Parcial, subjetivo, faccioso e com algum comprometimento. Esse sou eu quando falo dos livros de Zafón. Agora que estão avisados, dar-me ouvidos/ler o que aqui escrevo, poderá não corresponder à verdade, corresponde sim à minha verdade.
Este livro, estruturalmente diferente dos demais do autor, é aquele livro que nos acolhe da mesma forma que um simpático avô, que nos recebe e abre a porta da sua casa, nos senta no seu sofá, nos oferece um chá de camomila com um cubinho de açúcar, enquanto emocionadamente, mas de uma forma descontraída (fruto da idade e da experiência), nos conta (com um leve esgar de alegria no rosto) histórias da sua vida. E então confortavelmente sentados, enquanto paira um cheiro adocicado a bolo de chocolate, nos deleitamos a ouvir/ler estes onze contos que, Zafón, postumamente, presenteou aqueles que sempre gostaram e admiraram os seus livros, sobretudo os que seguiram a tetralogia Cemitério dos Livros que se iniciou com A Sombra do Vento.
Não me parece ver alguma incompatibilidade em ler este livro sem ter antes lido a série, mas recomendo que o façam, pois acredito que será mais apreciado, vê-lo-ão devidamente contextualizado, devidamente ambientado numa Barcelona triste, sombria, cinzenta, mas terna. Uma Barcelona chuvosa, fria, ventosa, mas habitada por personagens iluminadas por um enorme halo de luz. Uma Barcelona onde não poderiam faltar os nomes Sempere e Fermín, Cervantes, Gaudí e, como não poderia deixar de ser, o maravilhoso Cemitério dos Livros Esquecidos. Uma Barcelona febril, amaldiçoada, tingida de fogo, cinzas e sangue, mas afortunada e venturosa. Uma Barcelona enfeitiçada, inebriante e misteriosa. Uma Barcelona de vapor!
Tal como os seus restantes livros, aqui encontramos uma inteligente, sublime e estilizada redação, uma narrativa bela e engenhosa, cheia de uma imaginação maravilhosamente fácil de “digerir” e aquela inevitável característica dos livros do autor - agarra-nos do princípio ao fim. A magia própria e inconfundível de um contador de histórias.
Está é uma espécie de compilação de contos (alguns inéditos) que, irremediavelmente, me deixa um amargo na boca. Mais, queria mais, mais contos, mais livros, mais Zafón. E aí caio na triste realidade…Não haverá mais! Ficamos órfãos! THE END