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Os Sabiás da Crônica

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Esta antologia é um convite à leitura de textos que resistiram à passagem do tempo. Além de reunir seis mestres da crônica, do lírico Rubem Braga ao rebelde José Carlos Oliveira, projeta um olhar inteiramente novo sobre a cultura brasileira. As noventa crônicas que compõem o volume formam um riquíssimo painel dos anos 1930 até a virada do século XXI: é o retrato de toda uma época.

Os sabiás da crônica celebra a força da amizade. E se engana quem pensa que a trama coletiva apaga o traço pessoal dos cronistas – pelo contrário, eles surgem aqui de corpo inteiro. O roteiro sentimental parte de cada cidade natal até desembarcar no Rio de Janeiro na década de 1940. O saber literário se mistura então ao sabor das experiências cotidianas: a roda viva de bairros e bares, as conversas sobre música e cinema, as receitas de feijoada, a poesia do futebol, tudo decantado numa prosa crítica e bem-humorada.

Organizado por Augusto Massi, o volume traz um prefácio visual com fotografias de Paulo Garcez que ilustram fielmente a atmosfera da antologia, revelando a intimidade do encontro que nos trouxe até aqui.

352 pages, Paperback

First published October 1, 2021

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Augusto Massi

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Profile Image for Barbara Maidel.
109 reviews45 followers
July 14, 2024
CANTAM OS SABIÁS

Um dos livros mais encantadores que li nos últimos anos (foi lido em 2022). Não sei se os autores são assim bonitos ou se estão geralmente fingindo pra enganar o leitor, mas me afeiçoei a eles e gostaria de recomendá-los pra todo mundo. Neste Os sabiás da crônica Augusto Massi selecionou algumas das melhores melodias dos sabiás Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e José Carlos Oliveira. Há textos pra se enternecer, pra doer, pra rir. Seguem alguns trechos dos seis cronistas canoros.

RUBEM BRAGA

De quando não tinha o que escrever e ainda estava fulo com tudo, inclusive com os leitores:

Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!
Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que aí vem no fim de semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; e outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor…


De quando ficou chateado porque seu amado córrego Amarelo estava sumindo:

Não, esta crônica não pretende salvar o Brasil. Vem apenas dar testemunho, perante a História, a Geografia e a Nação, de uma agonia humilde: um córrego está morrendo. E ele foi o mais querido, o mais alegre, o mais terno amigo de minha infância.


De quando tratou dos bons versos de Noel Rosa:

Em outro samba participa da discussão sobre o dialeto brasileiro dizendo que “tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português”.


De quando escreveu sobre o efeito poético:

Isso me lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua: “A grande dor das coisas que passaram”.


*

VINICIUS DE MORAES

De quando fez uma crônica sobre a crônica:

Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.


De quando escreveu sobre Ciro Monteiro:

Quando Ciro morrer — o que eu espero aconteça o mais tarde possível e um pouquinho só depois de mim, que é para eu não morrer, também, de saudades dele — morrerá um estilo de cantar.


De quando escreveu sobre Dorival Caymmi:

De pouquíssimos seres humanos eu gosto tanto. Não há amigo mais perfeito, se não se exigir mais do que ele, em sua baianidade, pode e sabe dar: e não é por acaso este o segredo da amizade, a gente não forçar a barra do amigo, deixá-lo ser ele mesmo, usufruir do seu convívio no que ele tem de mais saboroso e autêntico?


Na mesma crônica:

Quando, em 1950, regressei de meu posto de vice-cônsul em Los Angeles, depois de cinco anos de ausência, Caymmi e Antônio Maria começaram a frequentar assiduamente minha casa. As facilidades diplomáticas então existentes induziram-me a trazer 30 caixas de uísque que tiveram o poder de aguçar extraordinariamente o faro de meus amigos. A casa vivia cheia, dia e noite. Lembro-me que uma tarde estava com Paulo Mendes Campos no Juca’s Bar, na cidade, quando ouvi um cara desconhecido, na mesa ao lado, convidar um outro para ir à minha casa, onde — assegurava ele — o uísque corria. Só sei dizer que 360 garrafas do mais puro escocês foram absorvidas em cerca de dois meses: o que representa uma média de 6 unidades por dia. É, a moçada já era sadia.


De quando escreveu sobre Antônio Maria:

Outro dia, ao ver o show de Bethânia e Ítalo sobre você e Dolores, meu Maria, eu abri o chorador. Chorei paca. Chorei tanto que, passada meia hora, não podia nem abrir os olhos. Fiquei apenas ouvindo os dois queridos intérpretes dentro da bruma da minha saudade: uma saudade excruciante, que hora me trazia você, Bochecha, em toda a sua solidão; ora você, meu Maria, rodando pela madrugada seu velho Cadillac ao longo da orla atlântica, eu a seu lado, frequentemente uma mulherzinha entre nós: às vezes minha, às vezes sua, nunca de ambos, que nós não nos dávamos a esses desfrutes.


*

FERNANDO SABINO

De quando achou outra janela acesa na madrugada:

Mas alguém está acordado e continua vivendo. Não o conheço, não sei quem é, se é homem ou mulher. Vejo apenas sua janela acesa, às vezes adivinho sua sombra, distingo a fumaça de seu cigarro. Não sei que profissão exerce, se lê ou escreve livros, se espera alguém, por que razão vai não dormir. Melhor que não saiba: já me acostumei à presença desse desconhecido companheiro da madrugada que, amargurado ou distraído, estabelece em meio à aceitação da noite a clareira de sua vigília, a certeza de uma presença humana sempre acesa dentro da escuridão. Vontade de comunicar-me com ele, estender o braço por sobre as árvores e edifícios que nos separam e cumprimentá-lo, mostrando-lhe a minha janela também acesa, e indicar-lhe que também não estou dormindo. Aqui estou eu, irmão. A noite vai tranquila, aguenta a mão aí, deixa o barco correr. É bom que nos saibamos cada um no seu posto, de sentinela enquanto a cidade dorme, à espera de um novo dia. Deixa a noite correr! Cada um na sua janela, nós nos entendemos: a noite é nossa.
Mas ao longe, por detrás dos edifícios, surge uma réstia de claridade — é a madrugada que avança. Eis que a janela acesa de súbito se apaga. O céu vai-se tornando roxo e a cidade aos poucos empalidece. Estou sozinho. Nem uma luz senão a minha. Há um instante de equilíbrio entre a sombra e o silêncio, entre a minha solidão e a de todos — e então irrompe no ar o ruído alegre e matinal da carroça do leiteiro lá embaixo, na rua, as garrafas retinindo.


De quando, pra ganhar a vida, precisou escrever pro grande público:

Houve uma época em que a necessidade de ganhar a vida nos irmanou naquilo que chamávamos jocosamente a nossa “Companhia de Fazeção de Textos”.
Os textos tinham de ser convencionais, cheios de lugares-comuns, pois os clientes não aceitariam qualquer inovação ou ousadia de linguagem. Eram para ser falados com voz impostada em filmes, documentários de publicidade disfarçada ou mesmo ostensiva que os cinemas exibiam. Quando ambos tínhamos encomendas, dividíamos entre nós a tarefa e os parcos proventos daquela chateação. Tudo tinha de ser medido e calculado, palavra por palavra, para que cada fala correspondesse à metade de duração da respectiva sequência. Parecíamos dois malucos:
— Me arranja aí três palavras. Estou precisando de alguma coisa assim: pá-rá-rá, pá-pá, pá-pá.
— Deixa eu ver. Por que você não põe só pá, pá e pá?
Chegamos à perfeição de compor uma lista de palavras e expressões, como arrancada para o progresso, esforço titânico, movimento ciclópico, desafio do futuro, e por aí afora, para os momentos de aperto.
Difícil arte essa, a de escrever para não dizer nada, em que são mestres os editorialistas de jornal. Escrever não é bem o termo: lucubrar talvez seja melhor. Lembrávamos sempre do que disse Sérgio Porto, quando um texto seu para televisão foi recusado, porque não estava como queriam:
— Me desculpem, mas pior do que isso não sei fazer.
Houve exceções, é lógico. O texto que fizemos para um filme sobre a Sudene, por exemplo, foi na época muito elogiado. É verdade que contáramos com um colaborador de grande sabedoria: o Rei Salomão. O texto era todo composto de versículos bíblicos do Livro dos Provérbios.


*

PAULO MENDES CAMPOS

De quando estudou a sombra:

Sombra é ar preto. Ao meio-dia, e este é o meu tempo, a sombra se abraça a nós e se confunde conosco. A vida e a morte no mesmo corpo. O sol fulgura sobre a minha cabeça, o fim se aproxima de meus pés, ponto final de meu domínio, ponto de partida para a solidão. Continuamos a caminhar, e a sombra cresce de nossos pés à nossa frente, enquanto o sol, perdendo-se atrás, resplandece inútil em nossas costas opacas. O homem, disse um que partiu há vinte e cinco séculos, é o sonho de uma sombra.


De quando louvou Mané Garrincha:

A alegria do futebol de Garrincha está nisso: dentro do campo, ele se integra no espaço que lhe é próprio, não reflete mais, não perde tempo com a vagareza do raciocínio, não sofre a tentação dos desvios existentes no caminho da inteligência. Como um poeta tocado por um anjo, como um compositor seguindo a melodia que lhe cai do céu, como um bailarino atrelado ao ritmo, Garrincha joga futebol por pura inspiração, por magia, sem sofrimento, sem reservas, sem planos. O futebol requintadamente intelectual de Didi é sofrido e sujeito a todas as falhas do intelecto. Garrincha, pelo contrário, se suas condições físicas estão perfeitas, se nada lhe pesa na alma, é como se fosse um boneco a que se desse corda: não reflete mais. Garrincha é como Rimbaud: gênio em estado nascente. Se um técnico desprovido de sensibilidade decide funcionar como cérebro de Garrincha, tentando ser a consciência que lhe falta, isto é, transmitindo-lhe instruções concretas, lógicas, coercitivas, pronto — é o fim. O grande mago perde a espontaneidade, o espaço, o instinto, a força. Em vez do milagre, que ele sabe fazer, ensinam-lhe a fazer um truque sensato. Não pode haver maior tolice.


De quando tratou de coisas variadas no cenário carioca:

Uma das nossas contradições fundamentais é a gente desejar viver na cidade grande e levar no inconsciente a intenção de criar em torno de nós a aldeia natal. […] É por sensualidade (gula, luxúria, soberba) que trocamos a paz preguiçosa da vila pelo festival demoníaco da metrópole.


De quando escreveu o “Réquiem para os bares mortos”:

Antros de perdição — sim, é verdade —, os bares são odiados por mães, esposas, filhos. A bebida quase sempre é ordinária; os moços que servem não prestam; os proprietários são ávidos.
Mas depois os bares morrem e de seus túmulos surgem os espelhos, os mármores, os painéis históricos e a matéria plástica das agências bancárias.


*

SÉRGIO PORTO/STANISLAW PONTE PRETA

De quando saudou a meninice:

Da janela eu vejo os garotos no pátio do colégio, durante o recreio. Sempre me dá uma certa saudade, porque eu já fui menino. Aliás, embora pareça incrível, até mesmo pessoas como o Sr. Jânio Quadros ou Dom Hélder Câmara ou mesmo a veneranda Tia Zulmira já foram crianças. O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente, quando a gente fica adulta. Pobre daquele que abdicar completamente de gostos infantis. Ficará velho muito mais depressa. O menino que a pessoa conserva em si é um obstáculo no caminho da velhice.
Dizem até que é por isso que os chineses — de incontestável sabedoria — conservam o hábito de soltar papagaio (ou pipa, se preferem) mesmo depois de homens feitos. Não sei se é verdade. Nunca fui chinês.


*

JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

De quando tratou das mulheres emancipadas dos homens, e da sua forma particular de fidelidade àquela que ele amou primeiro:

Tenho uma amiga que decidiu ser mãe solteira. É maior de idade e estava apaixonada por um homem. Esperou o casamento e nada. (Isto é, esperou que ele se desquitasse para depois irem viver juntos, como está na moda atualmente.) Mas o homem, nada. E quando ela compreendeu que aquela aventura terminaria, decidiu que, pelo menos, guardaria ele um filho. Ela é independente e não tem problemas financeiros; e queria um filho cujo pai fosse aquele homem, e não outro. Então, ei-la grávida.
Pouco a pouco, com dificuldade e susto, me habituo a essa ideia de que as mulheres são independentes. Levei anos sofrendo por causa desse susto. O problema era substituir os padrões morais da província pela condescendência (ou generosidade) da metrópole. Eu era um ciumento feroz e exigia exclusividade em tudo. Quando a minha amada olhava para um homem, era como se eu estivesse perdendo sangue. E quando finalmente tudo terminou (sem que, ai de mim, nada tivesse terminado no meu coração), viajei sem paz, bebi, mordi os dedos. Ainda hoje, depois de tantos novos amores e outros tantos deslumbramentos e aflições, há em mim uma fidelidade tácita, e ainda me sinto ligado a ela. É pura metafísica, o meu amor.


De quando acompanhou o crescimento do filho duma amiga:

Nasceu a criança — um menino de seus três quilos, guloso, esperto e rápido como o diabo, pois quando dei por mim já lá estava ele andando e falando. Somos vizinhos de praça, de vez em quando atravesso a praça e subo quatro andares para telefonar da casa de Lena. Numa dessas vezes toquei a campainha, abriu-se a porta e aquele menino, tão pequenino quando na barriga da mãe, era agora um senhor guri desembaraçado e televisivo. Isto: televisivo. Recebeu-me com uma fórmula adulta. Perguntei: “A Lena está?”. Ele respondeu como o faria um mordomo na mansão de Lorde Ascot:
— Está no banho. Entre, por favor.
“Entre, por favor…” Ora vejam! É assim que a televisão bombardeia os cérebros infantis com frases polidas, mas britânicas — isto é, sem laivo de hipocrisia ou pedantismo, depois elas crescem e entram em rebelião, aderem a tartamudeio: — “tá curtindo uma chuveirada; se vira por aí, que quando ela numa boa, demora paca…”


***

Acima dei uma amostra com excertos, mas tudo aqui se aproveita. Também há histórias sensacionais em que não dá pra selecionar trechos sem perder a trama: “O estranho ofício de escrever”, “Aqui jazz o músico” e “Psicopata ao volante”, as três de Fernando Sabino; e “O guarda que falava português”, “Com a ajuda de Deus” e “O inferninho e o Gervásio”, de Sérgio Porto, são desses casos. O livro, enfim, é obrigatório numa boa biblioteca particular.

A edição também merece menção: o prefácio de 30 páginas de Augusto Massi traçando a história dalguns dos principais jornais e revistas brasileiros, apresentando os sabiás, comentando detalhes sobre as edições de seus livros; as inúmeras fotos dos sabiás nas primeiras páginas do livro, tiradas no dia em que se reuniram na cobertura de Rubem Braga em Ipanema prum ensaio fotográfico; o cuidado com o design do livro tanto no papel quanto na tipografia, na costura, nas orelhas e nas imagens coloridas que estão nas segunda e terceira capas (ou “atrás das orelhas”) — admirável o cuidado em fazer um livro que pode ser fruído pelos olhos e pelas mãos.
Profile Image for Harvey Hênio.
646 reviews2 followers
September 20, 2025
Em 1967, no intuito de divulgar os primeiros títulos da recém-criada Editora Sabiá o consagrado fotógrafo Paulo Garcez fez um festejado ensaio fotográfico envolvendo cinco escritores; eram eles: Rubem Braga (1913/1990), Vinícius de Moraes (1913/1980), Fernando Sabino (1923/2004), Sérgio Porto (também, ou talvez, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta (1923/1968) e José Carlos Oliveira (1934/1986). Esse ensaio fotográfico realizado na cobertura de Rubem Braga no bairro de Ipanema (RJ) serviu de inspiração para a editora Maria Amélia Mello viabilizar a ideia de lançar uma coletânea de crônicas selecionadas dentro da obra dos cinco escritores supracitados e encarregou da organização o poeta e professor de literatura da USP Augusto Massi que fez um trabalho impecável.
Todas as crônicas e todos os cronistas desta bela antologia são dignos de uma leitura atenta mas talvez tenhamos que dar razão a Clarice Lispector que afirmou certa feita que o maior cronista da história do Brasil era Rubem Braga. Fico em dúvida se ele era realmente o melhor. Afinal de contas ele “concorre” com a própria Clarice, com Lima Barreto, com Machado de Assis e com os outros luminares da crônica brasileira. Mas sem dúvida alguma ele está entre os cinco melhores. Vale a pena reproduzir trechos de duas de suas crônicas que nos fazem refletir acerca da natureza do bem escrever. A primeira chamada “Almoço Mineiro” escrita em após um lauto almoço em Poços de culinária tipicamente mineira:

“Acima de tudo pairava o divino lombo de porco com tutu de feijão. O lombo era macio e tão suave que todos imaginamos que o seu primitivo dono devia ser um porco extremamente gentil, expoente da mais fina flor da espiritualidade suína. O tutu era um tutu honesto, forte, poderoso, saudável.
“É inútil dizer qualquer coisa a respeito dos torresmos. Eram torresmos trigueiros como a doce amada de Salomão, alguns louros, outros mulatos. Uns estavam molinhos, quase simples gordura. Outros eram duros e enroscados, com dois ou três fios.
“Havia arroz sem colorau, couve e pão. [...] É possível que nesse intervalo tenhamos esquecido uma encantadora linguiça de porco e talvez um pouco de farofa. Que importa? O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. Por fora era escuro, com tons de ouro. A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem entra no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera. O gosto era de um salgado distante e de uma ternura quase musical. Era um gosto indefinível e puríssimo, como se o lombo fosse lombinho da orelha de um anjo louro. Os torresmos davam uma nota marítima, salgados e excitantes de saliva. O tutu tinha o sabor que deve ter, para uma criança que fosse gourmet de todas as terras, a terra virgem recolhida muito longe do solo, sob um prado cheio de flores, terra com um perfume vegetal diluído mas uniforme. E do prato inteiro, onde havia um ameno jogo de cores cuja nota mais viva era o verde molhado da couve – do prato inteiro, que fumegava suavemente, subia para a nossa alma um encanto abençoado de coisas simples e boas”.

Puro lirismo e plena capacidade de transformar o banal em sublime. Habilidades tão desprezadas neste Brasil governado por inimigos das artes e da cultura.
A segunda, escrita na cidade de Recife em 1935, mostra as reflexões do autor após assistir a um show da soprano Bidu Sayão:

“Foi uma noite de delícias fartíssimas. É horrivelmente vergonhoso pensar que dos 450 mil habitantes do Recife só um punhadinho possa gozar tanta riqueza de sentimento, tanta vibração de beleza. Àquela hora, meia-noite, a imensa população trabalhadora dormia extenuada para acordar hoje cedo e trabalhar faminta... Mesmo se não houvesse tantas misérias tão graves, tão angustiosas, tão básicas, bastaria esse fato em demais triste de nem todo mundo ter direito de ouvir uma artista como Bidu para justificar uma revolução. Que não será a arte quando ela não for mais um odioso privilégio de classe? Que riqueza musical não se estraga para sempre no seio da massa, e como é absolutamente necessário que todo mundo ouça artistas como Bidu! No Teatro Santa Isabel há uma placa de bronze com uma frase de Nabuco: “aqui vencemos a abolição”. Mas não vi nenhum negro no recital. Os negros e os brancos pobres – o enorme povo – não entra ali. Para ele estão fechadas as portas de todos os altos bens da vida humana. Velho Nabuco, há muitas abolições a fazer ainda”.

Sábias e contundentes palavras que fazem eco neste Brasil ainda tão elitista, desigual e estruturalmente racista. Da lavra de Rubem Braga vale destacar também “Noel Rosa, poeta e cronista”, “Tuim criado no dedo”, Viúva na praia” e “A mulher que ia navegar” e “Bilhete para Los Angeles”.
Vinícius de Moraes, o “poetinha”, também coautor de várias pérolas de nossa MPB, brinda-nos com excelentes textos como “A bela ninfa do bosque sagrado”, “Abstenção de cinema”, “Uh-uhuhuhuh-uhuhuhu”, “Cidadão Kane, o filme-revolução”, “Grandeza de Otelo”, e “Feijoada a minha moda”.
O notório Fernando sabino, autor do clássico “O encontro marcado” nos revela a sua veia de cronista afiado. Entre os seus textos presentes nesta coletânea destaco “A última flor do Lácio” “Na escuridão miserável”, “A quem tiver carro” e “Psicopata ao volante”.
Paulo Mendes Campos, revelando um estilo mais rebuscado e que, às vezes se aproxima de um ensaio, nos surpreende com textos como “Belo Horizonte”, “O cego de Ipanema”, “Mané Garrincha”, “Réquiem para os bares mortos”, “O bom humor de Lamartine” e “Meu amigo Sérgio Porto”.
O impagável Sérgio Porto que usando o misto de alcunha e alter ego Stanislaw Ponte Preta perpetrou a igualmente impagável série “Febeapá” (Festival de besteiras que assola o país) nos diverte com textos curtos e divertidíssimos com destaque para “Com a ajuda de Deus”, “Levantadores de copo”, “O inferninho e o Gervásio”, “O boateiro”, “Dolores” e “Os Vinícius de Moraes”
José Carlos Oliveira que, assim como Sérgio Porto, se foi muito jovem, foi uma surpresa para mim. Não o conhecia e essa coletânea é uma boa oportunidade para conhecer o escritor e sua “veia de cronista”. De sua lavra destaco “Evocação dos bares”, “Brasil, Pelé”, “A garota de Ipanema”, “Uma noite com os hippies" e "Meu inimigo artificial"
Para ler, reler, recomendar, dar de presente...
Profile Image for Dario Andrade.
751 reviews24 followers
September 11, 2025
Da década de 1930 até o final dos anos 1980 tivemos a era de ouro da crônica, esse gênero tão brasileiro e tão difundido nas páginas do jornais.
Aqui temos um excelente apanhado de alguns dos melhores que transitaram pelo gênero no Rio dessa época — Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto e Carlinhos de Oliveira. Falta, é claro, gente como Carlos Drummond de Andrade ou Nelson Rodrigues, mas ainda assim é uma coletânea bem representativa, com algumas pérolas e tiradas maravilhosas.
Cada qual tem seu estilo, mas todos exercitam essa coisa meio ficção, meio fato que existiu (e em menor grau ainda existe em outros meios) nos jornais brasileiros. É uma coisa que transita entre observação do cotidiano, a prosa um pouco poética, o conto ou simplesmente é aquela coisa de simplesmente ir colocando uma palavra após a outra.
Um belo retrato de um Brasil que não existe mais. Foi bom. Quem foi classe média no Rio de Janeiro até o fim dos anos 1960 teve uma baita vida. Mas tudo acaba.
Profile Image for Felipe Beirigo.
221 reviews21 followers
December 16, 2024
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOKO DEMAIS!
SE NAO FOR AGUDA É CRÔNICA DIRIA MEU MANO RUBEM BRAGA.
Profile Image for José Luis.
395 reviews12 followers
November 21, 2023
Meu recente interesse pelas crônicas me levou a esse livro, indicação (indireta) de um amigo. Gostei de ponta a ponta. Cobrindo um período de 1940 a 1970 dos nossos conhecidos cronistas Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) e José Carlos Oliveira. Além de ser uma aula sobre a escrita das crônicas, é uma descrição do Rio de Janeiro, de como a vida boêmia se desenrolou na cidade nesse período. Claro, nas crônicas muitos fatos históricos que ajudam a entender aspectos da nossa história. Para ilustrar, segue um trecho de uma crônica de Paulo Mendes Campos, Minhas janelas, nas páginas 207 e 208 desta edição do livro: "Buscava um lugar que me servisse e encontrei Ipanema. Já me mudei muitas vezes de um bairro para outro, já me mudei até de cidade, mas nos últimos anos só tenho trocado um lugar de Ipanema por outro lugar em Ipanema. Ando cansado de andanças, isto é, a idade vai chegando. Não quero mais ir, quero ficar; não quero mais procurar, quero conhecer o que já encontrei; para quem sou, as alegrias e tristezas que já tenho estão de bom tamanho." Poderia listar vários trechos lindos aqui, pura poesia. Imperdível, leitura fácil e atrativa.
Profile Image for Mariana Almeida.
28 reviews
June 28, 2024
Um verdadeiro relicário da literatura cronista brasileira. Uma seleção muito acertada, que consegue condensar bem as melhores obras destes tão renomados autores. É um livro pra ler sem pressa, nas horas vagas do dia e, de preferência, acompanhado de uma xícara de café. De todos, minhas crônicas favoritas foram Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, mas todos são bons! Ótima organização, prefácio e seleção de fotos de Augusto Massi. (As imagens nas contra-capas do livro também são um charme à parte.)
Profile Image for Adrimax.
32 reviews
May 21, 2023
Que livro caprichado! Capa elegante, contra-capa ilustrada e nove fotos belíssimas de um encontro dos escritores na cobertura de Rubem Braga no verão de 1967. Chico Buarque aparece de “penetra”. As crônicas são separadas por autor e, na bibliografia, ficamos sabendo onde e quando elas foram publicadas.

Mas nem só de crônicas é feito esse livro. “Conto rápido”, de Vinicius de Moraes, é minha história favorita (sobre uma mulher bonita que todos os dias vai à praia com o filho de 3 anos e acaba invariavelmente cercada por ratos de praia com hormônios demais e neurônios de menos. Mais, não conto).
Displaying 1 - 8 of 8 reviews

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