Recolha de crónicas do jornalista João Pedro George, nas versões originais e completas, dedicadas à análise do meio cultural português, com especial destaque para o meio literário. Com ilustrações de Miss Inês.
«Estranhamente, ou não, as pessoas da cultura, muito mais do que os políticos, têm dificuldade em lidar com a crítica, mostram um reduzido poder de encaixe, gostam de desautorizar quem pensa pela sua própria cabeça e não está constantemente a ponderar cada palavra com medo de ferir susceptibilidades infantis. É isso que explica, parece-me, que qualquer desacordo ou discordância de pontos de vista tenda a ser encarado como um ataque pessoal ou uma tentativa de salpicar de lama os «figurões», fruto da inveja e do rancor.»
JOÃO PEDRO GEORGE nasceu em Moçambique, a 13 de Fevereiro de 1972. Licenciado em Sociologia, Mestre em Sociologia Económica e Histórica e Doutor em Sociologia da Cultura, com a tese Luíz Pacheco: maldição e consagração no meio literário português, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde leccionou entre 1998 e 2008, como professor assistente convidado. É autor de obras como O Meio Literário Português (1960-1999), Não é Fácil Dizer Bem, Puta que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco ou O Que é um Escritor Maldito? Estudo de Sociologia da Literatura. Em paralelo, depois de ter colaborado na imprensa (O Independente e Periférica), na secção de crítica literária, divide a sua actividade como tradutor, editor de textos, revisor tipográfico e ainda como escritor-fantasma, trabalhos que lhe permitiram, durante anos, viver exclusivamente da escrita.
Qualquer sociedade é uma sociedade mais capaz se valorizar devidamente o trabalho de pessoas como o de João Pedro George, autor de "Chatear o Camões: inquérito à vida cultural portuguesa". Num conjunto de ensaios e artigos, somos levados a passear pelas agruras da cultura em Portugal, através das intrigas e rodriguinhos que, quase sempre de forma descarada, vão dando de comer a uma boa e repetida meia-dúzia de "iluminados". Logo no ensaio inicial, onde o autor escalpeliza as relações profissionais de Mega Ferreira, ficamos com uma ideia genérica daquilo a que a obra se propõe: pôr o dedo na ferida sem olhar ao proprietário da mesma. Confesso que nem sempre aprecio ou concordo com as justificações com que o autor defende determinada posição, sobretudo quando essa defesa assenta na mera enumeração da repetição de palavras, ideias ou conceitos, mas o trabalho tem todo o mérito, sobretudo porque é resultado de uma honesta pesquisa das fontes. Este livro traça, de certa forma, nos seus diferentes textos, um problema endémico na sociedade portuguesa: a corrupção, o amiguismo e o partidarismo, sobretudo em áreas afectas ao funcionalismo público, em que os interesses e a famosa "cunha" se mostram no seu verdadeiro esplendor, como podemos verificar no ensaio "A ministra da cultura e a Biblioteca Nacional de Portugal".É um livro importante, só que seja por nos abrir os olhos para algumas realidades que eu, pelo menos, desconhecia. Parabéns ao autor pela coragem e dedicação a uma causa que não costuma estar do lado da nobreza mas que é, na sua essência uma nobre actividade.
«e é preciso, por vezes, uma boa controvérsia para animar o esfriado cadáver da nossa vida cultural. (p.176)
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«Para quê gastar o latim? Sim, para quê? A resposta é simples; para avacalhar, para troçar dos rebanhos de Panurgo, para satisfazer a minha vontade incoercível de escárnio, porque às vezes me dá ímpetos de achincalhar. Porque os ridículos me interessam, dão-me vontade de escrever permitem-me debochar dos espertalhões.» (p.194)
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«Estranhamente, ou não, as pessoas da cultura, muito mais do que os políticos, têm dificuldade em lidar com a crítica, mostram um reduzido poder de encaixe, gostam de desautorizar quem pensa pela sua própria cabeça e não está constantemente a ponderar cada palavra com medo de ferir susceptibilidades infantis. É isso que explica, parece-me, que qualquer desacordo ou discordância de pontos de vista tenda a ser encarado como um ataque pessoal ou uma tentativa de salpicar de lama os «figurões», fruto da inveja e do rancor. Não conheço outro modo de estar no meio cultural e intelectual que não seja o de provocar o debate de ideias, o de suscitar a tensão criadora, o de pôr em causa as imagens preconcebidas» (p.247)
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«Em suma, se este livro fosse um concerto, abandonaria a sala a meio.» (p.261)
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«O pensamento de Lourenço sobre Portugal organiza-se em torno de duas grandes ideias. A primeira não é verdadeira e a segunda não é original.» (p.367)