoso. Inebriante. Aqui o triste é sinónimo de muito bom.
Amanhã passaram 29 ou 30 anos ou 30 dias ou 1 dia? Amanhã vou voltar a ter 15 anos a tentar acreditar no Natal que nunca mais chegou e a tentar agarrar aquele Natal que passámos só nós, a árvore improvisada com algodão de neve a cair das tuas mãos de mãe. A tua voz feliz a dizer Feliz Natal e a fazer-me feliz naquele Natal tão simples, tão sós, mas o mais feliz que alguma vez terei. O único Natal que alguma vez terei. Mãe. “E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir.”
Um murro no estômago. Um livro que nos faz pensar, sentir, que nos mostra a dureza da perda e a luta por continuar em frente. Uma excelente obra de um escritor fantástico.
“ Onde estiveste esta noite, pai? Procurei-te para lá da memória, nos cantos que só nós conhecemos, e não te vi. Vi apenas, no negro dos cantos antes iluminados, o negro da tua falta, a dor sem fim que só se pode sentir. Procurei-te nos cantos da noite.”
não há como falar deste livro, não há como ler este livro, sem me emocionar. por isso, talvez, não tenha ainda escrito a minha “opinião” sobre ele, aperta-me o coração, nunca haverão palavras suficientes para comentar um livro tão pessoal e tão íntimo, como é este «Morreste-me», em que o autor eterniza a memória do seu Pai.
no outro dia, estava a ouvir o podcast «Chaise Longue não é Divã» e fui parar ao episódio "Como lidar com a ideia da morte dos nossos pais?" .. escusado será dizer que ia a caminho do trabalho e as lágrimas a rolarem sem controlo.
e houve uma frase que me ficou: «A morte dos nossos pais, é a morte da nossa infância.» isto tocou-me profundamente. porque na realidade traduziu-se por palavras tantos sentimentos que tenho vindo a viver com a ausência do meu Pai na minha vida, com a ausência dessa figura paterna e masculina no meu crescimento e desenvolvimento como Mulher.
tenho mesmo saudades dele. tantas, que são inexplicáveis. às vezes pergunto-me como continuei a viver sem ele, como choro tantas vezes sozinha sem que ninguém me veja, porque não quero preocupar ninguém. porque esta saudade por vezes é tão forte que tem de se manifestar de alguma forma.. tenho encontrado nestes livros os meus maiores companheiros e os que me entendem e percebem o mais profundo do meu ser.
e depois há coisas engraçadas que não se explicam, porque enquanto ouvia aquele episódio de podcast, do qual vos contei mais atrás, lembrei-me deste livro e do nada este mesmo livro é mencionado, este título que diz tanto.
como já perceberam esta não é uma opinião, é um trambolhão de palavras que sei lá, neste momento, precisavam de sair cá para fora.
REVIEW | LIVROS DE FEVEREIRO | Morreste-me, de José Luís Peixoto. ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️ 9/2020 Ficção Bem sei que este foi um livro lido em Fevereiro. Bem sei que a minha opinião já estava escrita no meu caderno desde então. Bem sei que estamos no último dia de Abril. Os últimos dias de cada mês passaram a ser os piores dias (como se atreve o sol a brilhar nestes dias?!). A minha irmã morreu-me no dia 31 de Agosto de 2019. A minha irmã. Onde ela estava havia luz. Por onde ela passava deixava sempre amor. Tinha 29 anos e criou três dos seres mais maravilhosos da minha vida, os meus sobrinhos. E faz hoje 8 meses que ela levou o Sol, a Luz. Ainda não vejo o tempo a ajudar como a gente insiste em dizer-me (Como se atreve o mundo a continuar a viver sem ela?!). As mãos tremem-me enquanto escrevo isto. Ainda não o tinha feito. Na verdade, hão-de convir que esta não é uma opinião sobre o livro. Mas, vos garanto, isto aqui é o que o livro traz. O Amor e a Dor. A par e passo. Todos os dias. E Saudade. Sempre muita saudade.
Não há palavras que sejam suficientes para expressar a dor de perder um pai. É uma coisa tão visceral e devastadora, que se torna num daqueles momentos em que o antes e o depois se vêm separados por um limite inultrapassável. Há pessoas que sentem conforto no partilhar dessa dor, que conseguem facilmente rever-se nas palavras que outrem profere acerca da sua própria experiência, porque as ajuda a sentir que não estão sozinhas e que alguém as compreende; outras há que, por mais que procurem, sempre acharão que a dor é semelhante mas nunca igual, que o que sentem tem origem na sua individualidade e no sentimento único perante quem sempre teve aquele nome simples. P-A-I.
Acredito sinceramente que a maioria das pessoas que leu Morreste-me, de José Luís Peixoto, se terá sentido comovida pelas palavras do escritor-poeta. Seja porque, de facto, elas são comoventes e repletas do sentimento avassalador da perda, seja porque a sensibilidade de ter passado por algo semelhante faz reviver o trauma que se viveu. O passar do tempo atenua esse reviver e traz, muitas vezes, o sentimento de “culpa” pela dor se ir desvanecendo. Eu queria que este livro a trouxesse de volta. Queria chorar, queria sentir. Mas infelizmente não aconteceu. Não por falha do autor, mas porque pertenço ao segundo tipo de pessoas que referi. Considero cada dor uma dor única, irrepetível, e foi por isso que, ao ler este livro, me senti uma intrusa. Talvez não tenho pegado neste livro com o espírito certo, certamente difícil de alcançar dada a minha sensibilidade pessoal.
Foi, ainda assim, um livro que gostei de ler. Fez-me pensar e feriu-me, mesmo que o ferimento não tenha chegado ao coração. E quando as experiências não nos deixam indiferentes, vale sempre a pena. Obrigada, Márcia, pelo empréstimo.