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352 pages, Paperback
First published October 1, 2021
Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!
Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que aí vem no fim de semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; e outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor…
Não, esta crônica não pretende salvar o Brasil. Vem apenas dar testemunho, perante a História, a Geografia e a Nação, de uma agonia humilde: um córrego está morrendo. E ele foi o mais querido, o mais alegre, o mais terno amigo de minha infância.
Em outro samba participa da discussão sobre o dialeto brasileiro dizendo que “tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português”.
Isso me lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua: “A grande dor das coisas que passaram”.
Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.
Quando Ciro morrer — o que eu espero aconteça o mais tarde possível e um pouquinho só depois de mim, que é para eu não morrer, também, de saudades dele — morrerá um estilo de cantar.
De pouquíssimos seres humanos eu gosto tanto. Não há amigo mais perfeito, se não se exigir mais do que ele, em sua baianidade, pode e sabe dar: e não é por acaso este o segredo da amizade, a gente não forçar a barra do amigo, deixá-lo ser ele mesmo, usufruir do seu convívio no que ele tem de mais saboroso e autêntico?
Quando, em 1950, regressei de meu posto de vice-cônsul em Los Angeles, depois de cinco anos de ausência, Caymmi e Antônio Maria começaram a frequentar assiduamente minha casa. As facilidades diplomáticas então existentes induziram-me a trazer 30 caixas de uísque que tiveram o poder de aguçar extraordinariamente o faro de meus amigos. A casa vivia cheia, dia e noite. Lembro-me que uma tarde estava com Paulo Mendes Campos no Juca’s Bar, na cidade, quando ouvi um cara desconhecido, na mesa ao lado, convidar um outro para ir à minha casa, onde — assegurava ele — o uísque corria. Só sei dizer que 360 garrafas do mais puro escocês foram absorvidas em cerca de dois meses: o que representa uma média de 6 unidades por dia. É, a moçada já era sadia.
Outro dia, ao ver o show de Bethânia e Ítalo sobre você e Dolores, meu Maria, eu abri o chorador. Chorei paca. Chorei tanto que, passada meia hora, não podia nem abrir os olhos. Fiquei apenas ouvindo os dois queridos intérpretes dentro da bruma da minha saudade: uma saudade excruciante, que hora me trazia você, Bochecha, em toda a sua solidão; ora você, meu Maria, rodando pela madrugada seu velho Cadillac ao longo da orla atlântica, eu a seu lado, frequentemente uma mulherzinha entre nós: às vezes minha, às vezes sua, nunca de ambos, que nós não nos dávamos a esses desfrutes.
Mas alguém está acordado e continua vivendo. Não o conheço, não sei quem é, se é homem ou mulher. Vejo apenas sua janela acesa, às vezes adivinho sua sombra, distingo a fumaça de seu cigarro. Não sei que profissão exerce, se lê ou escreve livros, se espera alguém, por que razão vai não dormir. Melhor que não saiba: já me acostumei à presença desse desconhecido companheiro da madrugada que, amargurado ou distraído, estabelece em meio à aceitação da noite a clareira de sua vigília, a certeza de uma presença humana sempre acesa dentro da escuridão. Vontade de comunicar-me com ele, estender o braço por sobre as árvores e edifícios que nos separam e cumprimentá-lo, mostrando-lhe a minha janela também acesa, e indicar-lhe que também não estou dormindo. Aqui estou eu, irmão. A noite vai tranquila, aguenta a mão aí, deixa o barco correr. É bom que nos saibamos cada um no seu posto, de sentinela enquanto a cidade dorme, à espera de um novo dia. Deixa a noite correr! Cada um na sua janela, nós nos entendemos: a noite é nossa.
Mas ao longe, por detrás dos edifícios, surge uma réstia de claridade — é a madrugada que avança. Eis que a janela acesa de súbito se apaga. O céu vai-se tornando roxo e a cidade aos poucos empalidece. Estou sozinho. Nem uma luz senão a minha. Há um instante de equilíbrio entre a sombra e o silêncio, entre a minha solidão e a de todos — e então irrompe no ar o ruído alegre e matinal da carroça do leiteiro lá embaixo, na rua, as garrafas retinindo.
Houve uma época em que a necessidade de ganhar a vida nos irmanou naquilo que chamávamos jocosamente a nossa “Companhia de Fazeção de Textos”.
Os textos tinham de ser convencionais, cheios de lugares-comuns, pois os clientes não aceitariam qualquer inovação ou ousadia de linguagem. Eram para ser falados com voz impostada em filmes, documentários de publicidade disfarçada ou mesmo ostensiva que os cinemas exibiam. Quando ambos tínhamos encomendas, dividíamos entre nós a tarefa e os parcos proventos daquela chateação. Tudo tinha de ser medido e calculado, palavra por palavra, para que cada fala correspondesse à metade de duração da respectiva sequência. Parecíamos dois malucos:
— Me arranja aí três palavras. Estou precisando de alguma coisa assim: pá-rá-rá, pá-pá, pá-pá.
— Deixa eu ver. Por que você não põe só pá, pá e pá?
Chegamos à perfeição de compor uma lista de palavras e expressões, como arrancada para o progresso, esforço titânico, movimento ciclópico, desafio do futuro, e por aí afora, para os momentos de aperto.
Difícil arte essa, a de escrever para não dizer nada, em que são mestres os editorialistas de jornal. Escrever não é bem o termo: lucubrar talvez seja melhor. Lembrávamos sempre do que disse Sérgio Porto, quando um texto seu para televisão foi recusado, porque não estava como queriam:
— Me desculpem, mas pior do que isso não sei fazer.
Houve exceções, é lógico. O texto que fizemos para um filme sobre a Sudene, por exemplo, foi na época muito elogiado. É verdade que contáramos com um colaborador de grande sabedoria: o Rei Salomão. O texto era todo composto de versículos bíblicos do Livro dos Provérbios.
Sombra é ar preto. Ao meio-dia, e este é o meu tempo, a sombra se abraça a nós e se confunde conosco. A vida e a morte no mesmo corpo. O sol fulgura sobre a minha cabeça, o fim se aproxima de meus pés, ponto final de meu domínio, ponto de partida para a solidão. Continuamos a caminhar, e a sombra cresce de nossos pés à nossa frente, enquanto o sol, perdendo-se atrás, resplandece inútil em nossas costas opacas. O homem, disse um que partiu há vinte e cinco séculos, é o sonho de uma sombra.
A alegria do futebol de Garrincha está nisso: dentro do campo, ele se integra no espaço que lhe é próprio, não reflete mais, não perde tempo com a vagareza do raciocínio, não sofre a tentação dos desvios existentes no caminho da inteligência. Como um poeta tocado por um anjo, como um compositor seguindo a melodia que lhe cai do céu, como um bailarino atrelado ao ritmo, Garrincha joga futebol por pura inspiração, por magia, sem sofrimento, sem reservas, sem planos. O futebol requintadamente intelectual de Didi é sofrido e sujeito a todas as falhas do intelecto. Garrincha, pelo contrário, se suas condições físicas estão perfeitas, se nada lhe pesa na alma, é como se fosse um boneco a que se desse corda: não reflete mais. Garrincha é como Rimbaud: gênio em estado nascente. Se um técnico desprovido de sensibilidade decide funcionar como cérebro de Garrincha, tentando ser a consciência que lhe falta, isto é, transmitindo-lhe instruções concretas, lógicas, coercitivas, pronto — é o fim. O grande mago perde a espontaneidade, o espaço, o instinto, a força. Em vez do milagre, que ele sabe fazer, ensinam-lhe a fazer um truque sensato. Não pode haver maior tolice.
Uma das nossas contradições fundamentais é a gente desejar viver na cidade grande e levar no inconsciente a intenção de criar em torno de nós a aldeia natal. […] É por sensualidade (gula, luxúria, soberba) que trocamos a paz preguiçosa da vila pelo festival demoníaco da metrópole.
Antros de perdição — sim, é verdade —, os bares são odiados por mães, esposas, filhos. A bebida quase sempre é ordinária; os moços que servem não prestam; os proprietários são ávidos.
Mas depois os bares morrem e de seus túmulos surgem os espelhos, os mármores, os painéis históricos e a matéria plástica das agências bancárias.
Da janela eu vejo os garotos no pátio do colégio, durante o recreio. Sempre me dá uma certa saudade, porque eu já fui menino. Aliás, embora pareça incrível, até mesmo pessoas como o Sr. Jânio Quadros ou Dom Hélder Câmara ou mesmo a veneranda Tia Zulmira já foram crianças. O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente, quando a gente fica adulta. Pobre daquele que abdicar completamente de gostos infantis. Ficará velho muito mais depressa. O menino que a pessoa conserva em si é um obstáculo no caminho da velhice.
Dizem até que é por isso que os chineses — de incontestável sabedoria — conservam o hábito de soltar papagaio (ou pipa, se preferem) mesmo depois de homens feitos. Não sei se é verdade. Nunca fui chinês.
Tenho uma amiga que decidiu ser mãe solteira. É maior de idade e estava apaixonada por um homem. Esperou o casamento e nada. (Isto é, esperou que ele se desquitasse para depois irem viver juntos, como está na moda atualmente.) Mas o homem, nada. E quando ela compreendeu que aquela aventura terminaria, decidiu que, pelo menos, guardaria ele um filho. Ela é independente e não tem problemas financeiros; e queria um filho cujo pai fosse aquele homem, e não outro. Então, ei-la grávida.
Pouco a pouco, com dificuldade e susto, me habituo a essa ideia de que as mulheres são independentes. Levei anos sofrendo por causa desse susto. O problema era substituir os padrões morais da província pela condescendência (ou generosidade) da metrópole. Eu era um ciumento feroz e exigia exclusividade em tudo. Quando a minha amada olhava para um homem, era como se eu estivesse perdendo sangue. E quando finalmente tudo terminou (sem que, ai de mim, nada tivesse terminado no meu coração), viajei sem paz, bebi, mordi os dedos. Ainda hoje, depois de tantos novos amores e outros tantos deslumbramentos e aflições, há em mim uma fidelidade tácita, e ainda me sinto ligado a ela. É pura metafísica, o meu amor.
Nasceu a criança — um menino de seus três quilos, guloso, esperto e rápido como o diabo, pois quando dei por mim já lá estava ele andando e falando. Somos vizinhos de praça, de vez em quando atravesso a praça e subo quatro andares para telefonar da casa de Lena. Numa dessas vezes toquei a campainha, abriu-se a porta e aquele menino, tão pequenino quando na barriga da mãe, era agora um senhor guri desembaraçado e televisivo. Isto: televisivo. Recebeu-me com uma fórmula adulta. Perguntei: “A Lena está?”. Ele respondeu como o faria um mordomo na mansão de Lorde Ascot:
— Está no banho. Entre, por favor.
“Entre, por favor…” Ora vejam! É assim que a televisão bombardeia os cérebros infantis com frases polidas, mas britânicas — isto é, sem laivo de hipocrisia ou pedantismo, depois elas crescem e entram em rebelião, aderem a tartamudeio: — “tá curtindo uma chuveirada; se vira por aí, que quando ela tá numa boa, demora paca…”