Carcará é uma coletânea de 14 contos inéditos de Rodrigo Santos. O livro apresenta um denso tecido urbano, periférico, com diversos tons e subjetividades dos comuns, que vivem e tentam se equilibrar diante de mazelas sociais e, principalmente, de questões emocionais como: a solidão, o sentimento de abandono, o medo da morte e da violência. A abertura do conto Mesa Posta anuncia um pouco os caminhos por onde percorrem os contos de Carcará, “Uma história escrota, eu sei, mas me contaram assim e eu não posso florear. A realidade é muito mais escrota do que a ficção.” Nas narrativas de Rodrigo, as camadas menos sublimes da vida estão expostas. O autor expõe, sem reservas, quebraduras, cheiros, cores e fluxos do corpo humano, como em O Carona “Assim que voltou a si, olhou para sua perna e viu que um rasgo lateral na carne ia do joelho até quase a cintura. A carne branca, exposta como um pedaço de banha de porco, e o sangue capilando lentamente” e “Na metade do caminho, a dor no topo da cabeça começara a escorrer viscosa pela sua testa e seus olhos, e a cada tentativa de limpar o sangue dos olhos com as costas da mão, trazia um pouco de terra para seu rosto”, como também em “E aquela coisa toda de sangue, de cheiro, de suor…”, do conto Lobimana, Lobismina, Lobimoça. Nos contos desta coletânea, repletos de uma oralidade urbana fluminense, Rodrigo transita do real para o fantástico (Lobimana, Lobismina, Lobimoça) e o realismo animista, como por exemplo, no texto que dá título ao livro, onde um carcará oportunista e ortodoxo conversa com um moribundo: “Em vez de ‘pega, mata e come’, é mais um ‘opa, tá dando mole ali vou comer’. Sacações de um autor ciente do universo literário que vem construindo ao enfrentar as suas inspirações e transformá-las em uma literatura que merece ser lida.
Rodrigo Santos é pai, marido, flamenguista, escritor, professor, roteirista e corredor de rua assintomático. Publicou “Máscaras sobre Rostos Descarnados” (poesia, Ed. Muiraquitã – Rio de Janeiro, 2003), “Mágoa” (romance, Ed. Fábrica de Livros, SENAI – Rio de Janeiro, 2010), “Brechó de Almas” (poesia, Quártica Premium, 2015), “Macumba” (romance, Mórula, 2019), “Se o medo tivesse um som” (noveleta, Mórula, 2020) e “Carcará” (contos, Malê, 2021), além de publicações em coletâneas no Brasil e na França; roteirista com formação na Oficina de Roteiro da Globo e curso de extensão na PUC, trabalhou na sala de roteiro e é co-roteirista da série “Paixão FC” da Dédalo Produções. Já jogou bola com Zico e já viu um peixe-lua.
Comprei esse livro do Rodrigo Santos no lançamento de um outro livro dele que queria ler, não tinha muita expectativa. Foi uma surpresa a veia para o suspense que ele tem, em alguns momentos flertando com a fantasia do terror.
Os contos são ambientados na sua maioria em na falência da metrópole e quem for de São Gonçalo ou Niterói vai reconhecer até as ruas e becos. Apesar de alguns contos parecerem insistir em uma temática muito parecida (lá pelo meio do livro), outros são realmente pérolas de realismo fantástico.
Não espere muitas flores – pelo contrário, o livro vai despertar nojo às vezes – e nem finais felizes. Rodrigo inclusive conclui com o melhor: "Tristeza não tem fim", cujo título diz o óbvio, mas bastante.
Que soco no estômago. Rodrigo Santos navega entre a crueza cotidiana de pessoas em situação de vulnerabilidade, marcadas por estigmas, ao realismo mágico, figurativo, nos tomando de assalto pa cada conto.